Oitavo caderno de Kindzu - Lembranças de Quintino
Despertei já era muito manhã, Carolinda não estava ali. Fui
recolhendo coisas minhas espalhadas pelo chão. Então vi que Carolinda deixara
cair um colar. Apanhei o enfeite e o guardei para, mais tarde, lhe devolver.
Saí do curral, tonteado pela luz cheia do sol. Voltei ao bar para
encontrar Quintino e finalmente lhe pedir que me acompanhasse pelos matos. No
pátio do bar havia um revolvido ajuntamento. Um homem rebocava o Quintino,
carregando-lhe às forças. O magrinho não resistia: seus passos é que não
encontravam as pernas. Tropegava, tropeçava, tromalhava. O caminho é que
escolhia o homem. Afinal, toda a direcção do embriagado é sempre conveniente.
Eu ia reclamar uma explicação quando um braço me amigou:
- Deixa, é melhor não se meter.
Só então reconheci Shetani. Era ele quem carregava Quintino. Desta
vez, o homem estava fardado. Em seus braços, Quintino experimentou umas
palavras, sílabas de saliva. Eu tinha que recuperar Quintino, aquele bêbado me
era precioso.
- O camarada desculpe mas eu posso cuidar do meu amigo.
Shetani me olhou, desconfiado. Seu rosto piscou, o nariz fungou.
Estaria a rir?
- Me ajuda a descarregar este volume, aceitou ele.
Puxei Quintino pelas axilas, nunca vi sovacos tão vazios.
Acarretei sozinho todo o corpo do embriagado.
- Aguentas com ele?, perguntou Shetani.
- Isto nem peso não é.
Foi quando uma pistola se escancarou contra o meu espanto. Aquela
visão me revolveu as tripas do peito. O antigo combatente puxava ameaça, em
frente dos gerais:
- Vens comigo e
carregas com o cabrão do grosso. Vá, toca-te.
Fui pela estrada, tchovando (Tchovando: empurrando)
Quintino. Eu tinha a mioleira toda numa trapalhada. Estava numa dessas
situações em que nem a água é mole nem a pedra é dura. Qual seria, afinal, o
meu delito? Nos actuais dias, que motivo necessitam para encaixotarem um
vivente? Fomos parar na administração, de pulsos atados. Quintino permanecia
nas brumas, sem nexo. Soltava frases por atacado:
- Hoje é domingo, amanhã também.
Franziu as pálpebras como se receasse que o pensamento lhe fugisse
pelos olhos. Depois, contou as costelas, uma por uma. Cocegava-se,
atrapalhava-se no riso e recomeçava.
- Vinte e quatro! Tal igual as horas do dia. JÁ viu, Kindzu: nesse
mundo tudo se conta por igual?
Passava o tempo, as cordas me iam entrando na carne. Até que o
administrador Estêvão Jonas nos compareceu com sua escolta. Eram vários
responsáveis, todos balalaicados (Balalaicados: trajados de balalaica, um
conjunto de calça e camisa). Olharam-nos em silêncio, como se em nós se
juntassem as culpas de todos os mundiais crimes. Quem falou foi o Abacar
Ruisonho, mansinho:
- Meter no frigorífico, chefe?
- Nem penses! Esses gajos têm a mania de congelar. Não quero mais
confusões. Quem sabe que é esse tipo...
E apontava para mim. Abacar puxou a barriga acima do cinto,
preparando-se para discursar. Mas o administrador ergueu o til das sobrancelhas
e deu ordem, mastigando os maxilares:
- Vão chamar minha esposa!
Falava sem movimentar os lábios, tal era sua fúria. Carolinda deu
aparecimento, cabeça baixada. Quando ergueu o rosto, seus olhos me acusavam,
certeiros:
- Sim, foi este.
Carolinda apontava para mim. Depois, desviou o olhar e não mais
voltou a me enfrentar. Pesava no ar a imobilidade do silêncio. Me lembrei então
que ainda tinha o colar de Carolinda. Se me revistassem não teria salvação. O
medo me fazia descer por mim abaixo. A mulher do administrador saiu pelo
corredor, escoltada pelos milicianos. Estêvão Jonas disse:
- Minha esposa viu-te rasgando dinheiro e atirando as notas no
mar.
- Não é verdade.
Abacar exibiu as provas: dinheiro falecido, espedaçado, ainda
pingando de molhado. Atiraram com aquela pasta viscosa contra mim.
Apressadamente, Quintino recolheu os bocados e tentou reconstituir as notas.
Contava com duplos dedos, desfiando os números alfabéticos. Seus olhos,
boquiabertos, navegavam em retalhos de riqueza. Estêvão Jonas ordenou a seus
subordinados que o deixassem sozinho connosco. Ficou calado até que todos
saíssem. Só então ele inquiriu:
- Apenas quero saber uma coisa: comeste a Carolinda?
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