Estêvão Jonas tossiu alto, mais para se confirmar, esmaltado por
fora mas alcatifado de medo por dentro. Naquele instante, ele tinha mais freios
que dentes. Avançava colado nas paredes, forrado nelas como o deslizar de uma
sombra. Num repente, saltou em danado susto. De dentro do casarão chegaram
estrondos de madeira, caixas batendo em todos os sons. Havia alguém roubando as
heranças do malvado colono?
Por momentos, pensou que o atinado seria chamar o seu miliciano.
Não por motivo de medo mas derivado da conceituada importância da sua
sobrevivência. Nesse vai-que-vai reconsiderou. Afinal, o mensageiro tinha sido
claro: ele teria que se apresentar sozinho, mais ninguém deveria saber.
Estava na soleira de um adiado passo quando as portas se abriram
de chofre e eis que, visão dos infernos, apareceu o falecido Romão Pinto
carregando às costas o seu próprio caixão. O administrador disparou numa
correria, trepando arbustos, galgando pedras, para além das humanas
velocidades. Estrumando-se numa valeta próxima ele se extinguiu, escuro no
escuro. O defunto se aproximou e não esteve com medidas:
- Levanta-te e ajuda-me a carregar esta merda deste caixão.
Estêvão não tinha boca para tanto espanto. Porém, ainda acumulou
força para responder:
- Não sou um qualquer de carregar.
- Não és o quê? Deixa-te de calcinhices e agarra mas é desse lado.
Vá!
Estêvão mediu as condições, aplicou as mais dialécticas análises,
segundo os sábios ensinamentos do materialismo. Podia ele enfrentar um
fantasma? O melhor seria aceitar o sem-remédio da circunstância. E oferecendo
as costas, levantou a caixa. O colono, enquanto caminhava, lhe explicava: o
caixão era para oferecer ao povo. Todos dão donativos aos pobres. Aquela era a
sua solidariedade. Desperdício seria a coisa ficar ali, simples
caixão-de-correio entre vida e morte.
Arrumaram o desocupado féretro na arrecadação. Com um empurrão o
antigo colono fez sentar o administrador. E conversaram até madrugada. Que
falaram? Ninguém sabe o certo. Mas parece que o Romão deitou muita dúvida sobre
o futuro de Estêvão. Naquele regime que segurança tinha o futuro? Amanhã ele recebia
o devido pontapé nas partes adequadas e ninguém mais se lembraria dele. O
moçambicano ripostou, quisesse o estrangeiro ensinar o Padre-Nosso ao
vigarista.
- Eu tenho os meus esquemas, Romão. Não pense que somos burros,
como sempre vocês insistiram.
Esquemas, qual o quê. Uns negócios de tigela furada, coisa de
pouco brilho. Umas cervejitas de lata amontoadas no passeio? O colono roubava o
lustro da iniciativa do administrador. Naquele solene assento, o português lhe
prometia coisa grossa, choruda. A ideia sendo a seguinte: que ele mesmo, óbito
reconhecido, ainda por cima carregado de raça e nacionalidade, não mais podia
reaver seus antigos negócios.
- Já bastava ser branco, ainda por cima portuga. Agora, tudo isso
e falecido é que não vale a pena.
Necessário seria que Estêvão despachasse assinatura mais seu rosto
devidamente originário à frente do empreendimento e os cordéis correriam que
nem saliva em boca gulosa.
- Mas e o capital?, se entusiasmava o administrador.
Esse o problema. Havia dinheiro, fora e dentro. Bastante, mais até
que bastante. Mas do falecimento em diante, tudo passara para o nome de
Virgínia, a tonta viuvinha. Estêvão Jonas lançou a risada:
- Nós tendo-lhe pena e, afinal, a velha cheia da mola!
Romão bateu na parede: sim, a maldita estava podre de rica. A
dúvida que permanecia era se ela estava mesmo esmiolada, na posse de suas
plenas fraquezas? Porque havia que a convencer a assinar uns cheques,
movimentar as massas de bons modos.
- Mas ela está doente, Romão.
- Ou faz-se?
- Não sei. Uma coisa é certa: temos que cuidar dela, a velha não
pode pifar-se.
- Mas a gaja está assim tão velha?
- Na pele dela já há lugar para mais nenhuma ruga.
E os dois se acresciam do valor da idosa senhora branca. Ela não
se podia apagar, havia que proteger a assinatura das papeladas bancárias.
Entretanto, se arranjaria maneira de a convencer. Combinaram as necessárias
políticas: Estêvão Jonas devia seguir uma política de ofensa e ofensiva.
Deveria manter aceso o assunto da raça, proclamar os privilégios da maioria
racial.
- Mas dessa maneira lhe prejudico, Romão.
- Ao contrário, meu caro sócio.
E justifica: assim ninguém desconfiaria do pacto feito com um
branco. O português parece ter meditado no assunto em sua estada pela
inexistência. E desenrola mais conselhos:
- Dás umas discursatas contra a brancalhada. Só para disfarçar.
Para não chocar nas vistas, até dava graça. Um regime ganha
validade, caro Estêvão, é quando contra argumentos não há factos. Mas uma coisa
devemos acertar: o povinho discursa lá nas banjas (Banjas: reuniões) mas
decidimos nós é aqui, neste mesmo lugar, compreendes Estêvão Jonas? Não há mais
nada para ninguém, o diabo seja bruto e cego. E falemos baixinho que as paredes
têm mais orelhas que o elefante.
E o morto reentra na obscura casa. Estêvão Jonas fica a vê-lo a
extinguir-se. Seu sorriso é o de um vencedor. Ainda há pouco ele se acobardava.
Agora, o dirigente goza um sentimento de comando que há muito não
experimentava. Lá na administração não passava nenhuma das rédeas que faz mudar
o destino. E é assim, confiante que nem estátua de herói que apanha o maior
susto. Carolinda, sua bela esposa, lhe surge entre escuros arbustos.
- Que veio aqui fazer, Estêvão?
O administrador, tartamudo, se desculpa: que nada, se tratava de
um passeio digestivo para temperar o estômago.
- Onde está a mulher com quem você se encontrou?
Estêvão Jonas ri, aliviado. Então é isso? A esposa, sempre alheia
e abstraída, acredita que ele se veio encontrar com uma amante? O dignitário
sente-se orgulhoso. Os inesperados ciúmes da esposa lhe levantam a crista, galo
subitamente galante. E tranquiliza a esposa, lhe conta o sucedido, acordos e
sociedades com o pseudofalecido. Pior foi a emenda:
- Agora te apanhei, Estêvão. Você está combinado com os antigos
colonos.
- Combinado como?
- Sempre eu dei o nome certo à tua junção: você é um
administraidor!
Afinal que moral era a dele? O administrador contrargumenta:
ninguém vive de moral. Ser , cara esposa, que a coerência lhe vai
alimentar no futuro?
- Você, Estêvão, é como a hiena: só tem esperteza para as coisas
mortas.
- Essas suas palavras já são canto de sapo.
- O povo vai-te apanhar. Não voltas mais a esta casa, senão te
denuncio.
- Como não volto? Agora eu e Romão Pinto temos negócios, somos
sócios. Tenho que vir aqui. Ou não diga, mulher, que quer que ele vá até lá na
administração?
Carolinda lhe avisa: ele estava a subir a árvore pelos ramos. A
bronca quando viesse era para valer. Afinal um bruxo é apanhado por outro
bruxo.
- Não sabe, Estêvão? Casas juntas, ardem juntas.
O administrador lhe pede que ferva baixinho, ainda vinham parar
ali indevidas curiosidades. Paternal lhe aconselha bons-sensos: ela era esposa
de um africano, devia beneficiar de estar calada, subordinadinha. Devia até
ficar contente pois a riqueza que viesse seria para dividir pela família e os
parentes dela se vantajariam também.
- Não quero esse dinheiro. Nem minha família aceita dinheiro sujo.
Você há-de pagar essa traição.
- Mas Carolinda, se acalme. Isto são contradições no seio do
povo...
- Vá-se embora, Estêvão. Eu não lhe quero ouvir.
- Tem que me ouvir.
- Vá-se, senão eu grito, grito até isto se encher de gente.
O administrador se retira com alguma pressa. Antes de desaparecer
no escuro ainda olha para trás e se admira com o tamanho da sombra de Carolinda.
É uma sombra enorme que se projecta no enorme casarão. Se o administrador,
antes de retirar, tivesse posto menos medo e mais atenção teria visto Virgínia
se erguendo nos degraus da escada. Chamei a sua atenção. Virgínia, com um
gesto, me faz sentir que não há perigo, Estêvão já ali não está. Ela anuncia
sua retirada:
- Já vou. É hora de dar comida aos meus sapos.
- Eu vou consigo, lhe faço a companhia.
- Não, eu não quero que você seja visto comigo.
- E porquê?
- Não esqueça eu sou uma velha tonta, não falo com gente crescida.
Só mereço confiança das crianças. Saber o que ando a adivinhar? Que o Romão
quer que eu assine papéis autorizando dinheiros. Como é que posso assinar um
papel? E dinheiro, eu sei o que é dinheiro? Não faço nenhuma ideia. Me entende, Kindzu?
Sim, agora eu entendia as extravagâncias da portuguesa. A dita
loucura dela era seu refúgio mais seguro. E lhe fiquei a olhar enquanto ela se
despedia pela estrada escura. Carolinda escutara nossas vozes. Se aproximou,
desconfiada.
- Afinal, é você?
Me levantei e lhe acariciei os braços. Ela se anichou, com um
estremecer de ave. Mas depois, se endireitou, rectificada:
- Não podemos ficar aqui. Meu marido me desconfia muito.
- Vamos para onde, então?
- Vamos para dentro de casa.
Me arrepiei. Neguei com tanta determinação que ela sorriu: ser que
eu acreditava em ressuscitação de falecidos? Eu queria justificar as
presenciadas visões que tivera mas ela nem deixou que falasse. Que estava
certo, disse. Ficássemos ali mesmo, em plena escadaria. Sentámos em degraus
consecutivos, ela se encostou em
mim. Um volume em meu bolso me chamou a atenção. Era o colar
que Carolinda esquecera da primeira vez que fizéramos amor. Balancei o fio em
frente de seus olhos e perguntei:
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