Uma tarde, ao regressar a casa, cruzei-me com ela junto à praça.
Me aproximei. E me coloquei, peito em respeito, como se me declinasse frente ao
monumento. A mulher permaneceu alheia, uma ruga se redigia na sua fronte. Por
instante, me pareceu que chorava. Mais perto, vi que não. Cantava. Entoava uma
canção que eu conhecia, dessas da luta armada de libertação.
Ali ficou, mais grave que oração. Uma vontade me levava para ela,
eu queria conhecer a sua tristeza. E havia naquele corpo uma viuvez prematura
que não provinha de morte falecida mas de desatento abandono de si. No momento
me ocorreu colher flores selvagens e colocar nos pés do monumento. Só então a
mulher ergueu os olhos, uns enormíssimos olhos que eu já havia visto em algum
lado. Me contemplou um infinito. Depois voltou a entrar no negro de suas
vestes, no abismo de seu silêncio. Acabei me retirando, intrigado. Em mim
teimava a presença daquela mulher.
Na manhã da inauguração me vesti, condizente. Escolhi entre as
roupas de Surendra um fato apropriado. Tínhamos o mesmo corpo, felizmente. A
loja de Assane e Surendra ficava numa esquina da rua principal, logo ao virar
do primeiro sol. Tinha sido, em tempos coloniais, a cantina de Romão Pinto.
Ficara desocupada desde que o português falecera. Os novos proprietários
tinham-se esforçado nas limpezas, pinturas e arrumos. A loja estava cheia de
aspecto e os comentários na rua pisavam nas admirações. Os curiosos repletavam
os passeios. Excediam eram os maltrapilheiros, bêbados e esfomeados. O
administrador chegou era quase meio-dia. Vinha acompanhado de sua esposa,
Carolinda. Atrás vinham os guarda-costas. As individualidades se guardaram na
sombra para escutarem os longos discursos. Carolinda do lugar onde estava me
dedicou suas vistas. Seus olhos estavam cheios de sombra, nem me segurei em meu
assento. Fui para lugar onde aquela mulher pudesse ser vista mas não me
conseguisse ver. Assane usou da palavra, envergando um fato encharcado de
suores. Fazia os mais possíveis para deixar Surendra em plano de traseiras. Eu
seguia a cena de longe, atento no indiano. Ele se guardava imóvel, quase
estatuado, fosse o único a estar no devido lugar. Surendra parecia subordinado.
Contudo, não vergava aos grandes. O que se passava ali era, afinal, uma
imitação daquilo que num desconhecido lugar seria verdade. Assma, a seu lado,
punha um sorriso incapaz. Quem sabe ela visse outro cenário para além daquele
ali, um cenário indiano em que nós, africanos, seríamos os mais estrangeiros?
Tudo decorria em longas calmarias quando, de repente, entre as
poeiras bravias se animou um ruído de gente desordeira. Era um grupo de homens
fardados que avançava pronto a armar um inferno. De imediato, o administrador
se retirou do lugar, protegido pelos privados guardas. Carolinda se retirou
mais digna que seu marido que fugia a olhos vistos. A roda das gentes se desfez
enquanto a pandilha atravessava a ruela. Um dos desastreiros puxou de uma
pistola e disparou sobre a multidão. Foi a desvairarão. Mais tiros se
sucederam, gritos, nuvens, a gente catando os capins para descobrir um urgente
esconderijo. Eu acorri para as traseiras da loja, escorreguei num charco.
Fiquei ali, cabeça enfiada no chão. Cheirava a mijo, aquilo deveria de ser uma
latrina. Eu estava encharcado era de medo, nem me lembrei do nojo. Permaneci
ali, rezando para que aquela guerra não chegasse às traseiras. Da rua
continuavam chegando as desavenções.
- Matem-me esse muenhé, eram os gritos do mandador dos
assaltantes.
De repente, vi as chamas. A casa se alastrava em fogo, os fumos já
me faziam tossir. Eu não queria sair correndo, com medo de ser emboscado no
terreno aberto. Então, de entre a enchameação, saiu Antoninho carregando o
comerciante indiano, em quase de rastos. O atarantado Surendra nem se dava
conta de quantos pés fazem um passo. Antoninho babava das unhas para suportar
aquele arrasto. Ajudei a que Surendra saísse do alcance do incêndio.
- E Assma? perguntei.
O moço se encolheu, pintando uma carantonha desvalida. Corri a uma
janela a ver se vislumbrava a desgraçada. Ao me chegar os vidros estouraram,
cortantes pedacinhos esvoaram. Me agachei em ilegítima defesa. Voltei à janela
e espreitei: o fogo já se tinha todo espalhado, o chão se calçara de chamas.
Gritei por ela, nem eu escutava a minha voz. O fogo é um exclusivo
dono, o exuberrante macho. Ficámos ali até o incêndio se render. Só então nos
olhámos, reais. Surendra conservava aquela distância de tudo, parecia nada ter
sucedido. Seria que se inteirara do que sucedera com sua mulher?
- Surendra: você viu, Assma... ninguém pôde fazer nenhuma coisa...
Ficou cabisbaixo, emudecido. Entendera? Nem tive tempo de
certificar. Assane chegava, se arrastando na cadeira. Se aproximou e, para
minha surpresa, passou um braço sincero sobre as costas do indiano. Não era
gesto de sócio mas de amigo. Deixei os dois, entregues à tristeza.
No
caminho para casa tropecei num homem dormindo no passeio. Numa mão segurava um
corda comprida. Mais perto vi que tinha os olhos abertos. Estaria possivelmente
bêbado? Ou carecia de ajuda, doente de nem poder chegar ao corpo? Não parei. A
casa de Assane era ali bem perto. Prossegui caminho, vagaroso como o calor
quente que fazia. Chegado a casa, fui à janela de meu quartinho para atentar no
corpo do homem em que antes tropeçara. Lá estava deitado, em comprida sesta
sobre o passeio.
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