Sétimo
caderno de Kindzu - Um guia embriagado
Já me cansavam aqueles dias em casa de Assane. Que esperava? Nem
Surendra nem Assane me podiam ajudar a procurar Gaspar, o perdido filho de
Farida. Se lhes pedia conselho eles recolhiam os ombros, incapazes de
responder. Para eles meu assunto era coisa estranha, de um outro mundo.
Nesse entrequando, eles me certificaram que a aldeia de Euzinha
havia sido atacada e ninguém nela mais residia. Euzinha devia agora estar no
campo de deslocados. Lá, com toda a certeza, residia agora a mulher que sabia
do destino de Gaspar. Porém, como chegar até ela? Os matos eram demasiado
mortais. Ninguém aceitaria me acompanhar. Antoninho, o ajudante da loja, ao
cabo de muita saliva, disse conhecer alguém que poderia me conduzir pelos
aforas. Deveríamos ir ao bar, lá se encontrava o desditoso cujo.
Essa noite eu e Antoninho fomos ao bar. Entrei e me deixei no
balcão, escutando as vozes distantes dos presentes, quase todos embriagados.
Muitos aproveitavam as duas horas de electricidade que o gerador da
administração distribuía pelo povoado. E se agremiavam na cervejaria, a juntar
conversa, amolecendo fraquezas em voz alta. Mais que os outros todos, dois
homens se discutiam. Antoninho identificou os tais. Um gordo, enormão,
balalaica carecendo de botões. Sendo chamado de Abacar Ruisonho. O outro,
denominado Quintino Massua, homem nervoso, tão magro que uma ideia, só de ter
peso, lhe fazia transpirar. Pois este Quintino levantava o copo e celebrava as
boas graças:
- Vou ficar rico, cheio da
mola.
Os presentes se riam, sem dar outro crédito que não fosse o de
brincriação. E erguiam os copos, festejosos. Antoninho me segredou, em rápida
pincelada, o retrato de Abacar Ruisonho. O homem era o chefe dos serviços de segurança,
vacilando entre o ruim e o perdoável. Pois ele chegava onde quer que não fosse,
abanava um cartão, nomeado que estava para intimar, e lavrar em acta. Seu permanente
serviço era contar os viventes, conhecer quantos deslocados chegavam do campo.
Passava o dia de esquina em esguelha, numerando: um, dois, por aí avinte...
Empilhavam-se os números, baralhavam-se as pessoas. E recomeçava a contagem. Às
vezes, rebentavam-lhe as fúrias: que esta gente nunca está quieta, grande
porra! Uma coisa era certa: o gordo nem mau seria. Pelo menos, o magro Quintino
não se amedrontava com o gordo Abacar. O magricelas se declarava, de juramentos
para cima:
- Estou a dizer: amanhã sou eu que vou distribuir favores. É bom
vocês ficarem em concordâncias comigo. Quem estiver contra mim não vai cheirar
quinhenta.
Todos se descuidavam da verdade, migrados no fumo daquele bar,
longe da vida real. E aclamavam no actual pobre o futuro falso rico. Se queria
era engordar a fantasia. Fazia-se a festa sem nenhum ingrediente que não fosse
a miséria de entrar num copo e afogar tristezas.
O único que não encontrava graça era o gordo Abacar. Sério como
uma segunda-feira, reprovava as proclamações de Quintino Massua.
- São bebedeiras politicamente incorrectas.
Nesse momento, entrou no bar um homem estranho, pendurando uma
pistola no vasto cinto. Ao sentir a presença do cujo, os presentes se
entrelinharam, caladinhos, metidos com seus líquidos assuntos. Perguntei a
Antoninho quem era o chegado.
- Esse é o Shetani. É melhor a gente se emborar.
O silêncio se instalou no bar. Contudo, naquele momento, Quintino
Massua se desimportou, alheio aos perigos. Para comprovações, subiu numa
cadeira e proclamou-se autor de feitos muito comentados em toda a vila:
- Aquelas notas de dinheiro que apareceram na praia: quem foi que
rasgou-lhes? Eu mesmo, próprio Quintino.
O gordo Abacar ruminou cerveja, empapou argumento. Os presentes
deixaram as graças e se abotoaram consigo mesmos. Antoninho me puxou pelo braço
insistindo que deveríamos ir embora:
- Por favor de Deus, vamos para casa!
A brincadeira resvalava nos perigos, o assunto das notas era
matéria de muito-o-quê. Shetani já comichava a mão sobre o cinto, deitando um
nervo sobre a pistolenta. Mas o magrinho Quintino, discursador, prosseguia:
- Vejam motivo do sofrimento de hoje. É porquê?
Virando-se para mim me perguntou se eu sabia o real motivo dos
cajueiros não florirem. Abacar me falou, tentando me tranquilizar:
- Não ligue. Isto é atraso, ignorância bravia. Vale a pena
insistir? Vale a pena esclarecer esta gente? Eu sempre acho que sim. Do menos o
mal: afinal, grão a grão o papa se enche de galinhas.
Hospitaleiro, o volumoso Abacar me ofereceu um espaço no balcão, a
seu lado. Enquanto bebia, desembolsava mais ditados:
- No papar é que está o ganho!
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