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terça-feira, 3 de abril de 2018
Pilatos e Jesus - Giorgio Agamben
Editora - UFSC /Boitempo Editorial
78 páginas
Orelha - Giorgio Agamben,filósofo italiano, é um dos principais intelectuais de sua geração. Deus cursos em várias universidades europeias e norte-americanas, mas se recusou a prosseguir lecionando na New Yourk University em protesto à política de segurança dos Estados Unidos. Afastou-se da carreira docente no final de 2009. Sua obra, influenciada por Michel Foucault e Hanna Arendt, centra-se nas relações entre filosofia, literatura, poesia e fundamentalmente, política. Entre seus principais livros destacam-se Homo sacer, Estado de exceção, Profanações, O que resta de Auschwitz, O reino e a glória, Opus Dei e Altíssima pobreza, publicados pela Boitempo, e Categorias italianas.
11- Durante toda a durarão do processo, no mais, Pilatos apenas tergiversava, tentando, primeiro, declarar-se incompetente e remeter o juízo a Herodes, propondo, depois, uma anistia por conta da Páscoa e, por fim, mandando flagelar o acusado para subtrair-se à acusação maior. Mas quando todo expediente e qualquer tergiversação resultam vãos, ele não pronuncia o juízo, limita-se a "entregar" Jesus.
12 - O que é com efeito um processo sem juízo? E o que é pensa nesse caso, a crucifixão - que não segue a um? Pilatos, o obscuro procurador da Judéia, que devia agir como um juiz em um processo, refuta-se a julgar o acusado: Jesus, cujo reino não é deste mundo, aceita submeter-se ao juízo de um juiz. Pilatos, que se refuta a julgá-lo.
16 - No tribunal que coloca frente a frente os dois reinos, uma mútua acusação poderia ser levantada - e, no mais, todo o debate sobre a verdade e sobre a realeza, que aparece nas cenas descritas por João (e aqui analisadas minuciosamente por Agamben), são dessa acusação, por vezes irônicas, que ao levarmos em conta a dinâmica do alter ego, os homens Pilatos e Jesus fazem entre si e a si mesmos.
18 - Pilatos e Jesus, desse modo, é um ensaio - um gesto - em que Agamben tenta mostrar como o lugar da krisis, do juízo, hoje abre o mundo dos homens ao funcionamento de um estado de exceção fictício, em que a lei (a caducidade da lei vige sem significar. E enquanto perdurar esse estado (e não advir uma suspensão efetiva da lei - tal como Agamben lê nas cartas paulinas) permaneceremos - acusados por ninguém mais do que nós mesmos e implicados num processo interminável - decidindo sobre o indecidível que é a vida, na aporia de uma "decisão incessante [que] não decide propriamente nada". Vinicius Nicastro Honesko
22 - [...] o processo de Jesus é um dos momentos-chaves da história da humanidade, no qual a eternidade atravessou a história num ponto decisivo. Assim, muito mais urgente é a tarefa de compreender como e por que esse cruzamento entre o temporal e o eterno, e entre o divino e o humano, tenha assumido justamente a forma de uma krisis, isto é, de um juízo processual.
24 - [...] textos "apócrifos" do Novo Testamento (o tero, que acabou por significar "falsos, não autênticos, significa, na verdade, simplesmente "escondidos") [...] no Evangelho de Nicodemos [...]
25 - O diálogo com Jesus a respeito da verdade, que nos sinóticos termina bruscamente com a pergunta de Pilatos, aqui, como veremos, continua e adquire significado totalmente diferente. Ainda mais inesperada é a rendição final de Pilatos diante das insistências dos hebreus, quando, tomado por um repentino temor, ordena que Cristo seja flagelado e crucificado.
A lenda sobre Pilatos (os assim chamados Acta ou Gesta Pilati) é formada por duas linha divergentes. Em primeiro lugar, uma lenda "branca", atestada pelas cartas pseudoepígrafes dirigidas a Tibério e pela Paradosis, segundo a qual Pilatos, com sua mulher, Procla, teria compreendido a divindade de Jesus e somente por fraqueza teria cedido às insistências dos hebreus.
26 - Autodefesa que Pilatos dirige a Jesus, quando Tibério decide puni-lo com a decapitação:
Senhor não me confundas com esses miseráveis hebreus na destruição. Visto que, se ergui a mão contra ti, o fiz forçado por aquela multidão de hebreus que me atormentava: mas tu sabes que agi por ignorância. Não me condenes, então por esse pecado, mas perdoa-me e perdoa assim também a tua serva Procla, que está ao meu lado na hora da morta e que destinaste a profetizar tua crucificação. Não a condenes por causa da minha falta, mas tem piedade e nos inclui entre teus justos.
27 - A cristianização de Pilatos alcança seu vértice no Evangelho de Gamaliel, conservado em uma recensão etíope. Aqui se lê que Pilatos e sua esposa amavam Jesus como a si mesmos. Ele o condenara ao flagelo para satisfazer os malvados hebreus, para que o coração deles se tornasse mais favorável e o deixassem ir, sem condená-lo à morte.
28 - [...] a absolvição de Pilatos na lenda coincide com a intenção de atribuir a responsabilidade da crucificação exclusivamente ao hebreus.
A lenda branca de Pilatos contrasta como que dele nos chega através das fontes extrabíblicas.
29 - Tibério, doente, fica sabendo que em Jerusalém há um médico de nome Jesus que cura todas as doenças somente com sua palavra.
Quando Volusiano chega a Jerusalém, lhe apresenta o pedido do imperador; Pilatos, [...] lhe responde dizendo que aquele homem era um isso, m malfeitor e, por isso, o tinha mandado crucificar. Volusiano, de volta a sua habitação, se depara com uma mulher de nome Verônica [...]
30 - Volusiano volta, então, a Roma com Verônica e comunica ao imperador Tibério que o médico Jesus foi entregue por Pilatos e pelos hebreus a uma injusta morte por motivo de inveja.
"Mas veio comigo certa matrona trazendo sua imagem: se tu a olhares devotamente, loco recuperarás o benefício da tua saúde. Por isso César mandou preparar o caminho com panos de seda e ordenou que lhe fosse apresentada a imagem: logo que olhou para ela, obteve a primitiva saúde.
32 - Os evangelista, que certamente não podiam estar presentes no processo, não preocupam em indicar as fontes de suas narrações e, justamente, essa ausência de escrúpulos filológicos confere à narrativa um incomparável tom épico. As cartas e as lencas, independentemente de seu resultado sombrio ou glorioso, foram, presumivelmente, inventadas para fornecer uma documentação do processo e, ao mesmo tempo, para dar conta do comportamento de Pilatos.
36 - Acontece o primeiro e acirrado confronto entre Pilatos e Jesus.
Pilatos[...] lhe perguntou:"És? tu o rei dos judeus?". Jesus respondeu: "Dizes isso por ti ou os outros te disseram isso de mim?" Respondeu Pilatos:"Talvez seja eu um judeu? A sua nação e os sumos sacerdotes t
e entregaram a mim. O que fizeste?"
A julgar por sua réplica, Jesus não esperava a pergunta: de fato, o que tem a ver o prefeito romano com uma questão interna do judaísmo, como era a expectativa hebraica do messias?
37 - Ao invés de responder à pergunta: "O que fizeste?" Jesus replica à precedente: O meu reino não é deste mundo. [...]
A resposta é ambígua, porque nega e, ao mesmo tempo, afirma a condição régia.[...]
Pilatos tem razão em replicar:"Então tu és rei?" A resposta de Jesus desloca improvisadamente o discurso do Reino para a verdade:
Tu dizes que eu sou rei.
38 - Quem é da verdade ouve a minha voz.
E aqui Pilatos pronuncia o que Nietzsche definiu como a "tirada mais sutil de todos os tempos: " O que é a verdade?".
[...] a pergunta de Pilatos, interpretada tradicionalmente como expressão irônica de ceticismo [...] e até mesmo de escárnio [...] não é necessariamente tal. [...] Pilatos, uma vez esclarecido que o Reino de Jesus não tem a ver com este mundo, quer saber a verdade e deixar claro de qual reino o acusado está dando testemunho: sua pergunta não se refere à verdade em geral [...] mas a verdade especial que Jesus parece indicar e que ele não consegue apreender. Confrontam-se aqui, talvez, não verdade e ceticismo, fé e incredulidade, mas duas verdades diferentes, ou duas concepções diferentes da verdade.
39 - Não tendo encontrado culpa no acusado, Pilatos deveria ter emitido um veredito de inocência [...] ou suspendido o processo e pedido uma complementação do inquérito.
40 - Pilatos procura incessantemente evitar proferir um veredito.
"Pilatos, vendo que não havia o que fazer, mas que o tumulto podia crescer, pegou água e lavou mãos diante da multidão, dizendo: 'Sou inocente do sangue deste justo'".
43 - Pilatos disse aos judeus: "Eis o vosso rei". Mas eles gritaram: "Fora! Fora! Crucifica-o!". Disse-lhes Pilatos: "Crucificarei o vosso rei?". Responderam os sumos sacerdotes: "Não temos outro rei senão César". Então, o entregou a eles para que fosse crucificado.
Bickerman observou, com razão, que o fato de Pilatos ter se sentado no trono só nesse momento significa que todo do debate precedente não tem valor processual, mas privado: "Segundo as regras invariáveis do procedimento romano, os crimes capitais, como era o de Jesus, não podiam ser julgados senão pro tribunali [...] Pilatos age aqui como intermediário, árbitro, e não como juiz".
44 - A questão do Reino de Jesus, mundano ou celeste que seja, continua suspensa até o fim. E é precisamente por isso que a argumentação final dos membros do sinédrio ("Não temos outro rei senão César") convence Pilatos a entregar Jesus.
A questão da realeza volta com toda a força na inscrição (titulus) que Pilatos manda colocar sobre a cruz: "Jesus nazarenos, Rei do Judeus" (Jo 19,19). Ao mencionar o motivo pelo qual foi condenado (Mt 27,37), ela parece afirmar ao mesmo tempo a sua realeza.
45 - A ambiguidade da insígnia não deixa de ser percebida pelos membros do sinédrio porque eles pedem a Pilatos para trocá-la: "Não escreva: Rei dos Judeus, mas que disse ser Rei dos Judeus". Aqui Pilatos pronuncia sua segunda frase histórica, que parece desmentir a outra, igualmente célebre, sobre a verdade e, com esta, suas precedentes tergiversações e todo suposto ceticismo: "O que escrevi, escrevi" (Jo 19,21-22).
Dir-se-ia que o evento que está em jogo na paixão de Jesus não é senão uma "entrega", uma "tradição" no sentido próprio do termo. [...] O primeiro ato dessa tradição é a cena em que Judas, beijando Jesus, o "entrega" aos hebreus [...] elas se alternam como se fossem uma rima interna ou uma aliteração [...]
46 - Foi terega"a Karl Barth quem percebeu que a "entrega" tem realmente um significado teológico. Aliás, a "tradição" terrena de Jesus entra em choque, pontualmente, com uma tradição celeste, precedente, que Paulo enuncia nestes termos: "Deus não poupou o próprio filho, mas o entregou por nós". Jesus tem consciência dessa tradição, que ele evoca explicitamente: "O filho do homem será entregue nas mãos dos homens e o matarão"; "Deus amou o mundo e deu seu Filho unigênito, para que não pereça quem nele crê". Nessa perspectiva teológica, a "entrega" terrena - a "tradição" - de Judas e depois a dos hebreus e de Pilatos aparecem como uma execução da "entrega" divina.
47 - A ação de Judas não deve ser entendida como incidente invejoso e muito menos como manifestação do reino das trevas, para além da vontade e da obra divina, mas do início ao fim, como elemento da vontade de Deus. Agindo como quer, Judas cumpre o que Deus quis que fosse feito. Já ele - e não somente Pilatos - é um executor Novi Testamenti.
A última cena desse drama é mais uma entrega: o momento em que Jesus "entrega o espírito".
48 - [...] há somente uma autêntica tradição cristã: a da "entrega" - por parte primeiramente do Pai, depois de Judas e dos hebreus - de Jesus à cruz, que aboliu e realizou todas as tradições.
49 - Com o veredito de Pilatos, a história irrompe na economia e suspende sua "entrega". A krisis histórica é também - e sobretudo - crise da tradição.
50 - O representante do reino terreno é competente para julgar o "reino que não é daqui", e Jesus - importa não esquecer - reconhece-lhe essa competência, que lhe vem "do alto". Que isso aconteça, como acreditava Pascal, para aumentar o tamanho da ignomínia ("Jesus Cristo não quis ser morto sem as formas da justiça, porque é muito mais ignominioso morrer por justiça do que por uma sedição injusta - Pascal, 1972, p 695) ou por qualquer outra razão, o que é certo é que ele não quis subtrair-se ao julgamento.
O julgamento que Pilatos realiza não é, contudo, propriamente um julgamento.
51 - Do ponto de vista do direito, "Jesus de Nazaré não foi condenado, mas morto: seu sacrifício não foi uma injustiça, foi um homicídio".
56 - O eterno não quer julgar o mundo, quer salvá-lo; ao menos até o fim dos tempos, julgamento e salvação excluem-se mutuamente.
Se isso é verdade, por que aquele que não julga deve ser submetido ao julgamento de um juiz, o Reino eterno deve ser "entregue" ao julgamento de um reino terreno?
63 - O julgamento é implacável e, ao mesmo tempo, impossível, porque nele as coisas aparecem como perdidas e sem salvação; a salvação é piedosa e, contudo, ineficaz, porque nela as coisas aparecem como não julgáveis.
Glosas
O cruzamento entre o temporal e o eterno assumiu a forma de um processo, mas de um processo que não se conclui com um julgamento. Jesus, cujo reino não é deste mundo, aceitou submeter-se ao julgamento de um juiz, enquanto Pilatos recusa-se a julgá-lo.
66 - Mas o que é um processo sem julgamento?
67 - Um processo sem julgamento é, portanto, em si mesmo, uma contradição.
Se não pode existir um processo sem juízo, muito menos pode existir, sem juízo, uma pena.
69 - É possível que Paulo, quando elaborou sua crítica à lei, na Carta aos romanos, tivesse conhecimento de narrações do processo de Jesus que foram depois reunidas nos Evangelhos. À sua tese peremptória - de que não podemos ser justificados através da lei, mas somente através da fé - corresponde pontualmente o fato de que Jesus não podia, na realidade, ser julgado.
73 - Por que o evento decisivo da história - a paixão de Cristo e a redenção da humanidade - deve assumir a forma de um processo? Por que Jesus deve acertas as contas com a lei e confrontar-se com Pilatos - o vicário de César -, num impasse do qual, até o último momento, não parece conseguir escapar?
Cristo como atesta o escriba Lucas, quis nascer da Virgem, sua mãe, sob o édito da autoridade romana, para que, naquele censo de todo o gênero humano, o filho de Deus, feito homem, fizesse parte do censo como homem [...]. Talvez seja mais justo considerar que o édito foi proclamado por César, segundo a vontade de Deus, de forma que aquele que foi esperado por séculos na sociedade dos homens fosse assinalado entre os mortais.
A insolubilidade implícita no embate entre os dois mundos, e entre Pilatos e Jesus, é atestada nas udas ideias-chaves de modernidade: que a história seja um "processo" e que esse processo, enquanto não se concluir em um juízo, esteja em permanente estado de crise. Nesse sentido, o processo de Jesus é uma alegoria do nosso tempo que, como toda época histórica que tenha respeito por si própria, deveria ter a forma escatológica de uma novissima dies [o último dia, o dia do juízo final]...
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