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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 6]


Mas as dúvidas me ocuparam: poderia eu fugir daquele lugar maldiçoado? Recordei as palavras de Surendra: fica, tu não sabes o que é andar, fugista, por terras que são de outros. Falava como se ele próprio tivesse sido forçado a abandonar sua terra natal. Nunca soube o certo da sua estória. Nem nunca viria a saber.
Confuso, procurei meu antigo professor, o velho pastor Afonso. A escola tinha sido queimada, restavam ruínas de cinza. Fui a casa dele, lá na localidade. O pastor morava em madeira-e-zinco. Cheguei na ordem dos respeitos: encontrei Foi luto. O professor tinha sido assassinado. Acontecera na noite anterior. Cortaram-lhe as mãos e deixaram-lhe amarrado na grande árvore onde ele teimava continuar suas lições. As mãos dele, penduradas de um triste ramo, ficaram como derradeira lição, a aprendizagem da exclusiva lei da morte.
Nesse desespero me veio, claro, um desejo: me juntar aos naparamas. Sim, eu queria ser um desses guerreiros de justiças. Já me via, tronco despido, colares, fitas e feitiços me enfeitando. Sacudi a ideia, tocado pelo medo. Eu me dividia entre a escolha de um destino de briga e a procura de um cantinho calmo, onde residisse a paz. Afinal, eu estava como dizia o cantador da aldeia: no sossego, sou cego; na timaca (Timaca: confusão, briga) não vejo.
Qualquer que fosse minha escolha uma coisa era certa: eu tinha que sair dali, aquele mundo já me estava matando. A primeira vez que duvidei no assunto nem dormi. Meu pai me surgiu no sonho, perguntando:
- Queres sair da terra?
- Pai eu já não aguento aqui. Fecho os olhos e só vejo mortos, vejo a morte dos vivos, a morte dos mortos.
- Se tu saíres ter s que me ver a mim: hei-de-te perseguir, vais sofrer para sempre as minhas visões..
- Mas, pai...
- Nunca mais me chames de pai, a partir de agora serei teu inimigo. Eu queria falar-lhe mas ele saiu-me do sonho. Acordei transpirado do lençol à cabeça. Eu estava aterrorizado com a ameaça do espírito de meu pai.
Saí pelo fresco da manhã, a curar-me das nocturnas visões.
Fui ao centro da aldeia, à grande sombra do canhoeiro (Canhoeiro : árvore da fruta nkanhu de onde se extrai a bebida usada em cerimónias tradicionais do Sul de Moçambique. Nome científico: Sclerocarya birrea.). Lá sentavam os mais velhos, de manhã até de noite. Eu queria ouvir suas antigas sabedorias. Disse-lhes que queria sair, juntar-me aos guerreiros naparamas.

Os velhos nada falaram. Ficaram mastigando o tempo, renhenhando. Um deles, por fim, se abriu:
- Meu filho, os bandos tem serviço de matar. Os soldados tem serviço de não morrer. Nós somos o chão de uns e o tapete dos outros.
- Não é mais uma razão para me juntar aos guerreiros blindados?
- Deixa a guerra, filho. A morte só ensina a matar.
Primeiro, explicaram, eu devia era tratar o assunto de meu pai, sossegar sua morte. Enquanto eu não despedisse dele de boa maneira, a minha vida seria um indesatável novelo.
Concordei. Mas como poderia vencer aquela raiva do falecido?
- Teu pai não fala por boca dele, é um morto que endoidou Por causa das coisas que se passam na nossa terra.
Palavraram muita coisa sobre o estado de saúde do falecido mas eu já não lhes prestava atenção. Aquele grupo de idosos, de repente, me pareceu estar perdido também. Já não eram sábios mas crianças desorientadas. Mais que ninguém, eles sofriam a visão da terra em agonia. Cada casa destruída tombava em ruínas dentro de seus corações. As mãos do professor sangravam dentro do peito dos mais velhos. Aquela guerra não se parecia com nenhuma outra que tinham ouvido falar. Aquela desordem não tinha nenhuma comparação, nem com as antigas lutas em que se roubavam escravos para serem vendidos na costa.
- A gente morre cheio de saudades da vida, disse um deles.
Eu queria juntar-me aos naparamas? Esses combatentes que eu sonhava, com certeza, não existiam em realidade. Os velhos punham desconfiança: os tais guerreiros não eram naturais da nossa terra, seus feitiços não eram dominados por nossos poderes. O melhor, então, seria fugir? Contudo, para onde? Não havia sítio para onde escapar. A guerra se espalhara por todo o país. Em todo o lado, se repetiam as balas, se espalhavam as apressadas sementes da destruição. Onde quer que eu fosse, o espírito de meu pai me haveria de encontrar.
Eu ouvia os anciãos e ainda duvidava: não restaria, ao menos, um lugarinho onde eu me encontrasse em privado sossego? Um sítio que a guerra tivesse esquecido? Isso, os mais velhos desconheciam. Seu mundo terminava ali, tudo o resto se fazia mais longe que o impossível.
- Só o nganga (Nganga: adivinhador; aquele que atira ossículos divinatórios.) lhe pode ajudar. Talvez ele sabe um lugar sossegadinho. Sim, eu deveria consultar o adivinho. Só ele podia saber do tal recantinho, coisa de eu guardar meus sonhos. Contudo, eu nunca poderia lhe falar sobre os naparamas. Isso era competência dos feiticeiros do Norte.
Anoitecia quando me afastei do frondoso canhoeiro. Já se fazia tarde mas, ainda assim, passei pela cabana do nganga.
- Esse lugar existe mas sofre de lonjura muito comprida.
Foi o dito do curandeiro, as duas mãos sobre os joelhos. O problema não é o lugar, disse, mas o caminho.
- O caminho?, perguntei.
- Veja o seu pai, maneira como aconteceu com ele.
Não entendi. O adivinho alisava as pernas joelhudas, parecia tirar delas a força de adivinhar. Então, ele me confessou estranhas coisas. Disse que havia duas maneiras de partir: uma era ir embora, outra era enlouquecer. Meu pai escolhera os dois caminhos, um pé na doideira de partir, outro na loucura de ficar.
- Por isso eu digo: não é o destino que conta mas o caminho.
Que ele falava de uma viagem cujo único destino era o desejo de partir novamente. Essa viagem, porém, teria que seguir o respeito de seu conselho: eu deveria ir pelo mar, caminhar no último lábio da terra, onde a água faz sede e a areia não guarda nenhuma pegada. Eu que levasse o amuleto dos viajeiros e o guardasse em velha casca do fruto ncuácu (Ncuácu: árvore de fruta. Nome científico: Strychnos madascarensis.). E procurasse os confins onde os homens não amealham nenhuma lembrança. Para me livrar de ser seguido por meu pai eu não podia deixar sinais do meu percurso. Minha passagem se faria igual aos pássaros atravessando os poentes.
Segui o conselho dos anciãos evitando o assunto dos naparamas. O nosso adivinho se iria sentir magoado de não saber mexer em meus pedidos. Me calei, ouvidor de seus demorados conselhos.
- Te vais separar dos teus antepassados. Agora, tens de transformar num outro homem.
O velho nganga atirou os ossinhos mágicos sobre a pele de gazela. Os ossos caíram todos numa linha, disciplinados.

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