Seja o que seja, o trás-montanhoso morrera por graça de estranhos
poderes. Quem sabe fora vítima não de uma única mas de diversas mortes?
Uma dezena de anos depois, descendo à cave com um fósforo aceso
entre os dedos, Quintino ainda sentia o cheiro da plantação incendiado. Sobre
uma mesa, um velho xipefo recebeu a chamazinha do fósforo e luzinhou por toda a
sala. Quintino ajeitou os olhos: tudo estava tão limpo, tão correcto. Os móveis
dormiam em escura sonolência, o caixão ainda ali estava como uma doença
incurável no centro da cave. Quintino Massua passou a mão sobre a poeira, num
gesto esquecido de empregado de limpeza. De súbito, um barulho lhe gelou o
nervo. Olhou, conquanto nem quisesse ver: o defunto, seu antigo patrão, se
erguia do leito fúnebre. Romão Pinto, filho e neto de colonos, voltava à velha
casa da família depois de mais de uma década de definitiva ausência. Ficou
sentado como se lhe custasse regressar. Depois, começou de apalpar os pés.
- Os meus sapatos?
Olhou em volta, pisco-piscando. Encolheu as pernas, espalhando
pragas. Pelos modos grosseiros se via que, em sua permanência pelos lados da
morte, ele não se encontrara com nenhum deus.
- Sacana de pretos: gamaram-me os sapatos.
E dali se pôs a berrafustar. Que um já não pode falecer com os
devidos respeitos, mal estica já lhe estão a rapinar. Enquanto falava se ia
conferindo, certificando-se das vestes, anéis, as resguardadas partes. Quintino
se chegou, cauteloso:
- Eu nem fui, patrão.
O antigo criado apontava os pés, como comprova. Estavam descalços,
cobertos só com tinta branca. Agora maneira é essa, patrão, jazemos como assim,
pintamos, disse Quintino. E logo se admirou do termo que usou: patrão!? Nunca
pensou que, em tão breve tempo, tivesse que outra vez se subordinar.
- Sapatos não há, patrão, isso é coisa que não se encontra. É por
isso levam, arrancam dos mortos.
O defunto levantou-se. Esfregou os olhos, bateu com os dedos na
madeira do caixão.
- Andei anos às marradas a esta merda.
Quintino sorriu, mais cheio de susto que vontade. Ele sabia: os
recém-falecidos recusam sair deste mundo se não lhes dedicam as devidas
cerimónias. Ele bem que tinha dito à senhora: era bom despedir do patrão,
organizar as cerimónias.
- E o que ela respondeu, essa cabrita?
- Ela negou.
- Negou? Mas negou como?
- Ela disse o patrão não tinha ido sozinho, o patrão levou
companhia que merecia.
O branco sorriu, desdenhoso. Afastou-se, abanando a cabeça em
mudas reprovações. Esquecera a ciência de caminhar, demorou a acertar com as
pernas. Quintino olhava o regressado quase com ternura. Aquele branco andara
por escondidos domínios durante quase muitos anos, vagandeando por nuvens
frias, lá onde não se contam nenhuns serviçais. Quem tratara de seus assuntos,
no dia-a-dia de sua morte? E mais ainda: por que razão voltara? Quintino
suspeitava saber: os recém-mortos têm suas devidas iniciações, devemos deixá-los
em sossego. Eles
estão em seus primeiros passos na eternidade. Esses defuntos estão ainda a
aprender a serem mortos. Romão Pinto agora se equilibrava no fio das tonturas,
perdidos os hábitos verticais. O morto cambalinhava, tropeçando, descalço. Nem
Quintino nunca vira antes os ambos pés de seu patrão. Eles ali estavam, mal
acordados, soletrando o chão. Pés de branco são envergonhados: fora dos
sapatos, parecem mulheres aflitas.
- Raios te parta, seu filho duma quinhenta, logo havias de ser tu
a minha primeira visão. Diz-me: onde está a minha patroa?
- A senhora?
- Sim, Dona Virgínia, minha mulher. Ser que morreu, a grande
cabra?
- Dona Viriginha? Não, não morreu. Está bastante vivinha.
- Eu imaginava, a gaja é de raça.
Romão soltou uma risada que sacudiu o empregado. Quintino
estranhou: talvez era inveja das amplas vivências de Virgínia. Durante anos, o
seu caixão criara mofo no chão da cave.
Ali fora enterrado, por despacho de serviço. Na realidade, o
cemitério estava demais cheio de formigas-cadáver. Comem um morto enquanto o
diabo esfrega o olho-zarolho, foi o aviso do padre português. Por isso lhe
enterraram no chão da cave, onde nem os ratos nunca haviam farejado. A casa
ficara adormecida, a viúva saiu para viver noutro lugar. Assim vazias as casas
são sempre muito enormes.
- Quero sair, quero dar uma volta por aí!
- Não sai, patrão. Este tempo não é como de antigamente, patrão
não conhece nem um bocadinho de ninguém.
- Não conheço ninguém, como? Afinal, quem é o actual manda-chuva?
- É Estêvão Jonas. O patrão não pode conhecer, ele é um de fora.
- Pois a primeira coisa que vais fazer mal saíres daqui é chamares
aqui o camarada-chefe. Ouviste?
Quintino acena enquanto o colono, subitamente, se ocupa a remexer
a camisa, as calças. Procurava uma nódoa, vestígio de sangue seco. Vai
reclamando: essa Salima, cabrona, me há-de pagar!
- Tu sabes, Quintino? Sabes o motivo verdadeiro do meu
falecimento? Foi essa cabra da Salima.
- Fez o quê, a Salima?
- Eu é que fiz. Comi a gaja com os sangues.
- Chai, patrão!
- Mas vinguei-me, obriguei a cabra a deitar-se com o corno do
marido. Ao menos fomos juntos que lerpámos, ninguém ficou a matabichar a gaja.
- Mas o marido dela não morreu.
- Não morreu? Como não morreu?
- Estou a dizer, o gajo até hoje está vivo.
- Caraças, não é possível!
- Romão Pinto não queria acreditar. Passou os dedos pelos cabelos,
se chegou à janela. Ficou olhando os avessos do mundo, no triste jeito com que
a liberdade fita os olhos dos prisioneiros. Lembrou seus derradeiros momentos
de vida. Tudo lhe surgia com a nitidez do ontem.
Naquele dia Romão Pinto saiu, sem notícia, pelas sombrias
palhotas. Aspirou o intenso perfume das goiabeiras, com modos do nariz trincar
a vermelha polpa do fruto. Ficou por baixo da árvore olhando a oficina de Abdul
Remane. Não tardaria que o maometano saísse, levando suas latas para soldar, no
bairro vizinho.
Romão se impacientou ali, encostado no suave tronco da goiabeira,
enervado pela demora do mecânico:
- Mulato cornudo, despacha-te!
Abdul acabava de arrumar suas bagagens. Sobrancelhudo, chamou pela
mulher:
- Salima!
Ei-la: envolta em pano branco, de sabores convidantes. Algumas
belezas, em mulher se tratando, nascem depois da meninice. São essas as mais
luaminosas. Romão Pinto se cismava: um homem em tão magra solidão não tem
direito às redondas morenices? As pretas, Deus me proteja. Mas as mulatas,
essas quem as concebeu? Não fomos nós, portugueses? Pois então temos direito a
petiscar essas lascivas carnes. E Salima, caraças, que graça desperdiçada nas
mãos desse escarumba!
Por fim,
o mecânico se despachou das vistas. Romão deixou as sombras, correu para a
casa. Entrou sem bater. Nos afazeres dos arrumos, Salima se estremunhou.
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