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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 42]


Me decidi a voltar lá, levar um naco de água ao desgraçado. Já saía quando um dos sobrinhos de Assane me travou o gesto:
- Esse homem está morto, tio.
Espreitei o corpo na distância. Realmente, o homem estava escurecido, dessa cor estagnada dos machongos (Machongo: terra fértil de solos argilosos). E a corda, parada em sua mão, o que seria? O mesmo miúdo me contou: o homem estava a fazer uma corda para se enforcar. Dia e noite enrolava o sisal sem nunca terminar a obra. Já o inuntensílio tinha o comprimento de uma porção de metros. Não chegou a usar, não se pendurou. Faleceu assim mesmo, razões de dentro. A morte, afinal, é uma corda que nos amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco.
O morto ali ficou, na berma da estrada todo o dia. Na manhã seguinte ainda estava no mesmo lugar, louvado pela moscaria. Vendo bem, o cadáver descuidado no passeio não descondizia com tudo resto. Simbolizava aquilo que a vila se tinha tornado: uma imensa casa mortuária. Ao meio-dia um grupo de soldados veio remover o corpo. Arrastou-lhe pelos pés, ao longo da estrada. Aquele era o funeral que cabia ao anónimo desvalido: poeirando pela rua, as moscas zunzinando, contratadas carpideiras dos ninguéns.
Fiquei a ver os soldados se afastando entre as casas demolidas. O ar estava carregado, ensopado. Ao olhar o fúnebre cortejo, desaparecendo entre os escombros, me veio o pensamento: nós, que nasceremos naquele tempo, éramos os últimos viventes. Depois de nós já não havia mundo para receber mais ninguém.
[fim do sexto capítulo]

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