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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 65]


Nessa noite, nos deitámos no relento. Constatei então que, afinal, ninguém dor- mia nas casotas. Todos se encaminhavam para buracos escavados nos arredores do campo. As casotas eram um disfarce para desviar as atenções dos salteadores. Os esconderijos ainda ficavam quase longe, ocultos em insuspeitos nenhures. Nos ajeitámos numa dessas covas mas nenhum de nós conseguiu apanhar sono.
- Na cova quem dorme são as almas, comentou Quintino.
E nos rimos decididos a dar uma volta pelas imediações. No caminho Quintino se entreteve com uma bela adolescente. Ela estava parada num carreiro, cobria as suas pernas de um óleo brilhante. O luar fazia desenhos em seu corpo. Quintino Massua não demorou a se hospedar nas confianças dela. Ele me fez um escondido sinal para que me fosse retirando, deixando-lhe à vontade. Dei as voltas entre os poucos arvoredos que restavam. Havia uma tranquilidade que era quase impossível num campo de guerra, cercado de morte. Me deitei num solitário buraco, preparando-me para fazer contas com o cansaço. De súbito, me assustou uma sombra.

- Me disseram que você estava aqui.
Era Carolinda. Todo eu me estremeci, cativo da surpresa. Eu sabia da possibilidade de ela visitar o campo mas não imaginava que fosse tão agora. Além disso, o que fazia ela no campo? Carolinda começou por confessar suas intenções: estava apenas de passagem. Esperava que uma dessas avionetas que vinham ao campo trazer medicamentos a levasse embora dali.
- Para onde queres ir?
- Vou para a cidade.
- E o seu marido sabe?
- Não. Ele pensa que só vim visitar o campo. Pensa que regresso amanhã de manhã na coluna.
- E Surendra?
- O indiano? Ele está na capital a tratar dos negócios. Assane ficou, está reconstruir a loja sozinho.
Com Surendra longe das vistas, Assane podia disfarçar melhor sua aliança com o asiático. Estêvão Jonas, por seu lado, se interessava em participar melhor sua aliança com o asiático. Estêvão Jonas, por seu lado, se interessava em participar do negócio. Mas tinha estranhas hesitações. Como esquisitas eram suas movimentações nocturnas para casa do falecido Romão Pinto. Carolinda estranhava o que acontecera com o marido: se aliando com os mortos, seus antigos inimigos e negociando com viventes que se pareciam com tudo aquilo que sempre dissera combater.
Quintino e sua recém-conhecida passam agora por perto de nosso buraco. O meu amigo já tinha encontrado uma garrafa e repartia suas atenções entre a bebida e a mulher. Acenei um adeus enquanto nos retirávamos. Volvida uma distância, Carolinda me segredou:
- Esse seu amigo não escolheu bem. Essa mulher não é boa nem de sonhar...
Euzinha lhe tinha falado dela. Se chamava Jotinha, era dona de poderes. Nem os curandeiros lhe tinham dado direitamento. A menina recordava coisas que nunca houveram. Mas punha tanta alma na lembrança que todos se recordavam com ela. Acontecera com o dilúvio dos dinheiros, moedas chovendo sem parar, cobrindo o chão de pratas e tilintações. E todos refugiados se lançaram de gatas, facocherando (Facocherando: de facochero (javali)) na poeira. Não fora a única visão de Jotinha, suas miraginações se seguiam sempre contra o regime da realidade.
Ela agora prometia outras enxurradas. Mal que trovejava saía correndo, bradando aos sete céus:
- É shima (Shima: farinha de milho), está a cair shima!
Os habitantes nela criam e descriam. Fingiam que sabiam ou sabiam que fingiam? Pois todas as noites deixavam as panelas de boca ao relento, viradas para a promessa da farinha.
- Essa mulher é perigosa. Avisa o teu amigo...
Sorri, vendo Carolinda se enroscar num suspiro. Estávamos sentados, quase nossos corpos se tocavam. Em cima, as folhas das massaleiras denunciavam a leve brisa. Parecia que os ramos se moviam por força própria, em dança de lua. Nem notámos que Quintino e Jotinha regressavam de seu passeio. Ele vinha já cambaleoso, com bafo de fermento. Jotinha trazia uma ideia: que fôssemos todos dormir numa boa palhota, com tecto e abrigo dos bichos. Seguimos a mulher até uma barraca onde se amontoavam sacos e caixas.
- É aqui que guardam as xicalamidades.
Dentro não se via um palmo. O espaço era estreitinho, nem sequer nos podíamos deitar completos. Devíamos dormir meio entrançados uns nos outros. Mas sempre era melhor que num buraco ao céu livre. Quintino ainda se sentava e já dormia. Carolinda e Jotinha foram quase instantâneas no pegar dos sonos. Ainda fiquei semidesperto, num ajeitar de descanso, trazendo a alma para dentro do corpo. Já perdia a noção do mundo quando senti um braço me tocando o peito. Me pareceu acidental. Em tal escuridão nem podia ver de quem era o braço. Devia ser de Quintino com o descuido da bebida. Mas depois aquela mão não ficou parada sobre meu peito. Me levantou a camisa e foi caminhando para o sul de mim. Era uma mão de mulher. Com certeza era Carolinda que desejava repetir namoros. Ainda pensei travar aquele braço que me prosseguia para além do umbigo. Porém, me deixei parado, fosse dormido em sono solto. A mão deslizou no escuro e me pegou bem no centro, disposta a brincar no escuro. Quando toquei aqueles dedos eu me duvidei: não pareciam de Carolinda. Eram magros, cobertos de um óleo perfumado. Afinal, Jotinha? Ao princípio, ainda me pesou vergonha. Como poderia eu tocar uma mulher dessas, capazes de desvairadas tresloucuras? Depois, ganhei coragem e, passando por cima não sei se de sacos se de Quintino, me fui achegando à dona daqueles provocos. Aos modos de um desespero, fui desenrolando a capulana em redor daquele corpo sem rosto. Minhas mãos lhe apertaram as coxas, escorredias. Suas nádegas se avolumaram em meus dedos. Mas ela me esgueirava, oleosa e lisa. já em seu peito meus dedos foram capazes de charruar, sem deslizar: sua pele estava tatuada em redor dos seios. Ali me segurei, fui descendo por seu colo. As tatuagens se espalhavam pela barriga e eu me segurava nelas como o marinheiro se agarra nas amarras do cais. Nunca eu vi dança com tanto corpo como o daquela mulher. Me demorei como jamais. Talvez fosse o contra-senso que me dava sentido: fazer amor ali com toda a morte em redor. Jotinha (seria realmente ela?) subitamente se derramou em marés, sua carne em convulsão. Seus dedos se prenderam nas sarapilheiras dos sacos, rasgando-os. Grãos de milho se espalharam em toda a parte e senti como se saíssem de mim, como se eu fosse a planta que se esventrava e deixava cair suas sementes.
De manhã, acordei em sobressalto. Uma porta batendo me fez saltar. Farida, pensei. Farida? Por que razão seu nome me surgira em tais sustos e aflições? Uma nesga de luz entrava no armazém. Alguém saíra e deixara a porta entreaberta. Meus olhos ganhavam costume da penumbra e, nesse enquanto, os objectos se foram desenhando. Só eu e Carolinda ainda ocupávamos o casebre. Carolinda estava acordada. De joelhos, observava alguma coisa no chão.
- Veja, os bichos!
Em redor dos sacos, milhares de insectos roubavam comida. Os bichos vazavam o armazém com gulas de gigante. Como era possível? Tanto alimento apodrecendo ali enquanto morriam pessoas às centenas no campo?
- É culpa de Estêvão Jonas, meu marido. É por isso que lhe chamo administrador!
Carolinda ardia em raiva. Seu marido tinha dado as expressas ordens: aqueles sacos só poderiam ser distribuídos quando ele estivesse presente. Era uma questão política para os refugiados sentirem o peso de sua importância. No entanto, o administrador há semanas que não ousava arriscar caminho para visitar o centro de deslocados. E assim a comida se adiava.
Quando saí da casinhota doeu-me a luz. Tanto sol, para quê? Preferia que sobre o campo se estendesse a mesma penumbra do armazém. Talvez assim não fossem tão visíveis aqueles braços mendigos que, por toda a parte, se estendiam: estou pedir, estou pedir! Eu simplesmente abanava a cabeça a negar. Mas ninguém acreditava que nada tivesse para dar.
Para me afastar daquelas visões, fui mais Quintino ajudar Euzinha na busca de lenha. Corcomida como estava, ela semelhava os velhos troncos que procurava.
- Um dia me lenham, por confusão, brincou ela.
No arvoredo peguei a catana, tentando aliviar Euzinha do peso daquele trabalho. Mas ela, brusca, me arrancou o instrumento das mãos. Nunca poderei esquecer os zangados olhos que me dedicou:
- Sou eu sozinha que trabalho!
E a velha golpeou o tronco, por horas suadas. Fazia gestos largos, excedentes. Sua única preocupação era que deixássemos espaço em seu redor. Quando não o fazíamos, ela nos corrigia:
- Saiem da frente!
Só já quando atávamos a lenha cortada é que Euzinha explicou aquele seu comportamento: as velhas ali não eram queridas. Sua carga era um indesejado fardo. As de sua idade já haviam todas sido abandonadas. Apenas as que ainda trabalhavam eram suportadas. Por isso Euzinha simulava as mais pesadas labutas. Pediu-nos que nunca a ajudássemos em nada. Prometemos. Ela respirou com mais vagar. Estava tão cansada que o peito se afundava aquém das costelas. Carolinda chegou e se juntou a nós. Ficámos ali os quatro, deitados entre os capins, esperando a velha se recompor. Euzinha se estendera entre mim e Quintino para que ninguém visse seu cansaço. Tirou a caixinha de rapé, inspirou fundo. Carolinda então falou com voz animada. Tinha um plano. Nessa tarde, o campo recebera mais deslocados. Ela os tinha visto chegar, cobertos de cascas de árvores. Com certeza à noite se juntariam todos junto do djambalaueiro e entoariam canções das boas-vindas. O que faríamos nós era aproveitar o momento para distribuir aquela comida que dormia no armazém. Quintino até saltou, contente da ideia. Mas Euzinha nos olhou sem transtorno, talvez meditasse em nosso sentimento. Depois disse:
- Muitos daqui sabiam que havia comida. Eu sabia. Mas nada não fizemos. Parece já temos vontade de morrer.
- Isso é da fome, disse Quintino.
Euzinha deixou escapar um sorriso triste. Nos fez sinal para regressarmos ao campo. Ao chegarmos junto da grande árvore do djambalau nos chamou atenção um zunzunar, coral de vozearias.

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