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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 5]


adoração do mar: estavam ali nossos comuns antepassados, flutuando sem fronteiras. Essa era a raiz daquela paixão de me encaseirar no estabelecimento de Surendra Valá.
- Somos da igual raça, Kindzu: somos índicos!
Ele se ria, repetindo: não indianos mas índicos. Eu fingia achar graça, rindo apenas de boa disposição. Enquanto ali estávamos, fazendo o absoluto nada, eu me sentia promovido. Na troca de nossos nenhuns assuntos, Surendra se esquecia de atender os fregueses. Eu me confortava: nunca ninguém se havia esquecido de nada por causa de mim.
Foi certa tarde: chegou o responsável de uma aldeia vizinha. Vasculhou a loja, os olhos na frente das órbitas. Fui eu quem viu que estava roubando. Avisei Surendra que, em sua vez, solicitou o roubador. O homem se enzebrunhou, pegando-se em discussão. Antoninho, o ajudante gordo, mentia dizendo que o homem estava inocente. Não queria trair um da sua raça, dar razão a um de outra pele. Os ânimos se acenderam. O cliente era quem trazia a lenha. Surendra permanecia impassível, exigindo apenas que os artigos fossem repostos. O motivo da raiva do cliente passei a ser eu, aumentado e agravado. O estranho deu as ordens a Antoninho: ele que me levasse fora, ou aquilo ficaria matéria não de papo mas de sopapo. Antoninho se apressou a cumprir, me tentando agarrar por trás. Mas Surendra se impôs, assumindo a gerência do momento. E deu ordens ao ajudante que pusesse fora o ilegítimo comprador.
Antoninho coçava as mãos nos dedos, indeciso. O intruso se chegou ao indiano e roncou fúrias e escarros, puxando o peito para a garganta. Foi subindo em veias e nervos até que cuspiu na cara de Surendra. O indiano ficou ali, especado, a saliva escorrendo. Molhado, nem parecia humilhado. Quando eu quis pedir contas ao intruso, Surendra me pediu silêncio:
- Deixa, Kindzu. Se fazemos barulho é Assma que pode acordar.
O freguês então puxou de uma caixa de fósforos, enconchou as mãos. Vais ver a fogueira que isto vai dar, ameaçou raivabundo. O indiano olhou a adormecida esposa e disse:
- Kindzu, fax favor: aumenta volume de rádio.
- Sim aumenta a música que o monhé vai dançar, disse o roubador.
O inesperado, então, sucedeu-se: um estranhíssimo homem entrou na loja. Trajava as mínimas vestes mas, na compensação, exibia colares, penas, fitas, enfeitações. E me deu fundo arrepio: nos braços se enrodavam vermelhos panos, pulseiras de xicuembo (Xicuembo: feitiço), exactos como aqueles que vi saindo da cabana do defunto meu pai. Fiquei de olhos presos na chegada figura. O ameaçador freguês também se emparvalhou, o fósforo se consumindo inteiro em seus dedos tremeluzentes. Assim mesmo, de mãos chamuscadas, saiu. O recém-chegado se aproximou do balcão e, em voz baixa, falou com Surendra. O volume do rádio não me deixava ouvir. Fui de novo à prateleira para diminuir o som. Quando me voltei já o homem tinha saído. Não pude guardar minha curiosidade:
- Esse quem era?
- Esse é um naparama.
Naparama? Nunca eu tinha ouvido falar em gente dessa. Surendra me explicou vagamente. Eram guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que lutavam contra os fazedores da guerra. Nas terras do Norte eles tinham trazido a paz. Combatiam com lanças, zagaias, arcos. Nenhum tiro lhes incomodava, eles estavam blindados, protegidos contra balas.
- E esse o que veio aqui fazer?
- Veio pedir panos. Precisam deles para iniciar outros que se oferecem para ser naparamas.
Então, falei a Surendra da noite em que surpreendi um desses homens na cabana do velhote. Relatei a teimosia de minha mãe, insistindo que era o espírito do marido.
- Ela tinha razão, Kindzu. Você viu foi seu pai.
- Mas, Surendra...
- Pode ter certeza. Era o seu falecido.
- Me explique, Surendra. Me explique por que razão você quer que eu acredite em coisa que não vi.
- Porque não quero que sofra. Você é como o filho que Assma nunca me deu.
E me olhou fundo, com serenidade que só a tristeza pode conceber. Seus olhos tinham modos menineiros de quem não nasceu para aprender as manhas de ser feliz. Então, a minha mão tocou o seu rosto e lhe limpei o cuspo que ainda escorria.
Uma noite os bandidos atacaram a loja do indiano, roubaram os panos, queimaram o edifício. A notícia correu rápido. Ninguém dispensou nenhum sentimento pela desgraça de Valá. Ele era um de fora, nem merecia as penas.
Eu corri para saber o que passara. Encontrei Surendra no pátio de sua velha casa, cheio de trouxas à volta.
- Vou-me embora, Kindzu!
Aquele anúncio me rasgou. O comerciante sempre me dera certeza de ficar. Nós fazemos negócio, sempre adaptamos, justificava. Faça guerra tanto como não: monhé está sempre na meio, brincava ele imitando as falas dos outros indianos. Agora a decisão dele me deixava em total angústia. Tantas infelicidades me tinham aleijado: o desaparecimento de meu Irmão, a morte de meu pai, a loucura de minha família. Mas nada me afectou tanto como a partida do indiano. Tentei convencer o homem a deixar-se por ali. Em vão. Surendra possuía fundas razões:
- Tu tens antepassados, Kindzu. Estão aqui, moram contigo. Eu não tenho, não sei quem foram, não sei onde estão. Vês, agora, o que aconteceu? Quem é que me veio consolar? Só tu, mais ninguém.
Eu não queria entender o lojeiro. Porque suas palavras matavam a miragem de um oceano que nos unira no passado. Afinal, Surendra estava sozinho, sem laço com vizinhas gentes, sem raiz na terra. Não tinha ninguém de quem despedir. Só eu. Ainda insisti, subitamente pequenito, entregando ideias que meu peito não autenticava. Que aquela terra também era a dele, que todos cabiam nela. Só no falar senti o sabor salgado da água dos olhos: eu chorava, o medo me afogava a voz.
- Que pátria, Kindzu? Eu não tenho lugar nenhum. Ter pátria é assim como você está fazer agora, saber que vale a pena chorar.
Antoninho, o ajudante, escutava com absurdez. Para ele eu era um traidor da raça, negro fugido das tradições africanas. Passou por entre nós dois, desdelicado provocador, só para mostrar seus desdéns. No passeio, gargalhou-se alto e mau som. Me vieram à lembrança as hienas. Surendra disse, então:
- Não gosto de pretos, Kindzu.
- Como? Então gosta de quem? Dos brancos?
- Também não.
- Já sei: gosta de indianos, gosta da sua raça.
- Não. Eu gosto de homens que não tem raça. É por isso que eu gosto de si, Kindzu.
Abandonei a loja sombreado pela angústia. Eu agora estava órfão da família e da amizade. Sem família o que somos? Menos que poeira de um grão. Sem família, sem amigos: o que me restava fazer? A única saída era sozinhar-me, por minha conta, antes que me empurrassem para esse fogo que, lá fora, consumia tudo.    [continua]

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