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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 57]


Ele rodeou-a por trás, limpou-lhe um óleo no braço, desses sujos de garagem. Ela desviou o corpo, furtando-se:
- Deixa ficar esse sujo, Romão. Meu marido confere cada mancha. É ele que me põe esses óleos para garantir-se.
Os dois sorriram. Ele garboso, titular. Desabotoou a mulata, acarinhando-lhe os seios, as volumosas ancas.
- Está escuro, vamos ligar o gerador.
Ela que nem pensasse, o barulho do gerador não deixa escutar os barulhos de fora, ainda vem aí o cornudo do Abdul. O português costura as mãos no escuro dela e Salima cede num arrepio confuso.
- Romão você me prometeu...
- Prometi o quê?
- Me levava para...
- Ah, levo, levo.
Há quanto tempo duravam os dois, nesse esconde-aonde? Sempre sem grande namoro, o Romão rumando directo no corpo de Salima. Atirava a mulher ao ar, pronunciando as jogáveis palavras: cara ou coroa? Qualquer que fosse o modo dela tombar no colchão ele sempre ganhava a aposta. Afinal, os dois lados da mulher eram, para ele, o mesmo e único.

Agora, mergulhados na penumbra da cozinha eles se comemoravam, enroscados, gatinhosos. Salima se despediu das vestes, açucarando as carnes.
- Romão, para sua satisfeição, que devo fazer?
Sempre aquelas muçulmanias, servindo os prazeres do senhor. Nos cumes do acto de amor, ela interrompia: assim, está bem para si? Nessa tarde, Romão se serviu, lambuzeiro, no banco da cozinha, ela sentada sobre suas pernas querendo lhe prestar melhor que sempre. Porém, o português mal teve tempo de terminar-se: um ruído na porta o alarmou. Retirou-se às pressas, calças nos joelhos, tropeçando nos degraus das traseiras. Sossegou quando se viu no atalho, desatando a rir da sua própria figura. Aproveitou as calças estarem já em baixo para urinar, dizem que purifica as vias, depois das consumações. Desnecessitou-se ali, apontando uma árvore, feito um cão. Deleitou-se, de princípio. Sabia bem aquele abrir de um açude no deserto! Mas, depois, correndo já as águas há tempos incontáveis, ele se começou a preocupar. Queria parar, não conseguia. Litros e litros lhe escapavam, num caudal que jamais ninguém ajuntara. já lhe doía o vazadouro, mirradinhas as bolsas e as funções não haviam maneira de parar.
- Meu Deus, estou enfeitiçado!
A cabra me deitou feitiço, não é possível estar-me para aqui a mijar desta maneira. O português se babava, choraminguante. As águas escoavam, parecia ter-se aberto o alçapão das nuvens. Ele implorou, solicitando a Deus. Até que, no auge do desespero, o derrame se estancou. Romão Pinto, exausto, contemplou as esforçadas partes. Foi então que a alma se lhe espetou no visto: as cuecas estavam manchadas de vermelho, quase pingavam.
- A puta estava com os sangues, raios a partam!
Voltou para trás, louco das fúrias. Queria castigar a mulata, arrancar-lhe as visceras ensanguentadas. Logo-logo, porém, seus passos se voltearam e o homem aluiu. Ficou ali, sem noção, quis gritar, chamar alguém. Mas o grito lhe saiu líquido, pastoso. Da boca lhe escorreu a primeira golfada de sangue.
Quando retomou a si era já madrugada. Cambalinhando, fez o caminho de regresso a casa de Salima. A casa ainda não despertara, marido e mulher dormiam. O português gritou por Salima. Ela veio à janela, esgrenhada. Com aflição, lhe pediu silêncio. Depois, saiu em alvoroço, amarrada a um lençol.
- Cala-se Romão, ainda acorda o Abdul!
- Ele agarrou nela, sacudiu-a com raiva, fazendo descair o lençol. Sua boca ainda espumava, uma baba cor da rosa espreitou antes das palavras:
- Grande puta: estavas menstruada!
- Eu não sabia, Romão. Só vi depois.
Ele nem queria escutar. Vinha à mente era a voz da crença, condenando aquele que ama uma mulher em estado de impureza. Também o português punha crédito em tais africanas maldições: nele os sangues haveriam de escorrer, transbordantes.
- Agora, vou-te dizer uma coisa: eu, António Romão Pinto, não vou morrer sozinho.
O português desferiu ordens: ela devia convidar o marido para os amores, despertando-o com desejo de ardências. Fosse mulher súbita, imediata, inadiável.
- Hei-de fazer depois, Romão...
- Depois, não! É agora mesmo. Vai que eu fico a ver pela janela.
- Romão, não faça isso, por favor. Nossos meninos são ainda tão pequenitos...
- Vai para dentro e põe-me esse gajo a saltar! Ou eu nunca mais te levo daqui...
Salima entrou, lagrimando. No quarto se penteou, passou um perfume, aprontando-se. Pelo espelho ainda viu Romão, empoleirado na janela. Não notou, contudo, que os braços do tuga cediam, frouxos, e ele se poentava, caindo por trás da vidraça.
O falecido se afastou da janela como se tentasse apartar daquelas dolorosas memórias. Tinha um ar de quem já não pede nada, de quem já não quer nenhum recomeço. Quintino sentiu até pena do português. O homem estava desfeito com a noticia de que, afinal, o marido de Salima não morrera. Para consolar o homem, Quintino avançou possíveis explicações. Quem sabe era um falso sangue, esse que a mulher mostrara? Ele conhecia as manhas das mulheres quando não querem servir as urgências dos machos. Fingem, chegam a cortar-se nas virilhas.
- Vai ver ela lhe drabou, patrão!
Mas o colono já nem escutava. Debruçado no parapeito parecia aprender artes de renascer. O rosto pálido se madrugava, recuperado das memórias da antepassada vida.
- Deixa lá isso, pá. Agora, vamos lá ao que importa. Ora diz-me cá uma coisa. Onde é que está Farida?
Os olhos de Quintino se redondaram, esbugalhões. Farida? Não sabia, a mulher se deslocalizara. O branco insistiu, Quintino retorceu a voz, em sonoro garatujo:
- Não posso falar o nome dessa mulher. Dona Virgínia me proibiu.
- Isso foi antes de eu morrer. Agora, que mal faz?
- Ninguém sabe onde ela pára.
Então, o defunto se despreguiçou, saudoso da morte: Meu Deus, como eu sonhei com essa Farida, nem sabes como aquele corpinho dela me consolou. De repente, porém, mudou os tons, passou a proclamar ofensas, ameaças.
- Se não confessas, eu carrego-te comigo para os infernos.
O empregado, aterrorizado, evitou que o patrão lhe tocasse. Olhava para Romão como o milho olha o pilão. Foi recuando, chocando com as cadeiras.
- Juro, patrão. Ninguém sabe. Nem do filho dela também ninguém sabe.
O filho dela? O que é isso, essa gaja tem um filho? Romão Pinto, intrigado, rodava em volta do magricelas. Vá, conta lá, pá, quero saber. E, num salto, segurou as goelas do antigo doméstico. Quintino subiu no ar, levantou os braços em sinal de rendição, rogando que Romão o deixasse.
- Patrão, vou contar tudo, tintins inclusive. A verdade é assim: única quem sabe é Dona Virginha, sua esposa. Foi ela que acompanhou o caso, eu só ouvia contar.
- Olha, Quintino, te peço: vai procurar Dona Virgínia, diz a ela para vir aqui.
- Chii, patrão. Custa muito demais para falar com ela.
- E porquê? Está surda a velha?
- Não posso explicar, patrão. Mas não se apanha conversa com ela.
O colono, então, lhe disse: só posso sair daqui pela mão de um vivo. Me acompanha que te recompensarei.
- Não posso, patrão.
Então choveram as ameaças, coisas de estarrecer. Facas e fogos, lumes e chibatas. Desfaço-te que nem daquela vez que desapareceram os talheres. Ou pior, que agora com esta passagem pela morte aprendi maldades que nem lembram ao diabo.
- É o fantasma do colono que me persegue até hoje.
No calabouço da administração, Quintino ainda estremecia só de lembrar as sentenças do português. Acabou de contar a estória e transpirava por mais poros que os que tinha na pele. Afinal, nós dois carecíamos de igual urgência de sair dali. Contudo, tínhamos sido presos para chorar e durar. As cordas apertavam, estávamos a braços com os braços. A meu lado, Quintino fazia como o mocho que olha de noite para sonhar de dia. E de olhos abertos deixámos passar o tempo. Até que, de súbito, um ruído nos fez calar. Alguém se aproximava, de pés nos bicos. Era Carolinda. Sem falar, ela se baixou e nos desamarrou. Ficámos assim, ainda presos ao espanto. Seria armadilha? Fomos saindo, eu e Quintino, em vagaroso desconfio. Quintino foi ganhando confiança e me receitou pressas para que vos quero. Mas eu tinha que regressar, voltar ao compartimento onde ficara Carolinda. Ela se mantinha parada de encosto à parede. Lhe abri nas mãos o colar que tinha guardado comigo. Abanou a cabeça, em recusa. Oferecia-me tudo aquilo como recordação?
Aceitei, sem mais.
- Por que mentiste sobre mim.?, lhe perguntei.
- Porque não queria que fosses.
- Mas eu não vou embora, Carolinda.
- Não acredito, isto não é terra de ninguém ficar. Vais partir, tu não pertences aqui.
- Mas por que razão me soltas, então?
- Para que vás para tão longe que pareças impossível. E agora vai-te e não voltes nunca mais.
Depois, me empurrou com suavidade. Mas eu resisti, me demorando junto dela. Assim, de face em riste, ela me surgia exclusivamente única, triste como pétala depois da flor. Meu peito se encheu. Eu sei que em cada mulher a gente lembra outra, a que nem há. Mas Carolinda me entregava essa doce mentira, o impossível cálculo do amor: dois seres, um e um, somando o infinito. Se aproximou e me acariciou os braços, ali onde as cordas me doeram. A cintura de suas mãos me afagavam, em suave arrependimento. Aquele momento confirmava: o melhor da vida é o que não há-de vir.



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