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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 55]


Oitavo caderno de Kindzu - Lembranças de Quintino

Despertei já era muito manhã, Carolinda não estava ali. Fui recolhendo coisas minhas espalhadas pelo chão. Então vi que Carolinda deixara cair um colar. Apanhei o enfeite e o guardei para, mais tarde, lhe devolver.
Saí do curral, tonteado pela luz cheia do sol. Voltei ao bar para encontrar Quintino e finalmente lhe pedir que me acompanhasse pelos matos. No pátio do bar havia um revolvido ajuntamento. Um homem rebocava o Quintino, carregando-lhe às forças. O magrinho não resistia: seus passos é que não encontravam as pernas. Tropegava, tropeçava, tromalhava. O caminho é que escolhia o homem. Afinal, toda a direcção do embriagado é sempre conveniente. Eu ia reclamar uma explicação quando um braço me amigou:
- Deixa, é melhor não se meter.
Só então reconheci Shetani. Era ele quem carregava Quintino. Desta vez, o homem estava fardado. Em seus braços, Quintino experimentou umas palavras, sílabas de saliva. Eu tinha que recuperar Quintino, aquele bêbado me era precioso.
- O camarada desculpe mas eu posso cuidar do meu amigo.
Shetani me olhou, desconfiado. Seu rosto piscou, o nariz fungou. Estaria a rir?

- Me ajuda a descarregar este volume, aceitou ele.
Puxei Quintino pelas axilas, nunca vi sovacos tão vazios. Acarretei sozinho todo o corpo do embriagado.
- Aguentas com ele?, perguntou Shetani.
- Isto nem peso não é.
Foi quando uma pistola se escancarou contra o meu espanto. Aquela visão me revolveu as tripas do peito. O antigo combatente puxava ameaça, em frente dos gerais:
- Vens comigo e carregas com o cabrão do grosso. Vá, toca-te.
Fui pela estrada, tchovando (Tchovando: empurrando) Quintino. Eu tinha a mioleira toda numa trapalhada. Estava numa dessas situações em que nem a água é mole nem a pedra é dura. Qual seria, afinal, o meu delito? Nos actuais dias, que motivo necessitam para encaixotarem um vivente? Fomos parar na administração, de pulsos atados. Quintino permanecia nas brumas, sem nexo. Soltava frases por atacado:
- Hoje é domingo, amanhã também.
Franziu as pálpebras como se receasse que o pensamento lhe fugisse pelos olhos. Depois, contou as costelas, uma por uma. Cocegava-se, atrapalhava-se no riso e recomeçava.
- Vinte e quatro! Tal igual as horas do dia. JÁ viu, Kindzu: nesse mundo tudo se conta por igual?
Passava o tempo, as cordas me iam entrando na carne. Até que o administrador Estêvão Jonas nos compareceu com sua escolta. Eram vários responsáveis, todos balalaicados (Balalaicados: trajados de balalaica, um conjunto de calça e camisa). Olharam-nos em silêncio, como se em nós se juntassem as culpas de todos os mundiais crimes. Quem falou foi o Abacar Ruisonho, mansinho:
- Meter no frigorífico, chefe?
- Nem penses! Esses gajos têm a mania de congelar. Não quero mais confusões. Quem sabe que é esse tipo...
E apontava para mim. Abacar puxou a barriga acima do cinto, preparando-se para discursar. Mas o administrador ergueu o til das sobrancelhas e deu ordem, mastigando os maxilares:
- Vão chamar minha esposa!
Falava sem movimentar os lábios, tal era sua fúria. Carolinda deu aparecimento, cabeça baixada. Quando ergueu o rosto, seus olhos me acusavam, certeiros:
- Sim, foi este.
Carolinda apontava para mim. Depois, desviou o olhar e não mais voltou a me enfrentar. Pesava no ar a imobilidade do silêncio. Me lembrei então que ainda tinha o colar de Carolinda. Se me revistassem não teria salvação. O medo me fazia descer por mim abaixo. A mulher do administrador saiu pelo corredor, escoltada pelos milicianos. Estêvão Jonas disse:
- Minha esposa viu-te rasgando dinheiro e atirando as notas no mar.
- Não é verdade.
Abacar exibiu as provas: dinheiro falecido, espedaçado, ainda pingando de molhado. Atiraram com aquela pasta viscosa contra mim. Apressadamente, Quintino recolheu os bocados e tentou reconstituir as notas. Contava com duplos dedos, desfiando os números alfabéticos. Seus olhos, boquiabertos, navegavam em retalhos de riqueza. Estêvão Jonas ordenou a seus subordinados que o deixassem sozinho connosco. Ficou calado até que todos saíssem. Só então ele inquiriu:
- Apenas quero saber uma coisa: comeste a Carolinda?
Neguei, veementindo. O administrador já conhecia a versão de Carolinda. A esposa justificara o seu atraso nocturno. Ela contara que tinha visto um maço de notas na praia. Vergou-se para o apanhar mas não foi capaz de se endireitar. Estava presa no dinheiro, sem poder soltar-se durante horas.
- Conheço esse xicuembo, não pode ser de alguém daqui. Foste tu que encomendaste. Mas eu não fico em obscurantismos: isto é acção política, obra do inimigo, abuso dos símbolos da Nação.
Seguiram-se ameaças. Na manhã seguinte, iríamos saber quanto custa desafiar o Poder. Estêvão Jonas saiu, batendo a porta. Quintino, em convalescença, desabou nos prantos. Tinha bebido tanto que as lágrimas cheiravam a álcool. Conforme se ranhava ia ganhando mais sobriedade. Olhei o meu companheiro, senti até pena que lhe passasse a embriaguez. O mesmo álcool que ontem lhe fizera corajoso, hoje lhe atirava nas valetas. Chamei-lhe ao presente, não tinha outro momento para combinar com ele a viagem até ao campo de deslocados onde estava Euzinha. Eu estava preparado para lhe oferecer vantagens. Nos dias de hoje quem ajuda o outro só por desinteresse?
- Conduzes-me pelo mato. Em troca, levo-te até ao barco onde está Farida. Tu tiras de lá o que quiseres.
Ele aceitou. Afinal ele também queria fugir. Um fantasma lhe perseguia, confessou. Um fantasma? Sim, o espírito de seu antigo patrão colonial.
- Vou-te contar minha estória, estrangeiro.
- Kindzu, emendei.
- Kindzu, aceitou ele. E começou a narrar. Sua estória deve ser lembrada.
Aconteceu quando Quintino decidiu visitar a velha casa onde trabalhara como empregado doméstico. Ia ver se ainda sobravam os valiosos bens dos patrões. Não usaria a palavra roubar. Talvez nacionalizar. Nacionalizar uns bens a favor do povo original. Entrou na antiga casa, violando portas e janelas. Enquanto entrava lhe vieram culpas de quem está abusar de uma campa falecida. Porque ali mesmo, no chão da cave, tinha sido enterrado Romão Pinto, chefe de família, dono da casa e seu patrão. Falecera nos conturbados tempos da Independência, tempos que calamitaram a vida do português. De que maneira ele morrera? Sobre isso nunca houve acerto. Uns dizem morreu por castigo dos sangues que apanhou da amante, namoro que teve em tempo de menstruação. De facto, o homem se tinha viciado em donas de peles escuras, querendo delas o urgente corpo. Certo era também que ele, dessa preferência, recolhera mais sabores que dissabores. Outros dizem que o português falecera ao ver seus campos de algodão em chamas. Fora ele quem deitara o incêndio na plantação. Se isto não fica para mim também não fica para mais ninguém, clamara em frenesim, tocha a arder na mão erguida. Seu coração, contudo, não aguentara. A visão da plantação em chamas lhe desfeitou o peito, o colono endureceu antes de mesmo tombar no chão. A morte do português se mantinha assunto multiversivo, tema de serões e fogueiras.

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