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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 66]


Os deslocados se juntavam à volta de uma fogueira. Havia ali grande confusão. Euzinha se foi inteirar da situação.
Instantes depois ela voltou com uma versão do milando:
- Há grande problema. É que esta manhã, quando as crianças acenderam o fogo, as panelas começaram logo a rachar.
Não entendi. Tia Euzinha, agitada, entornava o rapé mais fora que dentro das narinas. Puxei Quintino para o lado, preferi trocar esclarecimento com ele.
- E então, mano? O que se passa?
- Se as panelas começaram a rachar é porque alguém andou namorando esta noite.
Quintino me explicou: num lugar novo, como aquele, ninguém pode fazer namoros, nos primeiros tempos. Para os que chegavam, aquele campo era recente, cheio de interdições. Violar essa espera iria trazer grande desgraça. Agora, os velhos do centro queriam saber quem foram os autores da desobediência. Desconfiavam-nos. Muito-muito de Quintino. Lhe tinham visto com Jotinha, conversando noite afora. Carolinda ralhou com o meu amigo:
- Mas você também, Quintino. Aquela era quase uma menina.
- Era uma mulher, já tinha idade de pilar o milho deitada.

E riu-se. Quintino não tinha jeito para ser sério, homem de alma averbada. Eu meditava comigo mesmo. Afinal, Carolinda me evitara por causa da tradição? Só agora entendia os modos fugidios que ela usara na noite anterior. De alguma maneira, aquela versão me confortava. Euzinha deu ordem para que Quintino procurasse Jotinha e lhe avisasse dos riscos que corria. Carolinda se interpôs, para minha surpresa.
- Quem deve ir és tu, disse ela me apontando.
Como? Teria ela sentido, no escuro do armazém, que tinha sido eu a trocar amores com a desmiolada? Foi Quintino que pediu explicação das palavras de Carolinda.
- É que não convém vocês os dois serem vistos de novo. De Kindzu ninguém tem desconfiança.
Aliviado, me adiantei a sair dali. Encontrei Jotinha junto dos arbustos espinhosos que fronteiravam a aldeia. Me segurou com força as mãos e me chamou a lembrar não o passado mas o porvir. O que ela via? Via uma menina saindo da aldeia, manhã cedo, a luz enramelada. Essa menina, afinal, era ela mesma. De repente, Jotinha começou rodopiar, ao mesmo tempo que gritava. Lhe doía um fantasioso arame farpado em que se ia enrolando. Assim, se convertia em interdito território, onde ninguém mais teria acesso. Desatada em prantos me mostrava bem reais feridas. Sua pele sangrava, de encontro a invisíveis espinhos.
Eu queria aliviar seu sofrimento. Então ela estendeu seus braços em torno do meu corpo. Mas já não eram doces tatuagens que me tocariam. Sentia sim que arames pontudos me espetavam, confusas farpas me cercavam. Me soltei do abraço dela, escapei em correrias. Regressei ao nosso lugar, a solicitar socorro.
Mas Euzinha me afastando em segredo:
- Esquece o que passou. O que tu vistes é coisa de não acontecer.
Jotinha se versava em dimensão de mais ninguém. Ela queria me levar para outros aléns. Quem mandara eu lhe tocar em jeito de a tornar mãe? Porque esse desesperado suspiro dos corpos se amando é que faz uma mulher se transcender, aceitar em si a semente de um infinito ser. O sucedido era um sinal para que eu escolhesse, rápido, outros confins.
- Amanhã cedo vai-te embora.
- Sim, esta noite vamos.
- Vais tu, sozinho. Quintino decidiu ficar. Ele gosta essa Jotinha, está preso do feitiço dela.
Nessa noite, o campo festejou. Como é possível festejar em tanta desgraça? Que motivo havia se nós ainda não havíamos distribuído os sacos de farinha? Naquele momento, eu ficava com a certeza de existirem forças subterrâneas onde as almas se recuperam. A festa é a tristeza fazendo o pino. Nela a gente se comemora num futuro sonhado. Foi então que o nosso plano se começou a concretizar. Carregando um fardo, Quintino se iluminou junto à fogueira. Quando se aperceberam, os deslocados se aclamaram. Alguns se atiraram, de boca em riste, para a farinha. Engoliam-na assim, às mãozadas, até asfixiarem. As mulheres impuseram ordem. Braços imediatos desencantaram panelas, água, lenha. E a farinha foi sendo preparada enquanto os tambores soaram, masculinos. As meninas foram chegando com bamboleios lhes roliçando os corpos. A luz do fogo lhes ondeava os ombros, tudo perdia seu desenho. As bebidas se iniciavam pela areia, em respeito pelos antepassados. Euzinha me sacudiu os braços, gritando:
- A guerra vai acabar, filho! A guerra vai acabar!
E ela partiu para a roda dançando, dançando, dançando. Lhe pedi que repousasse, ela nem escutou. Estontinhada, débil existencial, ela ia rodando, gemente.
- Pare Euzinha, pare!
- Não vê que estou parada, o mundo é que está dançar?
Assim, pondo a terra a girar, em brincriação de menina, fechou os olhos com doçura. No real, ela seguia dançando, rodando até desmoronar em pleno chão. Acorri, suspeitando a grave notícia. O peito dela já tinha desaguado nesse outro mar onde meu pai divagava.
Olhei em volta, só eu notara o fim de Euzinha. Lhe cobri com jeito como se dormisse. E me retirei, discreto. Era hora de eu sair dali, virar costas daquele campo. Preferi nem sequer trocar explicação com Quintino. Ele tinha o direito de nada me dizer. Me descaminhei pelo mato, tão absorto em mim que nem o medo me chegou. Andei até reconhecer o caminhinho por onde Quintino me guiara. Mais um pouco e lá estava a árvore onde eu, junto com meu pai, matámos a ave mampfana. Me deitei afastado dos ramos, numa berma suave. Eu estava completamente cansado. A noite anterior quase não dormira. No imediato, o sono me alcançou todo corpo. Eu precisava ganhar forças para regressar a Matimati. Carecia de encontrar Farida mesmo que a ela regressasse sem trazer seu prometido filho.

 [fim do décimo capítulo]

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