- Tudo isso são cartas dele, não passa nenhuma semana que não
escreva. Queres ler, estrangeiro?
Segurei as cartas, hesitante. Não li nenhuma. Aproveitei o momento
para lhe explicar o motivo da minha presença naquele bar. Quem sabe ela me
poderia apontar alguém capaz de me acompanhar em procuras no mato. Juliana
Bastiana permaneceu sem resposta, parecia nem lhe chegara meu pedido. Pensei
que deveria abrir um pouco dos motivos, lhe devia uma explicação. Mas ela me
interrompeu:
- Há um motivo de amor?
- Sim, há.
- Então, não preciso saber mais.
Sorri, agradecido. Mantinha as cartas na mão, com delicado respeito,
como se ela me pudesse ver. Devagar fui pousando os envelopes sobre a mesa. Os
homens me olhavam, desdenhosos. Eu, um de fora, gozava a companhia de Bastiana.
Baixei a voz e o gesto para não criar caso. As caras em volta eram de nenhuns
amigos. Antoninho, só então reparei, já tinha saído do bar.
Juliana me pareceu adivinhar o sentimento:
- Não tenha medo. Esses gajos é que tem razão para terem medo.
Voltei ao assunto da minha pergunta. Adiantei que se tratava de
procurar uma criança há muito abandonada. Juliana lançou um terrível
pressentimento: se fora há muito tempo, então esse miúdo devia andar com os
bandos, patifaristando pelos matos, feito semeador de infernos.
- Mesmo assim lhe quero encontrar, respondi.
Eu queria
ganhar tempo, entreter a prostituta a ver se ela se inclinava a deixar cair o
nome de alguém que me servisse de guia.
- Tens arma, estrangeiro? Não tens? É muita pena: porque era bom
que ensinasses a esse menino maneiras de matar, bons métodos de roubar.
Da bolsa retirou um cigarro e, sem acender, o ajeitou entre os
lábios. É só para os outros verem, nem tu sabes quanta inveja vale uma coisa
dessas, disse ela abanando o cigarro.
- Encontras o miúdo, mas ficas proibido de lhe dar caneta ou
enxada. Isso não dá vida para ninguém. Vale a pena uma arma, estrangeiro.
Nestes dias, uma arma é que faz a vida. Rápida e boa.
Do cigarro apagado ela arrancava invisíveis fumaças. Foi rodando a
cabeça, espreitando as vozes. Sacudiu a cadeira, para me chamar a atenção.
Apontou a mesa ao lado onde estava Shetani.
- Tu não sabes o meu perigo de sentar aqui, sozinha consigo.
Não demorei entender. No fundo do bar, Shetani chamou Bastiana.
Usava os modos de espalhador de brasas.
- Anda-te aqui. Quero mostrar-lhe uma coisa.
Bastiana levantou-se com ar grave, apalpando as vozes, seus
cinzentos. Ainda quis ajudar. Mas ela rejeitou o meu braço e ordenou que me
afastasse. Avançou sem chocar em nada, postou-se diante de Shetani.
- O que é?
- Dá a tua mão, quero oferecer-lhe um presente.
- Vai para o mato, o seu lugar é lá.
- Estou-te a dizer, Bastiana. É um presente, uma encomenda que fui
dado por um brigadeiro colonial.
A prostituta estremeceu, seus olhos sorriram, vagaluminosos. Deu
um passo em frente, seu corpo se firmava como um credo. Shetani afastou a mesa,
ergueu-se com vagares. Segurou a mão de Juliana Bastiana, abriu-lhe os dedos
com força.
- Toma, Juliana Bastiana.
Colocou-lhe nas mãos uma qualquer coisa, ninguém percebeu o que
era. Conforme apalpou a oferenda, o rosto dela foi abrandando o sorriso e, aos
poucos, se fechou em mágoa.
Até que gritou um arregalado lamento e chorou. Veio até à
minha mesa, desta vez chocando-se nas demais cadeiras, cambaleoa.
- O que é, Juliana? Que te jazeram, conta-me.
Ajudei a se sentasse, seu corpo estava tenso, parecia ter tomado o
freio nos nervos. Em seu rosto se desprendiam gotas de grossa tristeza,
ensopando o pó-de-arroz. Voltei a pedir que me explicasse o que sucedera.
- Olha, vê o que fizeram com meu cão.
E abriu as mãos. Nelas estavam duas orelhas cortadas, ainda
sangrando, inundando, de vermelho a concha de seus dedos. Eu nem me pensei.
Empurrei a cadeira, avancei sobre o milícia. Mas no caminho o braço da
prostituta me travou, em aflição.
- Onde vais?
- Ele tem que aprender, Juliana. Alguém deve...
- Fica quieto, seu burro.
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