XI Congresso Internacional da ABRALIC
Tessituras, Interações, Convergências
Antônio Magalhães - Professor Doutor da Universidade Estadual da Paraíba - UEPB, na Pós-graduação em Literatura e Interculturalidade e de Filosofia e Ciências Sociais.
Introdução
[...] A Bíblia é interpretada como obra literária. [...] A Bíblia é rica e plural. [...] A Bíblia é considerada obra basilar da literatura ocidental [...] temos de aprender, como demonstraram Perry e Sternberg, a reparar com mais sutileza na complexidade e na economia de detalhes expressivos do texto bíblico. [...] Se a Bíblia é, ao fim das contas, uma obra de literatura, essas personalidades históricas distintas devem ser projetadas no - e depois novamente separadas do - Deus único, o monos theos, que ganhou existência quando se fundiram.
1 - Obstáculos à compreensão da Bíblia como Literatura
A história da literatura tem páginas significativas do diálogo entre texto literário e textos bíblicos [...] Há, porém, alguns obstáculos no campo do estudo do texto literário e na teologia [...] O primeiro motivo é que a Bíblia foi vista, por alguns, como livro de instituição religiosa e não como livro da cultura e de processos civilizatórios complexos. [...] os que se consideram defensores de uma crítica literária que não reconhece o tema da religião como constitutivo e estruturante de parte da literatura ocidental. [...] Os obstáculos [...] residem nos domínios ideológicos sobre o saber, em hermenêuticas teológicas restritivas e em crítica e teoria literária carente de maior diálogo com o texto bíblico.
2 - Algumas características da Bíblia como literatura
[...] Em primeiro lugar, é importante identificar a relação entre narrativa literária e modos teológicos, quer dizer, o literário da Bíblia não pode ser compreendido em profundidade sem que se leve em consideração que a narrativa é constituída por concepções religiosas e teológicas. [...] Em segundo lugar, é importante considerar o texto dentro de uma complexa totalidade artística permeada de sutilezas e economia de detalhes. [...] A riqueza da Bíblia como obra literária reside, portanto, mais na complexidade e intensidade de tramas e personagens que na narração prolixa e detalhista. [...] na Bíblia temos um novo uso: o proclamativo, o que caracterizaria a intensidade das tramas e personagens, tendo como objetivo incluir o leitor nos temas e nas opções. [...] Em terceiro lugar [...] a linguagem bíblica é também literária no sentido de ser marcada pela tensão e oscilação de personagens, o que sugere que estes podem crescer, serem alterados no decorrer das narrativas. [...] Em quarto lugar, na Bíblia hebraica temos uma progressão de dependência, interdependência e independência dos personagens humanos em relação ao divino. É possível identificar estes conflitos entre personagens humanos e Divino, em alguns casos até mesmo o desaparecimento de Deus para e emergência de personagens humanos.
3 - Religião do livro e literatura
É preciso lembrar que a Bíblia hebraica - o chamado Antigo Testamento -, a Bíblia Cristã, assim como o Alcorão não nascem em qualquer religião. Nascem em religiões monoteístas, grandes artífices da herança literária que o ocidente e o oriente possuem. [...] A Escrita foi descoberta para que? Para guardar dados que não podem simplesmente ser guardados pela memória humana, tais como rituais, obrigações, cronologias, origens; ela propicia o cultivo de certa prosa da vida, sem a qual nenhuma economia seria construída, nenhuma massa humana poderia ser organizada e nenhum Estado seria erigido. A poesia tinha, ao contrário, um lugar seguro na memória e não precisava de escrita. Demorou séculos, talvez milênios, até que a poesia descobriu o meio da escrita para si Isto foi a hora do nascimento da literatura. [...] Na mídia da transmissão oral repousa a memória cultural da sociedade e da forma segura da repetição, [...] na mídia da escrita, a memória cultural se emancipa das obrigações da repetição e da expectativa coletiva e abre-se ao novo e ao indivíduo. [...] O específico da literatura repousa antes de tudo na inovação, no individual, na emancipação. Para isto ela precisa da escritura: para fazer ir além do que é dado e fazer valer o individual, o não-coletivo, o não-ouvido. [...] a literatura herda todas as características da memória cultural organizada oralmente, o estético, o ficcional, o extra-cotidiano, e avança de forma violenta num passo decisivo da história humana. [...] a literatura é ruptura da tradição. A literatura nasceu do espírito da escritura. [...] A literatura significa bem mais que uma liberação do ciclo da repetição. Ela liberta da imediatez da compreensão, possibilita releituras infindas, cria uma rede de relação variada por meio de subtextos e tradições, destaca o significado das palavras por meio de ironia e ambivalência, cria orientação e instabilidade por meio dos conselhos e interpretação variada e faz emergir mundos do texto, que, segundo Hans P. Schmidt correspondem à fala da complexidade do ser humano. [...] A literatura é a mídia de conquista da distância e da libertação pessoal dos cerceamentos da realidade dada. [...] O texto abre o processo hermenêutico, [...] A literatura é a única possibilidade que o mundo tem de olhar para si. [...] O monoteísmo narrativo, uma história de Deus e de um povo, é uma forma de poesia do mundo refinada que vai desde a criação até o fim do mundo. [...] A literatura é neste sentido da ficção que cria novos espaços da convivência e da retaliação pessoal. [...] O que aconteceu no campo da religião com a escritura é algo, porém, novo no contexto de Israel. [...] a escritura se tornou prescrição que aponta para a plenitude tanto na vida individual quanto na vida de sociedade [...] Existe uma arte da significação nos textos bíblicos, de forma tal que a história pode sr ouvida e lida diversas vezes, suas falas rememoram e incomodam, seus silêncios e suas frases evocam a reescritura e o recontar. [...] A arte da significação evoca a interpretação ininterrupta. [...] Com a superação da visão exegética do texto, novas possibilidades de interpretação foram sendo articuladas, inclusive a relação do texto bíblico com a literatura e o texto bíblico como literatura.
Conclusão
Indubitavelmente os autores apresentam divergências importantes em sua interpretação da Bíblia como literatura. [...] não estão preocupados com uma visão parcial do texto, antes vêem na polissemia do texto um aspecto fundamental de sua dimensão literária, ainda que tenha uma continuidade inquestionável na força dos personagens.
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