-
Está ver, todos linhados? Isso quer dizer: você é um homem de viagem. E aqui
vejo água, vejo o mar. O mar será tua cura, continuou o velho. A terra está
carregada das leis, mandos e desmandos. O mar não tem governador. Mas cuidado,
filho, a pessoa não mora no mar. Mesmo teu pai que sempre andou no mar: a casa
onde o espírito dele vem descansar fica em terra.
-
Vais encontrar alguém que te vai convidar para morar no mar. Cuidado, meu
filho, só mora no mar quem é mar.
Estas
foram as falas do adivinho, palavras que nunca eu decifrei a fundura.
Assim,
por conselho de sombrias dicções, me arrojei a preparar minha canoa para com
ela subir praias, na espera de me livrar da desgraça. Minha vontade mais funda,
porém, continuava em ser um naparama, vingador das tristezas da minha gente. As
lembranças de Junhito, do pastor, de Surendra se juntavam numa única jura: meus
braços haveriam de se cobrir de panos vermelhos, meu corpo desafiaria as balas.
Me
despedi de minha mãe, ela nada não falou. Nem levantou seu rosto, não me
desejou nenhuma bênção.
-
Mãe: outro alguém é preciso para levar comida ao nosso pai.
Esse
alguém seria ela, eu sabia. Ela baixou o rosto, anonimando-se como era seu
costume. Falou em desfio de voz, me obrigando a chegar mais perto.
-
Tenho-lhe visto aí, parece um bêbado, por fora das noites. Não diga você
recebeu doença de seu pai de morar no sonho.
Neguei.
Nunca eu tinha reparado que saía de mim, sonhambulante. Depois, minha mãe me
fez um sinal para que eu me chegasse. Pegou-me no braço e baixou a minha mão
sobre seu ventre.
- É
o quê, mãe?
- É
que estou grávida, maistravez.
A
velha devaneava, sonhatriz. Com aquela idade como podia ela se duplicar?
A
voz dela, porém, trazia certezas capazes de me confundir.
-
Estou grávida, filho. Não é de agora, é já de muito tempo.
-
Muito tempo, quanto?
-
São anos que guardo essa criança. Nem quero ela nascer nesse tempo. Fica assim
dentro de mim, me companha o coração.
Lhe
afaguei o ventre, entregando àquele meu escondido Irmão a guarda de minha mãe.
Deixei o caminho antigo da casa, olhei a paisagem, o paciente verde. Meus olhos
derretiam aquelas visões, fosse para guardar o passado em navegáveis águas. Era
noite quando a canoa desatou o caminho. O escuro me fechava, apagando os
lugares que foram meus. Sem que eu soubesse começava uma viagem que iria matar
certezas da minha infância. Os ensinamentos da escola, os conselhos do pastor
Afonso, os sonhos de Surendra: tudo isso iria esvair na dúvida. Me olhei, e me
vendo leve, sem carga, lembrei as palavras de meu pai:
-
Quem não tem amigo é que viaja sem bagagem. [fim do primeiro capítulo]
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