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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte62]


- Se lembra disto?
Ela riu. Se lembra dos momentos na cadeia quando ela me libertou. E lhe chegam as palavras de despedida total, o seu desejo de que eu me tornasse inatingível. Mas eu ali estava, mais possível que nunca. E ela se esfrega com doçura no meu peito. O seu perfume me recordava o odor da sura, uma antiga embriaguez que me vinha da infância. Quando a beijei, porém, me fugiu um outro nome: Farida! Carolinda, de um golpe, se afastou de mim.
- Você conhece Farida?
- Farida? Não.
- Mas me chamou de Farida.
- Impressão sua.
Carolinda pareceu acreditar. Suas costas, contudo, ainda estavam tensas. Aquele nome lhe fazia muito mal.
- De repente, você me fez lembrar meus dois maridos.
- Dois?
- Sim, eu já tive um outro que faleceu.

Então, ela falou de suas mágoas, arrastadas águas que encheram a noite. Estêvão vivia torturado pelos ciúmes. Juntava irrazoáveis razões para acusar Carolinda. Passavam as datas históricas, ele nem tinha tempo para lembrar a comemoração. Mas Carolinda lá ia, envergadinha de cerimónia, prestar homenagem aos heróis da luta pela Independência. O administrador interrogava: ser que ela ainda lemlembrava o anterior, falecido marido? Ele morrera na guerra de libertação, Carolinda era ainda uma menina sem idade. Dizem foi emboscado não pelo inimigo português mas por próprios elementos da guerrilha. Deste então Carolinda ficara suspeitosa, ganhando mania de ver traições em todo lado. A mulher insistia: as palavras de um dirigente devem encostar com a sua prática, afinal onde estão os princípios, a razão que pediram aos mais jovens para dar suas vidas?
Mas aquela desconfiança, no final, tinha razão de ser. Não que houvesse um outro homem na vida dela. Não havia era nenhum. O administrador era uma simples ausência. Carolinda não lhe guardava nenhum afecto. Estêvão era hoje um homem de mando, amanhã seria um pau-mandado. Ela seria ainda sua servente, ele continuaria sem sequer a ver. Carolinda repetia: o casamento dela não fora prematuro. Fora pré-imaturo. Ela era criança, com muito medo e nenhum saber. Estêvão lhe dizia: não chora, Carolinda. Não sabes a adolescente que dorme com um homem cresce mais depressa?
- Eu, Carolinda, estou a fazer a tua idade, acrescentava.
Mas ela nem queria crescer. Antes de Estêvão chegar, seu único desejo era alguém que a tirasse dali. Matimati era um abafado lugar, uma prisão para seu desejo de sonhar. Carolinda não tivera meninice que se recordasse. Ela queria casar permanecendo menina. Como acontecera, afinal, no primeiro casamento. Se untava de óleos para que a sua pele brilhasse em olhos machos. Mas, ao mesmo tempo, guardava os brinquedos da adolescência. O que ela muito mais queria era ser escolhida, levada daquela miséria. Andava na estrada para ser vista. Mas não parava em nenhuma aldeia para não ser desejada por ninguém daquelas bandas. Estêvão Jonas passou por ali, fardado de guerrilheiro, sacudu (Sacudu: mochila (do francês sac-au-dos)) às costas. Ela acreditava que aquele homem estivesse de passagem para muito longe, para um mundo invislumbrável. Se ofereceu, dispondo-se a seu agrado. Depois da Independência, ele foi nomeado para chefe da administração de Matimati. Disseram ser coisa transitória. Mas o tempo passava e não chegava nunca a sua transferência. Estêvão nem sequer era dali, não entendia a língua nem os costumes daquela gente. Ele também se frustrava embora nada dissesse. Aceitava porque aprendera a disciplina de obedecer sem questionar. Vendo o tempo passar Carolinda começou a deitar ódio nele. Essa raiva lhe chegava em ondas. Ela queria magoá-lo para que ele despertasse. Fazia-lhe mal porque era uma maneira de ele se mostrar novo, de provar que estava vivo. No mais ele era um mortiço, acanhado de sonhar, medroso de pensar. Estêvão estava cansado de sua militância, exausto por sempre ter que se apagar. Foi então que surgiu na administração uma mulher de nome Farida.
Não era apenas bonita. Sua beleza tocava profundamente Carolinda e lhe fazia um gosto quase de ser homem, poder tocar aquele corpo. Farida vinha ali colocar o caso de seu filho, dado improvável nos matos. Havia centenas de outros casos mas Estêvão pôs naquele uma atenção muito especial. Carolinda, pela primeira vez, sentiu a vertigem do ciúme. Quando tocou o assunto o marido lhe respondeu:
- Farida lhe irrita? Se calhar é porque é parecida com você.
O ciúme crescia com gosto em Carolinda. Tanto que a sua entrega na cama se passou a fazer com incendiada paixão. Estêvão se admirava: que se passa consigo, mulher? Mas a tal Farida inesperadamente se retirou de Matimati. Emigrara para um naufragado barco e ali ficara. Aquilo que era simples ciúme se converteu em ódio. O que lhe dava tanta raiva? Era perder o objecto do ciúme? Ou seria inveja da outra estar a caminho de sair daquele inferno? Sim, Farida fugia da pequeninez daquele lugar mesmo que o fizesse pela loucura de embarcar num barco encalhado. Mas sempre era uma viagem, uma saída daquele inferno. Era essa fuga que Carolinda não podia aceitar. Assim, ela se deu a conceber uma vingança contra Farida. Incitava Estêvão a tomar medidas contra o barco, inventando perigos na estada de tal mulher num tal barco. Os homens de Estêvão tinham ido ao navio recolher a melhor parte dos bens? Pois Farida assistira àquele desvio, se preparava para denunciar o caso. Estêvão fingia acreditar e dava desleixadas ordens para que a dita mulher fosse retirada do barco.
- Então essa é a tal Farida?
- Sim, essa é a razão por que fiquei chocada quando você me chamou com o nome dela.
- Mas eu não chamei.
- Acredito. É minha cabeça que está presa nessa mania.
Carolinda, de novo, amoleceu em meus braços. Ali nos incómodos degraus do fantasmado casarão, ela estendeu seu corpo com a paixão do fogo e a ternura da terra.


[fim do nono capítulo]

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