Oitavo capítulo
- O
suspiro dos comboios
- Lhe vou confessar miúdo. Eu sei que é verdade: não somos nós que
estamos a andar. É a estrada.
- Isso eu disse desde há muito tempo.
- Você disse, não. Eu é que digo.
E Tuahir revela: de todas as vezes que ele lhe guiara pelos
caminhos era só fingimento. Porque nenhuma das vezes que saíram pelos matos
eles se tinham afastado por reais distâncias.
- Sempre estávamos aqui pertinho, a reduzidos metros.
Tudo acontecera na vizinhança do autocarro. Era o país que
desfilava por ali, sonhambulante. Siqueleto esvaindo, Nhamataca fazendo rios,
as velhas caçando gafanhotos, tudo o que se passara tinha sucedido em plena
estrada.
- É miúdo, estamos a viajar. Nesse machimbombo parado nós não
paramos de viajar. Me faz lembrar quando andava no comboio.
O velho se lembrava, olhos quiméricos. Recordava o trem
resfolegando pela savana, trazendo as boas simpatias de muito longe, os
mineiros que chegavam carregados de mil ofertas. Sua memória se inundava de
vapores e fumos, esses que cacimbam as sonolentas estações. Há quanto tempo os
comboios tinham parado de espalhar seus fumos mágicos?
- Você alguma vez escutou a fala do comboio?
- Nunca, tio.
- É bonito de se ouvir. Túúúúúú-úú.
Tuahir se recorda. Seu serviço tinha sido numa estaçãozinha.
Quando a guerra chegou, os comboios deixaram de passar. Mas ele ficou em seu
posto, com sua lanterna, sua atenta bandeira. Aquela lanterna tinha restado
como única luz entre tanto mato como se fosse uma lâmpada não dos homens mas da
terra. Pontualmente Tuahir madrugava na gare, varria o patamar, reparava as
tábuas da casinha. Aplicava seu princípio: há-de vir, um dia o comboio virá.
Quando chegasse a data ele estaria à frente da ocasião, todo fardado, todo
organizado. Como sempre fizera, saudaria a locomotiva em solene continência. As
carruagens arrastariam seu suspiro de ferros, as meninas correriam com seus
cestos vendendo frutas e a vida se banharia de luzes e vozes.
- Às vezes me apetece arrumar este machimbombo como eu fazia com a
estação. Mas agora não vale a pena.
- Não vale a pena porquê?
- Também não vale a pena responder. Vê esse apito?
E retira do bolso um velho apito. Era um amuleto que o tinha
acompanhado todos aqueles anos.
- Leve. Para lhe dar sorte.
Muidinga, de princípio, não aceita. O apito tem valores
sentimentais que só o velho conhece. Mas Tuahir insiste e ele acaba por
recolher o pequeno objecto. Em sua alma, porém, há uma pedrinha. Por que motivo
não mereceria a pena cuidarem do autocarro? Porquê aquela desistência do tio? E
lhe fala, com devoção. Lhe fala de risos futuros, o mundo brincando em suas
mãos. Voltariam os dois a cuidar da estação, lanternas e bandeiras a ordenar o
trânsito das carruagens.
- Não é o tio que sempre repete: qualquer coisa vai acontecer?
- Digo isso porque já perdi a esperança.
- Mentira. Se tivesse perdido por que razão me havia de oferecer
esse apito?
O velho pede então que o miúdo dê voz aos cadernos. Dividissem
aquele encanto como sempre repartiram a comida. Ainda bem você sabe ler,
comenta o velho. Não fossem as leituras eles estariam condenados à solidão.
Seus devaneios caminhavam agora pelas letrinhas daqueles escritos.
- Me lê, miúdo. Vai lendo enquanto eu faço um serviço.
Então, o velho improvisa um xipefo, solta um pano vermelho. Apanha
um ramo de palmeira e inventa uma vassoura. Varre o interior do machimbombo
enquanto canta. O miúdo desfolha os cadernos sorridente. O velho se recriava,
igual ao seu antigo emprego. E é como se o próprio Muidinga estivesse sentado
na estação, aguardando o próximo comboio. Tuahir vai juntando os resíduos do
queimado numa velha tampa. Depois, sai do autocarro e espalha as cinzas pelas
terras em volta.
- O que está a fazer, tio?
- Estou semear este adubo. É para amanhã quando chover. Continue,
filho. Não pare de ler.
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