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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 46]


O homem aproximou-me o bafo. Pensei que, postos os modos de confidência, fosse falar em sussurro. Mas usou o mesmo tom de xipalapala (Xipalapala: corneta feita de um chifre de boi) entupido:
- Vou-lhe confessar: me irrita esse Quintino é só por gosto que tenho nele. O gajo não compreende que eu lhe quero proteger. Quando lhe trato assim, faz conta um doentio, é para esses grandes pensarem ele é tonto, suas palavras são sempre de tira-e-põe. Você sabe: em terra de cego quem tem um olho fica sem ele.
Súbito, uma enorme explosão estrondeou. A luz sacudiu-se, por segundos, depois desfaleceu. No escuro, calados, aguardámos nova explosão. Apenas uma voz se fez ouvir:
- Cabrões, foi aqui mesmo!
Quem estaria disparando? O exército ou os bandos? Contra quem estariam disparando? Alguém riscou um fósforo, uma vela se acendeu no balcão. Depois, vários xipefos se iluminaram e foram distribuídos pelas mesas. Quintino foi o primeiro a voltar às falas, retomador da folia.

- Você, então? Nada se fala?
O homem se aproximou de mim, eu já estava sem remédio: metido na disputa. Mais queria ficar de fora, alheio à conversa perfurada, mais eu estava com o pescoço dentro dela. Nervoso, o homem me empastou com seu hálito:
- Você estrangeiro, escuta. Nesta terra se passam muitas merdas, todos tem medo de falar. Eu sei quem está a matar aqui. Não são só os bandos. Há outros, também.
Os bebedeiros se encolheram: as palavras de Quintino soaram como a explosão de há pouco. Quintino insistia: há coisas que todos sabem mas ninguém diz.
- Agora, em Moçambique, a guerra é como se fosse uma machamba.
E se explicou: a guerra gerava altos tacos, cada um semeava uma guerra particular. Cada um punha as vidas dos outros a render. Aquele silêncio estava agora demasiado mortal. Se escutou, então, a voz rosnante de Shetani:
- Esse gajo tem os dias descontados!
Quintino prosseguiu destemeroso, ignorando a presença do antigo combatente:
- É por isso essa guerra não acaba nunca mais. É assim, exactamesmo. Este Abacar também sabe, só não fala porque é um merda, filho de uma diarreia.
Aquilo era a gota transbordando. Abacar ficou calado, marsupial. Nem eu notara que estivesse tão bebido. O excesso de álcool lhe dava uma aparência compenetrada. Bambavam-lhe as pernas, a barriga toda de fora, parêntesis curvo do peso. De repente, porém, arremessou a mão fechada contra a cara de Quintino que caiu, instantâneo, em ruidoso chapinhar. Ficou ali, todo inerte, esmãozinhado. Em volta, um círculo de vozes lhe chamava:
- Quintino, acorde!
Não respondia coisa nem coisa. Seria que ele, pessoalmente, tinha morrido? Perguntei, de inocente. Em redor, os outros se mancharam a rir. Eu não me afligisse, aquilo era muito costumeiro: o magrito acabava sempre assim as noites, no encosto do chão. Abacar se chegou até mim, amaciando os nós dos dedos.
- Tive que lhe arrear. Não tenho gosto de bater. É só para calar o gajo.
Foi então que, naquela penumbra ponteada de lamparinas, surgiu uma mulher acompanhada de um cão de dimensões. Antoninho me sussurrou: aquela era Juliana Bastiana, a prostituta cega. Olhei a dita enquanto o silêncio regressava àquele lugar fumarento. Shetani chamou Abacar e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. Os dois se riram, alto e mau som. A cega abria caminho entre as mesas. A mão dela, ao de leve, tocava o dorso do animal: assim se guiava.
- Estou ouvir o cheiro de um homem de fora. Quem sabe me trazem notícia do meu brigadeiro...
Suspirava saudades que nem convinham a uma mulher sabida e cursada em contrabandalheiras. Seu modo de ser cega fazia que não parecesse uma dessas trampalhonas, virabazucas (Virabazucas: de bazukas, garrafas de cerveja). Ela se chegou, me cheirou. A saia dela se apertava no corpo, o rabo quase nem devia respirar.
- Não tenhas medo do cão. Ele é mais bondoso que muitos desses, disse apontando para a multidão.
Me pediu ser paga, juntou logo três copos. Mandou o cão para fora, o bicho que esperasse por ela. Obediente o cachorro meteu as pernas entre o rabo e saiu. Olhei em redor, a conversa embaretecera, risos rolando em risos. Nem parecia ter havido o tiroteiro, há segundos. Não parecia mesmo haver lá fora, tudo se resumindo àquele barzito. A cega pareceu adivinhar meus pensamentos.
- Graças a Deus sou cega. Lá fora, o mundo está pior. Por causa essa guerra, já ninguém se compaixona por ninguém.
Ela então contou sua razão de suspirar: aguardava o brigadeiro Silvério Damião, seu amante muito militar, exercendo patentes no exército colonial. Juliana historiava: que o brigadeiro tinha saído em missão recente contra os turras, na defesa da lusitana terra. A cega misturava os tempos, fazia do passado um tempo vigente. De um brusco gesto, meteu todo um braço dentro de sua saca e retirou um molho de envelopes.

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