Ele rodeou-a por trás, limpou-lhe um óleo no braço, desses sujos
de garagem. Ela desviou o corpo, furtando-se:
- Deixa ficar esse sujo, Romão. Meu marido confere cada mancha. É
ele que me põe esses óleos para garantir-se.
Os dois sorriram. Ele garboso, titular. Desabotoou a mulata,
acarinhando-lhe os seios, as volumosas ancas.
- Está escuro, vamos ligar o gerador.
Ela que nem pensasse, o barulho do gerador não deixa escutar os
barulhos de fora, ainda vem aí o cornudo do Abdul. O português costura as mãos
no escuro dela e Salima cede num arrepio confuso.
- Romão você me prometeu...
- Prometi o quê?
- Me levava para...
- Ah, levo, levo.
Há quanto tempo duravam os dois, nesse esconde-aonde? Sempre sem
grande namoro, o Romão rumando directo no corpo de Salima. Atirava a mulher ao
ar, pronunciando as jogáveis palavras: cara ou coroa? Qualquer que fosse o modo
dela tombar no colchão ele sempre ganhava a aposta. Afinal, os dois lados da
mulher eram, para ele, o mesmo e único.
Agora, mergulhados na penumbra da cozinha eles se comemoravam,
enroscados, gatinhosos. Salima se despediu das vestes, açucarando as carnes.
- Romão, para sua satisfeição, que devo fazer?
Sempre aquelas muçulmanias, servindo os prazeres do senhor. Nos
cumes do acto de amor, ela interrompia: assim, está bem para si? Nessa tarde,
Romão se serviu, lambuzeiro, no banco da cozinha, ela sentada sobre suas pernas
querendo lhe prestar melhor que sempre. Porém, o português mal teve tempo de
terminar-se: um ruído na porta o alarmou. Retirou-se às pressas, calças nos
joelhos, tropeçando nos degraus das traseiras. Sossegou quando se viu no
atalho, desatando a rir da sua própria figura. Aproveitou as calças estarem já
em baixo para urinar, dizem que purifica as vias, depois das consumações.
Desnecessitou-se ali, apontando uma árvore, feito um cão. Deleitou-se, de
princípio. Sabia bem aquele abrir de um açude no deserto! Mas, depois, correndo
já as águas há tempos incontáveis, ele se começou a preocupar. Queria parar,
não conseguia. Litros e litros lhe escapavam, num caudal que jamais ninguém
ajuntara. já lhe doía o vazadouro, mirradinhas as bolsas e as funções não
haviam maneira de parar.
- Meu Deus, estou enfeitiçado!
A cabra me deitou feitiço, não é possível estar-me para aqui a
mijar desta maneira. O português se babava, choraminguante. As águas escoavam,
parecia ter-se aberto o alçapão das nuvens. Ele implorou, solicitando a Deus.
Até que, no auge do desespero, o derrame se estancou. Romão Pinto, exausto,
contemplou as esforçadas partes. Foi então que a alma se lhe espetou no visto:
as cuecas estavam manchadas de vermelho, quase pingavam.
- A puta estava com os sangues, raios a partam!
Voltou para trás, louco das fúrias. Queria castigar a mulata,
arrancar-lhe as visceras ensanguentadas. Logo-logo, porém, seus passos se
voltearam e o homem aluiu. Ficou ali, sem noção, quis gritar, chamar alguém.
Mas o grito lhe saiu líquido, pastoso. Da boca lhe escorreu a primeira golfada
de sangue.
Quando retomou a si era já madrugada. Cambalinhando, fez o caminho
de regresso a casa de Salima. A casa ainda não despertara, marido e mulher
dormiam. O português gritou por Salima. Ela veio à janela, esgrenhada. Com
aflição, lhe pediu silêncio. Depois, saiu em alvoroço, amarrada a um lençol.
- Cala-se Romão, ainda acorda o Abdul!
- Ele agarrou nela, sacudiu-a com raiva, fazendo descair o lençol.
Sua boca ainda espumava, uma baba cor da rosa espreitou antes das palavras:
- Grande puta: estavas menstruada!
- Eu não sabia, Romão. Só vi depois.
Ele nem queria escutar. Vinha à mente era a voz da crença,
condenando aquele que ama uma mulher em estado de impureza. Também o português
punha crédito em tais africanas maldições: nele os sangues haveriam de
escorrer, transbordantes.
- Agora, vou-te dizer uma coisa: eu, António Romão Pinto, não vou
morrer sozinho.
O português desferiu ordens: ela devia convidar o marido para os
amores, despertando-o com desejo de ardências. Fosse mulher súbita, imediata,
inadiável.
- Hei-de fazer depois, Romão...
- Depois, não! É agora mesmo. Vai que eu fico a ver pela janela.
- Romão, não faça isso, por favor. Nossos meninos são ainda tão
pequenitos...
- Vai para dentro e põe-me esse gajo a saltar! Ou eu nunca mais te
levo daqui...
Salima entrou, lagrimando. No quarto se penteou, passou um
perfume, aprontando-se. Pelo espelho ainda viu Romão, empoleirado na janela.
Não notou, contudo, que os braços do tuga cediam, frouxos, e ele se poentava,
caindo por trás da vidraça.
O falecido se afastou da janela como se tentasse apartar daquelas
dolorosas memórias. Tinha um ar de quem já não pede nada, de quem já não quer
nenhum recomeço. Quintino sentiu até pena do português. O homem estava desfeito
com a noticia de que, afinal, o marido de Salima não morrera. Para consolar o
homem, Quintino avançou possíveis explicações. Quem sabe era um falso sangue,
esse que a mulher mostrara? Ele conhecia as manhas das mulheres quando não
querem servir as urgências dos machos. Fingem, chegam a cortar-se nas virilhas.
- Vai ver ela lhe drabou, patrão!
Mas o colono já nem escutava. Debruçado no parapeito parecia
aprender artes de renascer. O rosto pálido se madrugava, recuperado das memórias
da antepassada vida.
- Deixa lá isso, pá. Agora, vamos lá ao que importa. Ora diz-me cá
uma coisa. Onde é que está Farida?
Os olhos de Quintino se redondaram, esbugalhões. Farida? Não
sabia, a mulher se deslocalizara. O branco insistiu, Quintino retorceu a voz,
em sonoro garatujo:
- Não posso falar o nome dessa mulher. Dona Virgínia me proibiu.
- Isso foi antes de eu morrer. Agora, que mal faz?
- Ninguém sabe onde ela pára.
Então, o defunto se despreguiçou, saudoso da morte: Meu Deus, como
eu sonhei com essa Farida, nem sabes como aquele corpinho dela me consolou. De
repente, porém, mudou os tons, passou a proclamar ofensas, ameaças.
- Se não confessas, eu carrego-te comigo para os infernos.
O empregado, aterrorizado, evitou que o patrão lhe tocasse. Olhava
para Romão como o milho olha o pilão. Foi recuando, chocando com as cadeiras.
- Juro, patrão. Ninguém sabe. Nem do filho dela também ninguém
sabe.
O filho dela? O que é isso, essa gaja tem um filho? Romão Pinto,
intrigado, rodava em volta do magricelas. Vá, conta lá, pá, quero saber. E, num
salto, segurou as goelas do antigo doméstico. Quintino subiu no ar, levantou os
braços em sinal de rendição, rogando que Romão o deixasse.
- Patrão, vou contar tudo, tintins inclusive. A verdade é assim:
única quem sabe é Dona Virginha, sua esposa. Foi ela que acompanhou o caso, eu
só ouvia contar.
- Olha, Quintino, te peço: vai procurar Dona Virgínia, diz a ela
para vir aqui.
- Chii, patrão. Custa muito demais para falar com ela.
- E porquê? Está surda a velha?
- Não posso explicar, patrão. Mas não se apanha conversa com ela.
O colono, então, lhe disse: só posso sair daqui pela mão de um
vivo. Me acompanha que te recompensarei.
- Não posso, patrão.
Então choveram as ameaças, coisas de estarrecer. Facas e fogos, lumes
e chibatas. Desfaço-te que nem daquela vez que desapareceram os talheres. Ou
pior, que agora com esta passagem pela morte aprendi maldades que nem lembram
ao diabo.
- É o fantasma do colono que me persegue até hoje.
No calabouço da administração, Quintino ainda estremecia só de
lembrar as sentenças do português. Acabou de contar a estória e transpirava por
mais poros que os que tinha na pele. Afinal, nós dois carecíamos de igual
urgência de sair dali. Contudo, tínhamos sido presos para chorar e durar. As
cordas apertavam, estávamos a braços com os braços. A meu lado, Quintino fazia
como o mocho que olha de noite para sonhar de dia. E de olhos abertos deixámos
passar o tempo. Até que, de súbito, um ruído nos fez calar. Alguém se
aproximava, de pés nos bicos. Era Carolinda. Sem falar, ela se baixou e nos
desamarrou. Ficámos assim, ainda presos ao espanto. Seria armadilha? Fomos
saindo, eu e Quintino, em vagaroso desconfio. Quintino foi ganhando confiança e
me receitou pressas para que vos quero. Mas eu tinha que regressar, voltar ao
compartimento onde ficara Carolinda. Ela se mantinha parada de encosto à
parede. Lhe abri nas mãos o colar que tinha guardado comigo. Abanou a cabeça, em recusa. Oferecia-me
tudo aquilo como recordação?
Aceitei, sem mais.
- Por que mentiste sobre mim.?, lhe perguntei.
- Porque não queria que fosses.
- Mas eu não vou embora, Carolinda.
- Não acredito, isto não é terra de ninguém ficar. Vais partir, tu
não pertences aqui.
- Mas por que razão me soltas, então?
- Para que vás para tão longe que pareças impossível. E agora
vai-te e não voltes nunca mais.
Depois, me empurrou com suavidade. Mas eu resisti, me demorando
junto dela. Assim, de face em riste, ela me surgia exclusivamente única, triste
como pétala depois da flor. Meu peito se encheu. Eu sei que em cada mulher a
gente lembra outra, a que nem há. Mas Carolinda me entregava essa doce mentira,
o impossível cálculo do amor: dois seres, um e um, somando o infinito. Se
aproximou e me acariciou os braços, ali onde as cordas me doeram. A cintura de
suas mãos me afagavam, em suave arrependimento. Aquele momento confirmava: o
melhor da vida é o que não há-de vir.
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