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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 7]



- Está ver, todos linhados? Isso quer dizer: você é um homem de viagem. E aqui vejo água, vejo o mar. O mar será tua cura, continuou o velho. A terra está carregada das leis, mandos e desmandos. O mar não tem governador. Mas cuidado, filho, a pessoa não mora no mar. Mesmo teu pai que sempre andou no mar: a casa onde o espírito dele vem descansar fica em terra.
- Vais encontrar alguém que te vai convidar para morar no mar. Cuidado, meu filho, só mora no mar quem é mar.
Estas foram as falas do adivinho, palavras que nunca eu decifrei a fundura.
Assim, por conselho de sombrias dicções, me arrojei a preparar minha canoa para com ela subir praias, na espera de me livrar da desgraça. Minha vontade mais funda, porém, continuava em ser um naparama, vingador das tristezas da minha gente. As lembranças de Junhito, do pastor, de Surendra se juntavam numa única jura: meus braços haveriam de se cobrir de panos vermelhos, meu corpo desafiaria as balas.
Me despedi de minha mãe, ela nada não falou. Nem levantou seu rosto, não me desejou nenhuma bênção.
- Mãe: outro alguém é preciso para levar comida ao nosso pai.
Esse alguém seria ela, eu sabia. Ela baixou o rosto, anonimando-se como era seu costume. Falou em desfio de voz, me obrigando a chegar mais perto.
- Tenho-lhe visto aí, parece um bêbado, por fora das noites. Não diga você recebeu doença de seu pai de morar no sonho.
Neguei. Nunca eu tinha reparado que saía de mim, sonhambulante. Depois, minha mãe me fez um sinal para que eu me chegasse. Pegou-me no braço e baixou a minha mão sobre seu ventre.
- É o quê, mãe?
- É que estou grávida, maistravez.
A velha devaneava, sonhatriz. Com aquela idade como podia ela se duplicar?
A voz dela, porém, trazia certezas capazes de me confundir.
- Estou grávida, filho. Não é de agora, é já de muito tempo.
- Muito tempo, quanto?
- São anos que guardo essa criança. Nem quero ela nascer nesse tempo. Fica assim dentro de mim, me companha o coração.
Lhe afaguei o ventre, entregando àquele meu escondido Irmão a guarda de minha mãe. Deixei o caminho antigo da casa, olhei a paisagem, o paciente verde. Meus olhos derretiam aquelas visões, fosse para guardar o passado em navegáveis águas. Era noite quando a canoa desatou o caminho. O escuro me fechava, apagando os lugares que foram meus. Sem que eu soubesse começava uma viagem que iria matar certezas da minha infância. Os ensinamentos da escola, os conselhos do pastor Afonso, os sonhos de Surendra: tudo isso iria esvair na dúvida. Me olhei, e me vendo leve, sem carga, lembrei as palavras de meu pai:
- Quem não tem amigo é que viaja sem bagagem.    [fim do primeiro capítulo]

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