Juliana gritara aquelas palavras. Levantou os braços no ar,
balburdiando gestos, palavras de arder. Me puxou para o assento com força, os
desempregados olhos confirmavam sua cega decisão de me reter. Por fim, vendo-me
vencido, soprou aliviada como se escapassem reticências de sua alma.
- Ele não fez por mal, estrangeiro.
- Como não fez por mal?
- Tu não entendes. Fui eu que pedi a Shetani para ele fazer isso.
O bicho estava doente, eu que não tinha coragem...
Desandei, incapaz de ouvir. Saí até à porta para apanhar fresco.
Passei por Shetani. Uma outra prostituta se nichara, entretanto, sobre as suas
pernas dava ternuras merecidas pelos vencedores. Juliana permanecia sentada,
bebendo em silêncio.
As horas se foram dissolvendo, a espuma desceu nos copos. A noite,
às tantas, recebeu as despedidas, na cervejaria foram crescendo as cadeiras.
Juliana Bastiana insistiu em pagar, retirou o dinheiro das roupas íntimas.
Depois, os trocos voltaram ao sutiã. As moedinhas tilintintaram, pareciam rir
com cócegas dos seios. Fui último a sair. Demorei a contar os pés, quantos os
legítimos meus. Sem dar conta eu tinha ultrapassado os meus níveis.
Inspirei o ar da noite. Lá fora a multidão se desapinhava. Alguém
puxava o Quintino pelos braços. Depositaram-lhe no passeio, ele estava
destinado a dormir sob o lençol das estrelas. Um braço me repuxou, era Juliana
Bastiana.
Arrastou-me para ela, me cochichou:
- Esse que está aí, todo entornado no passeio.
- Esse o quê?
- É ele que entende do mato, pode andar lá mais à vontadinha que
os bichos.
- Quintino?
- O próprio. Ele é que lhe pode conduzir onde você quer.
A cega afastou-se, mão dada com uma outra prostituta. Todos se
haviam ido, me deixando só com o bêbado. Longe, um rádio ainda machucava o
silêncio. Sentei para esperar uma pausa na inconsciência do homem. Estávamos só
nós, eu e o embriagado Quintino, relentando-nos no cacimbo da noite. Uma
saudade de Farida me inundou. Voltaria a ver aquela mulher? Ou jamais me
poderia servir daquela formosura? Afinal, em meio da vida sempre se faz a
inexistente conta: temos mais ontens ou mais amanhãs? O que eu desejava era que
o tempo se adiasse, parado como o barco naufragado.
O bêbado, entretanto, não havia meio. O sono se descalçara na
minha cabeça, tão convidançante que, para resistir, me subiu uma agonia. Me
levantei, decidido a passear-me pelas redondezas. Nunca fui mancha-prazeres:
tristeza sempre eu tratei no remédio de uma canção. Entoei uma melodia antiga,
enquanto caminhava sob o perfume dos canhoeiros.
Decidi voltar, de madrugada, para procurar Quintino. Ansiava em saber
a sua resposta sobre o serviço de me conduzir. Repente, um vulto saiu do
escuro. Calafriorento, me defendi, atirando o desconhecido ao chão. No meio da
luta, senti no corpo do suposto as palpitantes saliências: era uma mulher, seus
seios estavam colocados à minha disposição.
- É você, afinal?
Carolinda, a esposa do administrador, se emancipou da penumbra,
desfez-se da silhueta. Com a luta, a roupa se havia esfarrapado. Agora, no
claro da luz, ela se enfeitava com seu próprio corpo, fosse era a abelha florindo.
Atirava o pescoço para trás, no provoco de um riso. A língua, matreira,
espreitava à soleira da boca. De passagem, Carolinda me fez lembrar Farida.
Qualquer coisa as igualava, rosto em rosto. Ou ser que o fogo do desejo faz semelhar
toda a mulher? As nossas mãos se laçaram, como se temessem a separação.
Estávamos perto da igreja, procurámos um lugar urgente.
- Na igreja não, os santos gostam de espreitar.
Demos a volta ao pátio, entrámos no curral da Missão. Dentro havia
um xipefo de curta lumieira. Peguei no candeeiro com a mão desocupada e andámos
por ali pisando palhas, tropeçando em pés do outro. Era uma dança para a qual
ainda não havia sido inventada nenhuma música. Despimo-nos com ânsia. Pendurei
o xipefo no chifre do boi e deitámo-nos sobre a palha.
[fim do sétimo capítulo]
Nenhum comentário:
Postar um comentário