Décimo capítulo - A doença do pântano
Tuahir mira e admira. Há dias que não se arredam do machimbombo.
No entanto, a paisagem em volta vai negando a aparente imobilidade da estrada.
Agora, por exemplo, se desenrola à sua frente um imenso pantanal. O mar se
escutava vizinho, a mostrar que aquelas águas lhe pertenciam. O velho se dirige
ao miúdo:
- Quer ver o mar, não é?
- Muito, tio.
- Então, vamos embora.
E se fazem por caminhos de matope onde crescem as árvores do
mangal. Atrás vai ficando a residência de chapa e cinzas, posta na estrada como
um monumento de guerra.
- Quer ver o mar por causa do quê?
O jovem nem sabe explicar. Mas era como se o mar, com seus
infinitos, lhe desse um alívio de sair daquele mundo. Sem querer ele pensava em
Farida, esperando naquele barco. E parecia entender a mulher: ao menos, no
navio, ainda havia espera. Por isso, ele enfrenta aquela marcha pelo pântano.
Chapinham numa imensidão: lodos, lamas e argilas fedorosas. A caminhada iria
durar os seguintes dias.
Logo na primeira noite os sentem. Os mosquitos. São grandes,
negros, zunzumbentes. Não mordem, apenas. Entram no sangue e ficam chiando lá
dentro.
- Merda de mosquitos!
Muidinga vai reclamando. O velho Tuahir lhe admolesta: não se
chateie, miúdo. E lhe lembra:
- Foi o mosquito que construiu o pântano. Também, dentro de nós, o
mosquito pantaneja, podrecendo nossas águas.
São tão picados que, ao despertar no seguinte dia, Tuahir tem as
orelhas feitas num dobro. Não tarda a que lhe apareçam as febres. Seu corpo se
cinzenta, os dedos se tornam asmáticos.
Ele teima:
- A febre não é derivada dos mosquitos. É o canto desses pássaros
que me faz quenturas.
- Quais pássaros?
- Você não lhes viu, esvoando por aí?
Muidinga não lembra ter avistado nenhumas aves. Quer dar cuidados
ao seu companheiro. Mas o velho não aceita. Tem tanta febre que, posto nos
charcos, faz ferver a água. O pântano em volta, sempre igual, faz perder as
direcções. Estão perdidos, cansados. Sentados num tronco, esperam nem se sabe o
quê. Devíamos ter ficado no machimbombo, comenta Muidinga.
- Foi você que queria ver o mar, lembra o velho.
O velho treme tanto que suas palavras se desconexam. Depois, se calam
ambos. À volta, se escuta apenas o silêncio pingando.
Tuahir, porém, ainda guarda algumas forças. Sobe num ramo alto e
se pendura de cabeça para baixo. Muidinga se admira ao lhe ver morcegando. Mas
ele lhe sossega: era hábito da infância. Seu sangue era fraco e a mãe o deixava
amarrado pelos pés no tecto da casa.
- Sabe o que você vai fazer agora? É. Você vai dar voltas por aí e
deitar susto nas aves da m sorte, essas que me estão trazer febres.
Muidinga parte então pelo lamaçal. O mangal, afinal, não se cansa
em repetida monotonia. A paisagem se vai desembrulhando em novidade, seus olhos
se estreiam naquela água. As garças flutuam como lenços brancos em fundo de
cinza. Suas plumas, sem outro serviço que a beleza, penteiam a alma de
Muidinga, como se lhe trouxessem a carícia do sono. Por cima do voo as brancas
aves parecem meditar, seu peito sério, quase petulante. Seus gestos são de
ensaiado bailado. Nem a fome lhes dá pressa, a caça se cumpre sempre mediante
vagares.
Na margem das águas mortas, Muidinga olha as aves se afastando.
Para além se estende o rasteirinho capim, emergindo muito verde por entre o
solo escuro. Por entre os arbustos lhe chega o lamento de uma xigovia, essa
flautinha feita em fruto da ncuacueira. Era um pequeno pastor que se aproximava.
Ao vê-lo o pastorzito se assusta. Deve pensar que Muidinga é um saltinhador do
mato. Muidinga o chama e se apresenta. Timiudamente, despontam os primeiros
fios de conversa e os dois se vão confiando. Muidinga pede que o pastor toque a
xigovia. E fecha os olhos, pronto a ser encantado.
- O senhor está dormitoso?
O pastor lhe sacode, aflito. Muidinga sorri, pedindo que comece.
Mas o outro continua receoso. Diz que já tinha visto muitos adormecerem
definitivos, ao som da flauta. Não quer que seu visitante vá muito longe,
embalado no esvoar da mente. Em vez de xigoviar diz preferir contar uma
história, verdadeira, passada consigo, naqueles mesmos pastos.
- Conta lá, então.
- Semana passada faleceu um boi, cujo esse boi era o maior de
todos.
Assim desfia o menino seu relato. Havia, entre sua manada, um
muito triste boizarrão. De manhã até de noite o bicho boiava em rasteira
solidão, esquecido de si, dos capinzais e das obrigatórias ruminações. Seus
olhos felpudos seguiam todas distracções. Tudo lhe era pretexto, fosse o
estremecer de uma sombra, fosse o farfalinar de uma borboleta tricotando seu
voo. O pastorzinho se agastava: que doença estaria a consumir o animal? E se
decidiu a segui-lo, de luz a lés. Foi então reparou que o bicho se prendia na
visão de uma dada e considerada garça. A ave pernalteava-se, se juntava às
nuvens, suas gémeas: sempre e sempre a atenção do boi nela se centrava. O
ruminante se imobilizava, impedido. O pastor chambocava o bovino a ver se ele
manadeava. O varapau, vuuum-ntáá, estalava nos costados. Nem valia a pena. Pois
ele sacudia os lentos cornos e seguia, de impossível, impassível.
Sem nenhum comer, o bicho definhava-se. O pastor nem sabia como
explicar a seu tio, dono da criação. Certa noite, ao juntar suas migalhas, o
pastor viu aquilo que duvidava de contar. Pois que o boi esticava o pescoço
para a lua e declamava mugidos que nunca foram ouvidos. De repente, se agitou
todo seu corpo, o bicho parecia estar em parto de si mesmo. De sua garganta se
afilaram os gemidos que se foram vertendo, creia-se, num cantarinhar de ave. Às
duas por uma, ele começou a minguar, pequenando-se de taurino para bezerro, de
bezerro para gato chifrudo. Em violentos arrepios se sacudiu e os pêlos, aos
tufos, lhe foram caindo. No igual tempo lhe surgiam plumas brancas. Em
instantes, o mamífero fazia nascer de si uma ave, profundamente garça.
O recente pássaro, então, percorreu o redor, procurando não se
sabe qual quê com seu olhar em
seta. Até que, de súbito, se vislumbrou uma outra garça, essa
mesma que lhe fazia, enquanto boi, demorar o coração. E o transfigurado
mamífero acorreu em volejos, se chegando à autêntica ave. Dançou em repentinos
saltos, as pernas de nervosa altura, como se estivessem ainda a soletrar os
primeiros passos. A terra parecia demasiado pesada para aquele habitante dos
céus. Ali ficaram os recíprocos dois, em namoros despregados, soltando brancas
fulgurações.
O pastor se garantiu que assim acontecia todas as noites de luar
cheio. No roçar da aurora, o boi regressava à condição de tristonho
quadripedestre. Sucedeu um ano, contudo, que por meses seguidos, a lua teimou
em não sair. Por tempos consecutivos, as noites se velaram, escuras, viscosas.
O boi percorria as nocturnas horas se mantendo boi, mugindo como as
acabrunhadas xipalapalas. Morreu na trigésima noite. O pastor assistira a sua
lenta agonia e jura ter visto lágrimas deflagrando nos redondíssimos olhos do
bicho.
O menino suspende o relato, uma angústia lhe prende a voz.
Muidinga não sabe como reparar aquela falta em seu companheiro de ocasião. Lhe
faltam palavras, lhe fogem as entrelinhas. Então, tira de si o amuleto que o
protegia dos maus espíritos, prenda de Tuahir. Afinal, trocam magias. Aquela
suave estória, concedendo leveza a um apaixonado bovino, soava como uma dádiva
de magia.
Se faz tarde, Muidinga se despede do pastorzito, regressando ao
lugar onde deixara o companheiro doente. Tuahir se desprendera da árvore e
treme. Ele tinha concebido um plano: juntariam uns paus de mangal,
improvisariam uma jangada para fugir pântano abaixo. O miúdo tinha razão,
admitia. Talvez na praia encontrassem gente, barcos, viagens.
- Mas você não tem força para nada, tio Tuahir.
Tuahir então apontou para a margem: ele já juntara os paus e os
amarrara no jeito de barcaça. Nesse poente, os dois partem naquela jangada.
Muidinga remava. Se recorda de Kindzu em suas aventurosas viagens. A
tremeluzente voz de Tuahir se faz ouvir:
- Se eu falecer aqui não me enterre no matope.
- O tio não vai morrer.
- Você não sabe nada. Vou-lhe dizer: quem morre enterrado no lodo
se transforma em peixe.
- Está bem, não lhe enterro. Se um dia o tio morrer faço como
fizeram com Taímo. Lhe deitamos na água.
O velho sorri e se enrosca em si, como se procurasse um ventre.
Depois adormece. À medida que a jangada avança no mangal o miúdo vai medindo o
quanto afecto guarda por aquele homem. No fundo, o velho foi toda a sua
família, toda a sua humanidade. A jangada escorrega pelas lisas águas até
desembocar numa margem onde a areia branqueia. Nítido se escuta o rugido do mar.
- Escute: é o mar, o autêntico mar. Já estamos perto, tio.
- Oh, esse mar já escuto desde que chegámos lá no machimbombo.
Cada vez mais a voz de Tuahir se esfuma. Em auge de arrepios, o
velho pede carinhos de mão e de peito. Não era requerer de doente mas de
esposa. Muidinga lhe ajusta a manta na esperança que ele caia em sono. Porém , Tuahir
lhe surpreende as mãos, juntando-as a seu rosto. Pede ao rapaz que se deite
juntinho a si, para ganhar quentura. O velho levanta a sua manta, abrindo
espaço para que Muidinga se ajuste. O rapaz se deita, constreito. Dois medos em
si se juntam: o de tocar em Tuahir e o de se estar deitando com a morte.
Maneirosa, a mão do outro lhe desvanece uma ruga que teima em seu rosto. Longe
se escuta o assobio da xigovia.
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