Me decidi a voltar lá, levar um naco de água ao desgraçado. Já
saía quando um dos sobrinhos de Assane me travou o gesto:
- Esse homem está morto, tio.
Espreitei o corpo na distância. Realmente, o homem estava
escurecido, dessa cor estagnada dos machongos (Machongo: terra fértil de
solos argilosos). E a corda, parada em sua mão, o que seria? O mesmo miúdo
me contou: o homem estava a fazer uma corda para se enforcar. Dia e noite
enrolava o sisal sem nunca terminar a obra. Já o inuntensílio tinha o
comprimento de uma porção de metros. Não chegou a usar, não se pendurou.
Faleceu assim mesmo, razões de dentro. A morte, afinal, é uma corda que nos
amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as
pontas da corda, nos estancando pouco a pouco.
O morto ali ficou, na berma da estrada todo o dia. Na manhã
seguinte ainda estava no mesmo lugar, louvado pela moscaria. Vendo bem, o
cadáver descuidado no passeio não descondizia com tudo resto. Simbolizava
aquilo que a vila se tinha tornado: uma imensa casa mortuária. Ao meio-dia um
grupo de soldados veio remover o corpo. Arrastou-lhe pelos pés, ao longo da
estrada. Aquele era o funeral que cabia ao anónimo desvalido: poeirando pela
rua, as moscas zunzinando, contratadas carpideiras dos ninguéns.
Fiquei a ver os soldados se afastando entre as casas demolidas. O
ar estava carregado, ensopado. Ao olhar o fúnebre cortejo, desaparecendo entre
os escombros, me veio o pensamento: nós, que nasceremos naquele tempo, éramos
os últimos viventes. Depois de nós já não havia mundo para receber mais
ninguém.
[fim do sexto capítulo]
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