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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 41]


Uma tarde, ao regressar a casa, cruzei-me com ela junto à praça. Me aproximei. E me coloquei, peito em respeito, como se me declinasse frente ao monumento. A mulher permaneceu alheia, uma ruga se redigia na sua fronte. Por instante, me pareceu que chorava. Mais perto, vi que não. Cantava. Entoava uma canção que eu conhecia, dessas da luta armada de libertação.
Ali ficou, mais grave que oração. Uma vontade me levava para ela, eu queria conhecer a sua tristeza. E havia naquele corpo uma viuvez prematura que não provinha de morte falecida mas de desatento abandono de si. No momento me ocorreu colher flores selvagens e colocar nos pés do monumento. Só então a mulher ergueu os olhos, uns enormíssimos olhos que eu já havia visto em algum lado. Me contemplou um infinito. Depois voltou a entrar no negro de suas vestes, no abismo de seu silêncio. Acabei me retirando, intrigado. Em mim teimava a presença daquela mulher.

Na manhã da inauguração me vesti, condizente. Escolhi entre as roupas de Surendra um fato apropriado. Tínhamos o mesmo corpo, felizmente. A loja de Assane e Surendra ficava numa esquina da rua principal, logo ao virar do primeiro sol. Tinha sido, em tempos coloniais, a cantina de Romão Pinto. Ficara desocupada desde que o português falecera. Os novos proprietários tinham-se esforçado nas limpezas, pinturas e arrumos. A loja estava cheia de aspecto e os comentários na rua pisavam nas admirações. Os curiosos repletavam os passeios. Excediam eram os maltrapilheiros, bêbados e esfomeados. O administrador chegou era quase meio-dia. Vinha acompanhado de sua esposa, Carolinda. Atrás vinham os guarda-costas. As individualidades se guardaram na sombra para escutarem os longos discursos. Carolinda do lugar onde estava me dedicou suas vistas. Seus olhos estavam cheios de sombra, nem me segurei em meu assento. Fui para lugar onde aquela mulher pudesse ser vista mas não me conseguisse ver. Assane usou da palavra, envergando um fato encharcado de suores. Fazia os mais possíveis para deixar Surendra em plano de traseiras. Eu seguia a cena de longe, atento no indiano. Ele se guardava imóvel, quase estatuado, fosse o único a estar no devido lugar. Surendra parecia subordinado. Contudo, não vergava aos grandes. O que se passava ali era, afinal, uma imitação daquilo que num desconhecido lugar seria verdade. Assma, a seu lado, punha um sorriso incapaz. Quem sabe ela visse outro cenário para além daquele ali, um cenário indiano em que nós, africanos, seríamos os mais estrangeiros?
Tudo decorria em longas calmarias quando, de repente, entre as poeiras bravias se animou um ruído de gente desordeira. Era um grupo de homens fardados que avançava pronto a armar um inferno. De imediato, o administrador se retirou do lugar, protegido pelos privados guardas. Carolinda se retirou mais digna que seu marido que fugia a olhos vistos. A roda das gentes se desfez enquanto a pandilha atravessava a ruela. Um dos desastreiros puxou de uma pistola e disparou sobre a multidão. Foi a desvairarão. Mais tiros se sucederam, gritos, nuvens, a gente catando os capins para descobrir um urgente esconderijo. Eu acorri para as traseiras da loja, escorreguei num charco. Fiquei ali, cabeça enfiada no chão. Cheirava a mijo, aquilo deveria de ser uma latrina. Eu estava encharcado era de medo, nem me lembrei do nojo. Permaneci ali, rezando para que aquela guerra não chegasse às traseiras. Da rua continuavam chegando as desavenções.
- Matem-me esse muenhé, eram os gritos do mandador dos assaltantes.
De repente, vi as chamas. A casa se alastrava em fogo, os fumos já me faziam tossir. Eu não queria sair correndo, com medo de ser emboscado no terreno aberto. Então, de entre a enchameação, saiu Antoninho carregando o comerciante indiano, em quase de rastos. O atarantado Surendra nem se dava conta de quantos pés fazem um passo. Antoninho babava das unhas para suportar aquele arrasto. Ajudei a que Surendra saísse do alcance do incêndio.
- E Assma? perguntei.
O moço se encolheu, pintando uma carantonha desvalida. Corri a uma janela a ver se vislumbrava a desgraçada. Ao me chegar os vidros estouraram, cortantes pedacinhos esvoaram. Me agachei em ilegítima defesa. Voltei à janela e espreitei: o fogo já se tinha todo espalhado, o chão se calçara de chamas.
Gritei por ela, nem eu escutava a minha voz. O fogo é um exclusivo dono, o exuberrante macho. Ficámos ali até o incêndio se render. Só então nos olhámos, reais. Surendra conservava aquela distância de tudo, parecia nada ter sucedido. Seria que se inteirara do que sucedera com sua mulher?
- Surendra: você viu, Assma... ninguém pôde fazer nenhuma coisa...
Ficou cabisbaixo, emudecido. Entendera? Nem tive tempo de certificar. Assane chegava, se arrastando na cadeira. Se aproximou e, para minha surpresa, passou um braço sincero sobre as costas do indiano. Não era gesto de sócio mas de amigo. Deixei os dois, entregues à tristeza.
No caminho para casa tropecei num homem dormindo no passeio. Numa mão segurava um corda comprida. Mais perto vi que tinha os olhos abertos. Estaria possivelmente bêbado? Ou carecia de ajuda, doente de nem poder chegar ao corpo? Não parei. A casa de Assane era ali bem perto. Prossegui caminho, vagaroso como o calor quente que fazia. Chegado a casa, fui à janela de meu quartinho para atentar no corpo do homem em que antes tropeçara. Lá estava deitado, em comprida sesta sobre o passeio.

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