Nessa noite, nos deitámos no relento. Constatei então que, afinal,
ninguém dor- mia nas casotas. Todos se encaminhavam para buracos escavados nos
arredores do campo. As casotas eram um disfarce para desviar as atenções dos
salteadores. Os esconderijos ainda ficavam quase longe, ocultos em insuspeitos
nenhures. Nos ajeitámos numa dessas covas mas nenhum de nós conseguiu apanhar
sono.
- Na cova quem dorme são as almas, comentou Quintino.
E nos rimos decididos a dar uma volta pelas imediações. No caminho
Quintino se entreteve com uma bela adolescente. Ela estava parada num carreiro,
cobria as suas pernas de um óleo brilhante. O luar fazia desenhos em seu corpo.
Quintino Massua não demorou a se hospedar nas confianças dela. Ele me fez um
escondido sinal para que me fosse retirando, deixando-lhe à vontade. Dei as
voltas entre os poucos arvoredos que restavam. Havia uma tranquilidade que era
quase impossível num campo de guerra, cercado de morte. Me deitei num solitário
buraco, preparando-me para fazer contas com o cansaço. De súbito, me assustou uma
sombra.
- Me disseram que você estava aqui.
Era Carolinda. Todo eu me estremeci, cativo da surpresa. Eu sabia
da possibilidade de ela visitar o campo mas não imaginava que fosse tão agora.
Além disso, o que fazia ela no campo? Carolinda começou por confessar suas
intenções: estava apenas de passagem. Esperava que uma dessas avionetas que
vinham ao campo trazer medicamentos a levasse embora dali.
- Para onde queres ir?
- Vou para a cidade.
- E o seu marido sabe?
- Não. Ele pensa que só vim visitar o campo. Pensa que regresso
amanhã de manhã na coluna.
- E Surendra?
- O indiano? Ele está na capital a tratar dos negócios. Assane
ficou, está reconstruir a loja sozinho.
Com Surendra longe das vistas, Assane podia disfarçar melhor sua
aliança com o asiático. Estêvão Jonas, por seu lado, se interessava em
participar melhor sua aliança com o asiático. Estêvão Jonas, por seu lado, se
interessava em participar do negócio. Mas tinha estranhas hesitações. Como
esquisitas eram suas movimentações nocturnas para casa do falecido Romão Pinto.
Carolinda estranhava o que acontecera com o marido: se aliando com os mortos,
seus antigos inimigos e negociando com viventes que se pareciam com tudo aquilo
que sempre dissera combater.
Quintino e sua recém-conhecida passam agora por perto de nosso
buraco. O meu amigo já tinha encontrado uma garrafa e repartia suas atenções
entre a bebida e a mulher. Acenei um adeus enquanto nos retirávamos. Volvida
uma distância, Carolinda me segredou:
- Esse seu amigo não escolheu bem. Essa mulher não é boa nem de
sonhar...
Euzinha lhe tinha falado dela. Se chamava Jotinha, era dona de
poderes. Nem os curandeiros lhe tinham dado direitamento. A menina recordava
coisas que nunca houveram. Mas punha tanta alma na lembrança que todos se
recordavam com ela. Acontecera com o dilúvio dos dinheiros, moedas chovendo sem
parar, cobrindo o chão de pratas e tilintações. E todos refugiados se lançaram
de gatas, facocherando (Facocherando: de facochero (javali)) na poeira.
Não fora a única visão de Jotinha, suas miraginações se seguiam sempre contra o
regime da realidade.
Ela agora prometia outras enxurradas. Mal que trovejava saía
correndo, bradando aos sete céus:
- É shima (Shima: farinha de milho), está a cair shima!
Os habitantes nela criam e descriam. Fingiam que sabiam ou sabiam
que fingiam? Pois todas as noites deixavam as panelas de boca ao relento,
viradas para a promessa da farinha.
- Essa mulher é perigosa. Avisa o teu amigo...
Sorri, vendo Carolinda se enroscar num suspiro. Estávamos
sentados, quase nossos corpos se tocavam. Em cima, as folhas das massaleiras
denunciavam a leve brisa. Parecia que os ramos se moviam por força própria, em
dança de lua. Nem notámos que Quintino e Jotinha regressavam de seu passeio.
Ele vinha já cambaleoso, com bafo de fermento. Jotinha trazia uma ideia: que
fôssemos todos dormir numa boa palhota, com tecto e abrigo dos bichos. Seguimos
a mulher até uma barraca onde se amontoavam sacos e caixas.
- É aqui que guardam as xicalamidades.
Dentro não se via um palmo. O espaço era estreitinho, nem sequer
nos podíamos deitar completos. Devíamos dormir meio entrançados uns nos outros.
Mas sempre era melhor que num buraco ao céu livre. Quintino ainda se sentava e
já dormia. Carolinda e Jotinha foram quase instantâneas no pegar dos sonos.
Ainda fiquei semidesperto, num ajeitar de descanso, trazendo a alma para dentro
do corpo. Já perdia a noção do mundo quando senti um braço me tocando o peito.
Me pareceu acidental. Em tal escuridão nem podia ver de quem era o braço. Devia
ser de Quintino com o descuido da bebida. Mas depois aquela mão não ficou
parada sobre meu peito. Me levantou a camisa e foi caminhando para o sul de
mim. Era uma mão de mulher. Com certeza era Carolinda que desejava repetir
namoros. Ainda pensei travar aquele braço que me prosseguia para além do
umbigo. Porém, me deixei parado, fosse dormido em sono solto. A mão deslizou no
escuro e me pegou bem no centro, disposta a brincar no escuro. Quando toquei
aqueles dedos eu me duvidei: não pareciam de Carolinda. Eram magros, cobertos
de um óleo perfumado. Afinal, Jotinha? Ao princípio, ainda me pesou vergonha.
Como poderia eu tocar uma mulher dessas, capazes de desvairadas tresloucuras?
Depois, ganhei coragem e, passando por cima não sei se de sacos se de Quintino,
me fui achegando à dona daqueles provocos. Aos modos de um desespero, fui
desenrolando a capulana em redor daquele corpo sem rosto. Minhas mãos lhe
apertaram as coxas, escorredias. Suas nádegas se avolumaram em meus dedos. Mas
ela me esgueirava, oleosa e lisa. já em seu peito meus dedos foram capazes de
charruar, sem deslizar: sua pele estava tatuada em redor dos seios. Ali me
segurei, fui descendo por seu colo. As tatuagens se espalhavam pela barriga e
eu me segurava nelas como o marinheiro se agarra nas amarras do cais. Nunca eu
vi dança com tanto corpo como o daquela mulher. Me demorei como jamais. Talvez
fosse o contra-senso que me dava sentido: fazer amor ali com toda a morte em redor. Jotinha
(seria realmente ela?) subitamente se derramou em marés, sua carne em convulsão. Seus
dedos se prenderam nas sarapilheiras dos sacos, rasgando-os. Grãos de milho se
espalharam em toda a parte e senti como se saíssem de mim, como se eu fosse a
planta que se esventrava e deixava cair suas sementes.
De manhã, acordei em sobressalto. Uma porta batendo me fez saltar.
Farida, pensei. Farida? Por que razão seu nome me surgira em tais sustos e
aflições? Uma nesga de luz entrava no armazém. Alguém saíra e deixara a porta
entreaberta. Meus olhos ganhavam costume da penumbra e, nesse enquanto, os
objectos se foram desenhando. Só eu e Carolinda ainda ocupávamos o casebre.
Carolinda estava acordada. De joelhos, observava alguma coisa no chão.
- Veja, os bichos!
Em redor dos sacos, milhares de insectos roubavam comida. Os
bichos vazavam o armazém com gulas de gigante. Como era possível? Tanto
alimento apodrecendo ali enquanto morriam pessoas às centenas no campo?
- É culpa de Estêvão Jonas, meu marido. É por isso que lhe chamo
administrador!
Carolinda ardia em
raiva. Seu marido tinha dado as expressas ordens: aqueles
sacos só poderiam ser distribuídos quando ele estivesse presente. Era uma
questão política para os refugiados sentirem o peso de sua importância. No
entanto, o administrador há semanas que não ousava arriscar caminho para
visitar o centro de deslocados. E assim a comida se adiava.
Quando saí da casinhota doeu-me a luz. Tanto sol, para quê?
Preferia que sobre o campo se estendesse a mesma penumbra do armazém. Talvez
assim não fossem tão visíveis aqueles braços mendigos que, por toda a parte, se
estendiam: estou pedir, estou pedir! Eu simplesmente abanava a cabeça a negar.
Mas ninguém acreditava que nada tivesse para dar.
Para me afastar daquelas visões, fui mais Quintino ajudar Euzinha
na busca de lenha. Corcomida como estava, ela semelhava os velhos troncos que
procurava.
- Um dia me lenham, por confusão, brincou ela.
No arvoredo peguei a catana, tentando aliviar Euzinha do peso
daquele trabalho. Mas ela, brusca, me arrancou o instrumento das mãos. Nunca
poderei esquecer os zangados olhos que me dedicou:
- Sou eu sozinha que trabalho!
E a velha golpeou o tronco, por horas suadas. Fazia gestos largos,
excedentes. Sua única preocupação era que deixássemos espaço em seu redor.
Quando não o fazíamos, ela nos corrigia:
- Saiem da frente!
Só já quando atávamos a lenha cortada é que Euzinha explicou
aquele seu comportamento: as velhas ali não eram queridas. Sua carga era um
indesejado fardo. As de sua idade já haviam todas sido abandonadas. Apenas as
que ainda trabalhavam eram suportadas. Por isso Euzinha simulava as mais
pesadas labutas. Pediu-nos que nunca a ajudássemos em nada. Prometemos. Ela
respirou com mais vagar. Estava tão cansada que o peito se afundava aquém das
costelas. Carolinda chegou e se juntou a nós. Ficámos ali os quatro, deitados
entre os capins, esperando a velha se recompor. Euzinha se estendera entre mim
e Quintino para que ninguém visse seu cansaço. Tirou a caixinha de rapé,
inspirou fundo. Carolinda então falou com voz animada. Tinha um plano. Nessa
tarde, o campo recebera mais deslocados. Ela os tinha visto chegar, cobertos de
cascas de árvores. Com certeza à noite se juntariam todos junto do
djambalaueiro e entoariam canções das boas-vindas. O que faríamos nós era
aproveitar o momento para distribuir aquela comida que dormia no armazém.
Quintino até saltou, contente da ideia. Mas Euzinha nos olhou sem transtorno,
talvez meditasse em nosso sentimento. Depois disse:
- Muitos daqui sabiam que havia comida. Eu sabia. Mas nada não
fizemos. Parece já temos vontade de morrer.
- Isso é da fome, disse Quintino.
Euzinha
deixou escapar um sorriso triste. Nos fez sinal para regressarmos ao campo. Ao
chegarmos junto da grande árvore do djambalau nos chamou atenção um zunzunar,
coral de vozearias.
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