-
Era ele! Era seu pai...
Afinal,
ela também sabia do estranho vulto? Com certeza, há muitas noites que ela já
notara a rondância do sujeito. Agora, ela queria que o aparecido fosse o
defunto marido, carregado de fitas pelos braços. Insisti, da minha parte:
-
Não era ele, mãe!
Ela
voltou a trautinhar a canção. Eu hesitei: valia a pena? A velha nunca aceitaria
minhas dúvidas. Quem, neste mundo, dá validade a uma criança? E me deixei. Se
houvesse outra verdade minha mãe nunca haveria confirmar.
Meu
desejo de desmentir o regresso do falecido seria chuva que apodreceria lá em
cima, no topo das nuvens. Afinal, em vida de meu velho, minha mãe toda se
dedicara à ausência dele. Agora, já ele morto, ela se mantinha cuidando de sua
não comparência, cozinhando para suas invisíveis fomes. Eu media o tempo
daquela mulher, o que dela me lembrava: sempre muitíssimo mãe, eternamente
grávida, filho-fora, filho-dentro. Lembranças compridas, ela comendo terra
vermelha para segurar os sangues dentro do corpo. Trazia a areia dentro de uma
panelinha de barro e, nos enquantos, parava para bocanhar terra, às mãos
cheias. Agora, as lágrimas no rosto dela, janelas escuras em sua vida, lhe
molhavam as palavras:
-
Tive tantos filhos, tantíssimos. Todos foram, ficaste só tu, Kindzu. Logo tu, o
pior.
Era
a verdade: minha sobra só lhe dava castigo, saudade dos demais filhos. Por bondade,
eu dela sempre me afastava, lhe aliviando de mim, doença de sua memória. Ficava
o dia vagueandando, pés roçando as ondas que roçavam a praia. Antes ainda eu me
acostumava em casa do pastor Afonso, lendo seus livros, escutando suas lições.
Mas agora eu evitava o sábio mestre. Minha alma era um rio parado, nenhum vento
me enluava a vela dos meus sonhos. Desde a morte de meu pai me derivo sozinho,
órfão como uma onda, Irmão das coisas sem nome.
Enquanto me preguiçava sem destino, ia ouvindo
os ditos da gente: esse Kindzu apanhou doença da baleia. Falavam da grande
baleia cujo suspiro faz o oceano encher e minguar. Minhas parecenças com o
bicho traziam lembranças do antigamente: nós, meninitos, sentados nas dunas.
Escutávamos o marmulhar das ondas, na quebra do horizonte, enquanto esperávamos
ver a baleia. Era ali o lugar dela aparecer, quando o sol se ajoelhava na
barriga do mundo. De repente, um ruído barulhoso nos arrepiava: era o bicharão
começando a chupar a água!
Sorvia
até o mar todo se vazar. Ouvíamos a baleia mas não lhe víamos. Até que, certa
vez, desaguou na praia um desses mamíferos, enormão. Vinha morrer na areia.
Respirava aos custos, como se puxasse o mundo nas suas costelas. A baleia
moribundava, esgoniada. O povo acorreu para lhe tirar carnes, fatias e fatias
de quilos. Ainda não morrera e já seus ossos brilhavam no sol. Agora, eu via o
meu país como uma dessas baleias que vêm agonizar na praia. A morte nem
sucedera e já as facas lhe roubavam pedaços, cada um tentando o mais para si.
Como se aquele fosse o último animal, a derradeira oportunidade de ganhar uma
porção. De vez enquanto, me parecia ouvir ainda o suspirar do gigante,
engolindo vaga após vaga, fazendo da esperança uma maré vazando. Afinal, nasci
num tempo em que o tempo não acontece. A vida, amigos, já não me admite. Estou
condenado a uma terra perpétua, como a baleia que esfalece na praia. Se um dia
me arriscar num outro lugar, hei-de levar comigo a estrada que não me deixa
sair de mim. Vistas as coisas, estou mais perdido que meu mano Junhito.
A
guerra crescia e tirava dali a maior parte dos habitantes. Mesmo na vila, sede
do distrito, as casas de cimento estavam agora vazias. As paredes, cheias de
buracos de balas, semelhavam a pele de um leproso. Os bandos disparavam contra
as casas como se elas lhes trouxessem raiva. Quem sabe alvejassem não as casas
mas o tempo, esse tempo que trouxera o cimento e as residências que duravam
mais que a vida dos homens. Nas ruas cresciam arbustos, pelas janelas
espreitavam capins. Parecia o mato vinha agora buscar terrenos de que tinha
sido exclusivo dono. Sempre me tinham dito que a vila estava de pé por licença
de poderes antigos, poderes vindos do longe. Quem constrói a casa não é quem a
ergueu mas quem nela mora. E agora, sem residentes, as casas de cimento
apodreciam como a carcaça que se tira a um animal.
Um
único comerciante ficara na vila: Surendra Valá, indiano de raça e profissão.
Eu gostava de lhe visitar, receber suas conversas, provar os cheiros de sua
casa. Ele me servia comidas bem cheias, dessas dos olhos salivarem na língua.
Sua mulher Assma não aguentara o peso do mundo. Todo o dia ela ficava na
sombria traseira do balcão, cabeça encostada num rádio. Escutava era o quê?
Ouvia ruídos, sem sintonia nenhuma. Mas para ela, por trás daqueles barulhos,
havia música da sua Índia, melodias de sarar saudades do Oriente.
Dos
paus de incenso esvoavam fumos. Os olhos de Assma seguiam aqueles perfumes,
dançando em tontas direcções. Ela adormecia embalada pelos ruídos. Era Surendra
quem, no fim do dia, desligava o rádio, dedo-ante-dedo para não despertar a
esposa.
O
ajudante da loja, Antoninho, me olhava com os maus fígados. Era um rapaz negro,
de pele escura, agordalhado.
Muitas
vezes me mentia, à porta, dizendo que o patrão se tinha ausentado. Parecia
invejar-se de meu recebimento entre os indianos. Minha família também não
queria que eu pisasse na loja. Esse gajo é um monhé (Monhé: indiano.),
diziam como se eu não tivesse reparado. E acrescentavam:
- Um
monhé não conhece amigo preto.
Durante
anos aquele homem tinha provado o justo contrário. Mal saía da escola eu me
apressava para sua loja. Entrava ali como se penetrasse numa outra vida. Da
maneira que meu mundinho era pequeno eu não imaginava outras viagens que não
fossem aquelas visitas desobedecidas. Perdia as horas no estabelecimento,
sentado entre mercadorias enquanto as compridas mãos de Surendra corriam leves
pelos panos. Era o indiano que me punha o pé na estrada, me avisando da demora.
Surendra sabia que minha gente não perdoava aquela convivência. Mas ele não
podia compreender a razão. Problema não era ele nem a raça dele. Problema era
eu. Minha família receava que eu me afastasse de meu mundo original. Tinham
seus motivos. Primeiro, era a escola. Ou antes: minha amizade com meu mestre, o
pastor Afonso. Suas lições continuavam mesmo depois da escola. Com ele aprendia
outros saberes, feitiçarias dos brancos como chamava meu pai. Com ele ganhara
esta paixão das letras, escrevinhador de papéis como se neles pudessem
despertar os tais feitiços que falava o velho Taímo. Mas esse era um mal até
desejado. Falar bem, escrever muito bem e, sobretudo, contar ainda melhor. Eu
devia receber esses expedientes para um bom futuro. Pior, era Surendra Valá.
Com o indiano minha alma arriscava se mulatar, em mestiçagem de baixa
qualidade. Era verdadeiro, esse risco. Muitas vezes eu me deixava misturar nos
sentimentos de Surendra, aprendiz de um novo coração. Acontecia no morrer das
tardes quando, sentados na varanda, ficávamos olhando as réstias do poente reflectidas
nas águas do Índico.
-
Vês, Kindzu? Do outro lado fica a minha terra.
E
ele me passava um pensamento: nós, os da costa, éramos habitantes não de um
continente mas de um oceano. Eu e Surendra partilhávamos a mesma pátria: o
Índico.
E era
como se naquele imenso mar se desenrolassem os fios da história, novelos
antigos onde nossos sangues se haviam misturado. Eis a razão por que
demorávamos na
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