Sétimo
capítulo - Moços sonhando mulheres
A chuva timbilava (Timbilar: tocar marimba, de mbila
(singular), tjmbila (plural)) no tecto do machimbombo. Os dedos molhados do
céu se entretinham naquele tintintilar. Tuahir está embrulhado numa capulana.
Olha o miúdo que está deitado, de olhos abertos, em sincero sonho.
- Charra, faz frio. Agora, nem se pode fazer uma fogueira, a lenha
toda está molhada. Você me anda a ouvir, miúdo?
Muidinga continuava absorto. Segundo a tradição, ele se devia
alegrar: a chuva era um bom prenúncio, sinal de bons tempos batendo à porta do
destino.
- Te falta é uma mulher, disse o velho. Estiveste a ler sobre essa
mulher, a tal Farida. Devia ser bonita, a gaja.
As mulheres, em instante, ficaram tema. Mulheres é bom quando não
há amor, disse. Porque o amor é esquivadiço. A gente lhe monta casa, ele nasce
no quintal. Vale a pena uma puta, miúdo. Gastamos o bolso, não o peito. Numa
puta não pomos nunca o coração. E prossegue:
- Você, miúdo, não conhece meu caso com Jorogina?
- Então, o velho relata seu encontro com Jorgina, mulher que
merecera suas eternas promessas. Ela parecia burrinha, metida em ideia só por
biscate. Assim se querem as tipas, adianta Tuahir, que é para não avançarem fora
dos serviços que Deus lhes confiou.
- Me enganei dessa mulher, Muidinga.
Afinal, ela era uma dessas de joelhos arregaçados, capaz de cair
em esteira alheia mais fácil que o milho se ajoelhar no pilão. Tuahir sofrera,
a voz ainda lhe nuventa com a lembrança.
- Agora vivo de cor e salteado.
Tuahir salivava as sílabas, sofrendo dessa indigestão de nada não
comer desde há dias. Contempla o miúdo, lhe adivinha a idade de começar
namoros. E sorri recordando a cena das velhas violentando o rapaz. O rapaz
merecia outras iniciações.
- Espera, miúdo. Deixa eu sentar perto.
Se arruma na beira no assento de Muidinga. Mete a mão entre as
virilhas do rapaz. Aos poucos lhe vai desapertando a breguilha.
- Agora pensa nas meninas.
- Tio! Não faça isso...
- Não experimenta me negar, ainda lhe despacho umas porradas. Vá,
faça como te digo.
- Mas, tio: assim eu não consigo...
- É por causa você está pensar só com a cabeça. Pensa com todo
corpo!
- Não vai dar, tio.
- Com certeza você está pensar Maria Bofe, aquela lá do campo. Essa
nem tem tatuagem, pele dela é lisa como um homem. Pensa Joaquinha, pensa
Tinita. Essas tem as próprias tatuagens, você toca a barriga delas e sente
parece é uma casca.
- Não é questão de pele, nem tatuagem. É que não dá, assim de
pensamento.
- É motivo da pele, eu sei. Você já viu peixe sem escama? Peixe
sempre leva escama. Sem tatuagem a mulher que está na pessoa não acorda. Está
ver, você agora? Só de falar o assunto você já está a acordar. Vá continua,
rapaz, eu lhe ajudo. Faz conta minha mão é Joaquinha.
Os dois adormecem, encostados. Despertam sentados, na mesma
posição com que tinham adormecido. Com a chegada da noite a chuva tinha parado.
A terra soltava ainda o seu perfume doce. Por baixo do canhoeiro, eles se
levantam em alegre disposição. Sem compreenderem o motivo eles cantam em desafio. Depois ,
dançam, batucando nas latas. Parecem tontos.
- Mas nós bebemos, tio?
- Isso é bebida que estava dentro do sangue há muito tempo. Nos
tempos, eu bebi tantíssimo.
E explica as urgências de beber: a urina, lá onde ela morava,
dentro do corpo, lhe aquecia muito. Chegava de lhe queimar, quase a ferver. O
remédio era beber, meter líquido para arrefecer aquelas águas interiores. Os
dois se riem da explicação, gargalham a peitos abertos. De repente, Muidinga se
inquieta:
- Não é perigoso barulharmos assim?
- Se rir muito alto você afasta os maus espíritos.
O velho retoma dançando. Muidinga já não o acompanha. Encosta-se
numa árvore. O velho olha-o admirado.
- Ria, miúdo. Rindo as alegrias acontecem.
Depois, também Tuahir abandona as danças. Desaba-se, desistido. Senta-se,
abanando a cabeça.
- Você tem razão, miúdo: cada vez vamos chamar atenções.
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