Ficam por um enquanto a respirar tristezas, o cacimbo se adensava.
O miúdo, então, lhe pergunta: por que razão ele nunca consegue lembrar antigas
recordações? Porquê o antigamente, todo o tempo anterior à doença lhe estava
impedido, mais coberto de cacimbo que os terrenos em volta?
- Aprendi tudo de novidade: andar, falar. Meus olhos se lembram
das leituras, meus dedos não esqueceram as letras. Mas eu não sei lembrar nada
do meu passado. Porquê, tio?
Tuahir lhe diz a verdade. O miúdo tinha sido levado ao feiticeiro.
O velho lhe pedira para que tudo fosse retirado da cabeça dele.
- Pedi isso por causa é melhor não ter lembrança deste tempo que
passou. Ainda tiveste sorte com a doença. Pudeste esquecer tudo. Enquanto eu
não, carrego esse peso...
Tuahir havia entendido: os escritos de Kindzu traziam ao jovem uma
memória emprestada sobre esses impossíveis dias. Ao menos ele acreditasse tudo
aquilo ser fantasia, estoriazinha que se conta para fazer de conta.
- Sabe, miúdo, o que vamos fazer? Você me vai ler mais desses
escritos.
- Mas ler agora, com esse escuro?
- Acendes o fogo lá fora.
- Mas, com a chuva, a lenha toda se molhou.
- Então vamos acender o fogo dentro do machimbombo. Juntamos coisa
de arder lá mesmo.
- Podemos, tio? Não há problema?
- Problema é deixar este escuro entrar na cabeça da gente. Não
podemos dançar nem rir. Então vamos para dentro desses cadernos. Lá podemos
cantar, divertir.
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