Total de visualizações de página

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 64]


Décimo caderno de Kindzu - No campo da morte


Vírgínia não podia me levar até ao filho de Farida. Porque aquele estado de fantasia em que havia entrado era sem retorno. Ela se refugiara onde nunca mais nem mortos nem vivos lhe pudessem encontrar. Me recordei dos conselhos da minha infância. Me diziam: você, miúdo, faça como o galo que mostra as penas do rabo. Quanto mais belas as penas, menos você cai na panela. Virgínia exibia os coloridos sinais da loucura. Assim, ninguém mais dela se recordaria.
A mim restava-me procurar. Acordei Quintino e lhe pedi a urgência de me guiar até Euzinha. A tia de Farida era a última hipótese de receber um conselho de como descobrir Gaspar. E eu sentia já o aperto da saudade por Farida. Quintino esfregou os olhos e me pediu esclarecimento:
- Você deve escolher, Irmão: quer encontrar os naparamas ou a tal criança?
- Quero as duas coisas.
- Deixe isso dos naparamas. Vamos mas é procurar essa criança.

Nessa mesma tarde partimos à procura do campo de refugiados onde estava tia Euzinha. Andámos horas seguidas, em consecutivo cansaço. Até que chegámos a um monte cheio de penedias. Vendo como eu estava esgotado, Quintino decidiu prosseguir sozinho. O campo estava próximo, eu que ficasse a repousar nesse intervalo. Quintino partiu levando o meu cantil para o trazer cheio quando regressasse. Fiquei na sombra, remoendo um desejo: já não era a luta, os naparamas que me davam alma. Eu queria simplesmente adoecer, ansiava uma doença que me apagasse toda a paisagem por dentro. Queria receber essa doçura que a doença sempre tem. Me encostei a um tronco, a casca me almofadando o rosto, na espera de ouvir a seiva da terra. Mas a árvore onde eu me frescava era uma terrível e ossuda planta: a árvore do demónio. Era uma dessas plantas que chora como a serpente, um lamentochão que atrai gentes e bichos. Só então reparei: o terreno todo em volta era branco, areia tão brilhosa que a noite ali nunca deveria repousar. Motivo daquela brancura: todos ossos que dormiam, restos de bichos devorados, esqueletos dos pássaros que caíam já mortos dos ramos da maldiçoada árvore.
Me decidi, pronto, a sair dali. Quando me afastava, porém, das folhas se apurou um maravilhoso canto, de arrastar o sono para o último leito. Quase eu não conseguia um passo, meu corpo pesava séculos. Olhei a árvore e vi o pássaro que, em sonho, meu pai preditara. Era o mampfana, a ave matadora de viagens. Cantava, em chilreinado. Eu me joelhei, clamando pelo meu mais velho. Passou-se tempo, sem nada ocorrer. Meu pai certamente estaria bebendo sura, lá onde não havia polícia a vigiar os alambiques. Chamei mais fundo, toquei os recantos da alma onde cicatriza o nosso nascimento. O velho Taímo não dava sinal de morte.
- Pai, não me deixe! Eu lhe rezo tanto...
Então, de súbito, com um deflagrar de trovejo, a ave se rasgou em duas, desmeiada. Caíram suas penas, se estrelaram suas garras e seu corpo se desconjuntou como se fosse feito só de brasas. Fechei os olhos: uma tontura me percorria. Segurei a catana e golpeei a árvore. Naquele momento, porém, de dentro do tronco, me chegou a voz:
- Eu sou a última árvore. Aquele que me cortar ficar mulher, se for homem. Se tomar homem, se for mulher.
Reconheci aquela voz: era a do fantasma, da aparição que me roubou o mundo nas praias de Tandissico. O xipoco me perguntou:
O que aprendeste debaixo da casca desse mundo?
- Eu quero voltar, estou cansado. Eu agora sei quem és, me ajude a voltar...
- O que andas a fazer com um caderno, escreves o quê?
- Nem sei, pai. Escrevo conforme vou sonhando.
- E alguém vai ler isso?
- Talvez.
- É bom assim: ensinar alguém a sonhar.
- Mas pai, o que passa com esta nossa terra?
Você não sabe, filho. Mas enquanto os homens dormem, a terra anda procurar.
- A procurar o quê, pai?
É que a vida não gosta sofrer. A terra anda procurar dentro de cada pessoa, anda juntar os sonhos. Sim, faz conta ela é uma costureira dos sonhos.
- Espera, pai. Não vá, eu preciso contar uma coisa. Não vá...
- Como é, Kindzu:- agora falas sozinho?
Me assustei, com essa outra voz. Era Quintino que tinha voltado. Me desculpei, à toa. Ele já tinha encontrado o centro de deslocados. Me contou o que vira: milhares de camponeses se concentravam, famintos, à espera de xicalamidades. Esperavam era a morte, na maior parte dos casos.
E ele me puxou:
- Vem, anda ver com seus olhos, nem vais acreditar.
De facto, era coisa de pasmar a tristeza. O centro se espalhava como ruínas da própria terra, castanhas da cor do chão. Aquela gente dormia ao relento, sem manta, sem côdea, sem água. Se cobriam com cascas de árvores, vegetantes cheios de poeira. No meio da multidão estava Euzinha, a idosa tia de Farida. Nos apresentámos, explicando nossa intenção.
- Minha sobrinha Farida ainda vive?
- Sim, vive.
- Afinal?
Seus olhos se inundam de tristeza. Fica a contemplar memórias doces vindas de dentro dela. Seus dedos rolam uns nos outros, quem sabe ela ainda trançasse os cabelos de Farida? De repente, como um relâmpago me atravessando a cabeça, o colar de Carolinda me pesa no bolso. Há muito que eu desejava esclarecer aquele fardo.
- Veja este colar, tia Euzinha.
A velha é como que golpeada pela visão. Se recompõe, fingindo não ter sido perturbada.
- Quem te deu esse colar? me pergunta.
- Foi uma mulher chamada Carolinda.
- A mulher do administrador?
Admiti com um simples aceno da cabeça. Euzinha sorri. Ela sempre desconfiara. Não era tanto as semelhanças entre Carolinda e Farida. Havia uma outra coisa que ela não sabia explicar. Tinha encontrado Carolinda mas de modo fugaz. Em tanto que esposa do administrador ela visitara uma vez o centro. Disse que voltaria. Não sabia quando, dependia da situação de segurança.
- Agora me dá o colar de Carolinda.
Me surpreendi. Por que motivo ela me queria tirar aquela lembrança?
- Você não deve mexer no destino dessas Irmãs. Nenhuma pode saber nada sobre da outra. Carolinda não pode saber eu sou tia dela. Senão, a desgraça lhes vai escolher.
- Está certo, eu fico calado, disse eu, entregando o colar.
- Mesmo eu penso: há um demónio que está trabalhar na alma de Carolinda.
Um demónio? E como sabia Euzinha da existência de tal mau espírito? Pela maneira como Carolinda incitava o marido a tomar medidas contra o barco. Era ela que queria que Farida fosse morta. Sem nenhuma razão concreta, sem motivo entendível. O demónio se vingava de não ter sido ela a menina escolhida para a vida.
- Deixe as gémeas. Se ocupa só de encontrar Gaspar.
- Sim. Mas onde posso encontrar esse menino?
- Gaspar foi levado para um outro campo.
A velha nos põe ao corrente: este campo de refugiados costumava ser atacado. Os bandidos sempre raptavam as crianças. Foi assim que se decidiu transferir os jovens para um outro campo.
- E qual é o campo onde ele está?
- Isso não sei. Ninguém pode saber.
Gaspar, afinal, restava em parte insolúvel. Agora, quem me podia ajudar? Euzinha me aconselhou calma. Eu que esperasse ali, sossegadamente, sem agitar os espíritos. Sua postura tranquila me dava exemplo. Eu me demorei a estudar aquele ser. A velha assentava toda nos ossos: magra, escãozelada. Sua mão nem tinha peso mas ela se cansava quando a erguia. Apontou no meio das improvisadas palhotas. Nós que ficássemos ali por uns dias. Quintino, prontamente, aceitou. De seu saco, retirou uma caixa de rapé:
- É para si, titia.
E ficámos ali conversando até ao poente. A velha nos contava os casos do campo. Não se queixava de nenhuma tristeza. Ela já sabia: quem mais sofre na guerra é quem não tem serviço de matar. As crianças e as mulheres: essas são quem carrega mais desgraça. De quando em quando, uma coisa extraordinária lhe acontecia: suas pernas desatavam a arder.
Ela parecia nem sentir:
- É da fome, esse fogo. Já passa.
Os cabelos estavam vermelhos, desbrilhados. Minha cabeça já morreu, disse ela. Seu corpo estava de luto por causa desse falecimento. Olhou em volta, não parecia contemplar um existente lugar. A vida ali se entregava, braços abertos, no regaço da morte. Mais a miséria insistia mais filhos surgiam.
- As mulheres aqui tiram filhos quando querem.
Não precisavam estar gr vidas, nem respeitar os nove meses. Bastava os maridos mandarem: mulher, deita mais um! E logo saíam mais meninos, prontos para se esfaimarem iguais aos agonizantes. Euzinha dizia tudo aquilo sem se encostar na tristeza. Ela continuou a falar das mães, maneira como elas faziam no campo. Fiquei a saber que havia mães que roubavam a comida dos filhos e, no meio da noite, lhes tiravam a manta que os protegia do frio.
- Mas, tia Euzinha, uma mãe não pode jazer uma coisa dessas...
Ela sorriu, negando. Aquilo nem maldade não era. Simplesmente, as mães ensinavam aos filhos os modos da sobrevivência. Eu escutava as palavras da velha enquanto olhava as nuvens se apressarem no alto. Escurecia a olhos não vistos. No campo as sombras se arrastavam. Parecia que aqueles os refugiados moravam era na escuridão.

Nenhum comentário: