Os deslocados se juntavam à volta de uma fogueira. Havia ali
grande confusão. Euzinha se foi inteirar da situação.
Instantes depois ela voltou com uma versão do milando:
- Há grande problema. É que esta manhã, quando as crianças
acenderam o fogo, as panelas começaram logo a rachar.
Não entendi. Tia Euzinha, agitada, entornava o rapé mais fora que
dentro das narinas. Puxei Quintino para o lado, preferi trocar esclarecimento
com ele.
- E então, mano? O que se passa?
- Se as panelas começaram a rachar é porque alguém andou namorando
esta noite.
Quintino me explicou: num lugar novo, como aquele, ninguém pode
fazer namoros, nos primeiros tempos. Para os que chegavam, aquele campo era
recente, cheio de interdições. Violar essa espera iria trazer grande desgraça.
Agora, os velhos do centro queriam saber quem foram os autores da
desobediência. Desconfiavam-nos. Muito-muito de Quintino. Lhe tinham visto com
Jotinha, conversando noite afora. Carolinda ralhou com o meu amigo:
- Mas você também, Quintino. Aquela era quase uma menina.
- Era uma mulher, já tinha idade de pilar o milho deitada.
E riu-se. Quintino não tinha jeito para ser sério, homem de alma
averbada. Eu meditava comigo mesmo. Afinal, Carolinda me evitara por causa da
tradição? Só agora entendia os modos fugidios que ela usara na noite anterior.
De alguma maneira, aquela versão me confortava. Euzinha deu ordem para que
Quintino procurasse Jotinha e lhe avisasse dos riscos que corria. Carolinda se
interpôs, para minha surpresa.
- Quem deve ir és tu, disse ela me apontando.
Como? Teria ela sentido, no escuro do armazém, que tinha sido eu a
trocar amores com a desmiolada? Foi Quintino que pediu explicação das palavras
de Carolinda.
- É que não convém vocês os dois serem vistos de novo. De Kindzu
ninguém tem desconfiança.
Aliviado, me adiantei a sair dali. Encontrei Jotinha junto dos
arbustos espinhosos que fronteiravam a aldeia. Me segurou com força as mãos e
me chamou a lembrar não o passado mas o porvir. O que ela via? Via uma menina
saindo da aldeia, manhã cedo, a luz enramelada. Essa menina, afinal, era ela
mesma. De repente, Jotinha começou rodopiar, ao mesmo tempo que gritava. Lhe
doía um fantasioso arame farpado em que se ia enrolando. Assim, se convertia em
interdito território, onde ninguém mais teria acesso. Desatada em prantos me
mostrava bem reais feridas. Sua pele sangrava, de encontro a invisíveis
espinhos.
Eu queria aliviar seu sofrimento. Então ela estendeu seus braços
em torno do meu corpo. Mas já não eram doces tatuagens que me tocariam. Sentia
sim que arames pontudos me espetavam, confusas farpas me cercavam. Me soltei do
abraço dela, escapei em
correrias. Regressei ao nosso lugar, a solicitar socorro.
Mas Euzinha me afastando em segredo:
- Esquece o que passou. O que tu vistes é coisa de não acontecer.
Jotinha se versava em dimensão de mais ninguém. Ela queria me
levar para outros aléns. Quem mandara eu lhe tocar em jeito de a tornar mãe?
Porque esse desesperado suspiro dos corpos se amando é que faz uma mulher se
transcender, aceitar em si a semente de um infinito ser. O sucedido era um sinal
para que eu escolhesse, rápido, outros confins.
- Amanhã cedo vai-te embora.
- Sim, esta noite vamos.
- Vais tu, sozinho. Quintino decidiu ficar. Ele gosta essa
Jotinha, está preso do feitiço dela.
Nessa noite, o campo festejou. Como é possível festejar em tanta
desgraça? Que motivo havia se nós ainda não havíamos distribuído os sacos de
farinha? Naquele momento, eu ficava com a certeza de existirem forças
subterrâneas onde as almas se recuperam. A festa é a tristeza fazendo o pino.
Nela a gente se comemora num futuro sonhado. Foi então que o nosso plano se
começou a concretizar. Carregando um fardo, Quintino se iluminou junto à
fogueira. Quando se aperceberam, os deslocados se aclamaram. Alguns se
atiraram, de boca em riste, para a farinha. Engoliam-na assim, às mãozadas, até
asfixiarem. As mulheres impuseram ordem. Braços imediatos desencantaram
panelas, água, lenha. E a farinha foi sendo preparada enquanto os tambores
soaram, masculinos. As meninas foram chegando com bamboleios lhes roliçando os
corpos. A luz do fogo lhes ondeava os ombros, tudo perdia seu desenho. As
bebidas se iniciavam pela areia, em respeito pelos antepassados. Euzinha me
sacudiu os braços, gritando:
- A guerra vai acabar, filho! A guerra vai acabar!
E ela partiu para a roda dançando, dançando, dançando. Lhe pedi
que repousasse, ela nem escutou. Estontinhada, débil existencial, ela ia
rodando, gemente.
- Pare Euzinha, pare!
- Não vê que estou parada, o mundo é que está dançar?
Assim, pondo a terra a girar, em brincriação de menina, fechou os
olhos com doçura. No real, ela seguia dançando, rodando até desmoronar em pleno
chão. Acorri, suspeitando a grave notícia. O peito dela já tinha desaguado
nesse outro mar onde meu pai divagava.
Olhei em volta, só eu notara o fim de Euzinha. Lhe cobri com jeito
como se dormisse. E me retirei, discreto. Era hora de eu sair dali, virar
costas daquele campo. Preferi nem sequer trocar explicação com Quintino. Ele
tinha o direito de nada me dizer. Me descaminhei pelo mato, tão absorto em mim
que nem o medo me chegou. Andei até reconhecer o caminhinho por onde Quintino
me guiara. Mais um pouco e lá estava a árvore onde eu, junto com meu pai,
matámos a ave mampfana. Me deitei afastado dos ramos, numa berma suave. Eu
estava completamente cansado. A noite anterior quase não dormira. No imediato,
o sono me alcançou todo corpo. Eu precisava ganhar forças para regressar a
Matimati. Carecia de encontrar Farida mesmo que a ela regressasse sem trazer
seu prometido filho.
[fim do décimo capítulo]
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