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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 3]


certeza, sentenciou o velho Taímo. Quem vai receber esse apagamento é um de vocês, meus filhos. E rodou os olhos vermelhos sobre nossos ombros encolhidos.
- É ele. É ele quem vai falecer!
Apontou Junhito, nosso Irmão mais pequeno. Estremecemos todos, meu irmanito nem entendeu o que se falava. Seus ouvidos não trabalhavam bem desde que ele quase se afogara. A água lhe entrou fundo nos ouvidos, tanto que nunca mais se limparam.
Sacudiu-se, enxugou-se: nada. A água lá ficou, a gente ouvia chocalhar na cabeça dele. Tive que lhe repetir as palavras de meu pai. Junho se escondeu entre meus braços, tremedroso. O velho ergueu a bengala suspendendo as gerais tristezas.
- Calem! Não quero choraminhices. Este problema já todo eu pensei. Em diante, Junhito vai viver no galinheiro!
Fez seguir ordens de seu mandamento: o miúdo devia mudar, alma e corpo, na aparência de galinha. Os bandos quando chegassem não lhe iriam levar. Galinha era bicho que não despertava brutais crueldades. Ainda minha mãe teve ideia de contrariar: não faltavam notícias de capoeiras assaltadas. Meu pai estalou uma impaciência na língua e abreviou o despacho: aquela era a única maneira de salvar Vinticinco de Junho.
A partir desse dia, o manito deixou de viver dentro da casa. Meu velho lhe arrumou um lugar no galinheiro. No cedinho das manhãs, ele ensinava o menino a cantar, igual aos galos.
Demorou a afinar. Passadas muitas madrugadas, já mano Junhito cocoricava com perfeição, coberto num saco de penas que minha mãe lhe costurara. Parecia condizer com aquelas penugens, pululado de pulgas.
Nas seguintes noites, já nenhuma estória meu pai pronunciava. Ao nosso lar só chegavam novidades de balas, catanas, fogo. Ficávamos juntos, na mastigação de um frio silêncio. Meu pai perguntava:
- As sobras: já lhe deitaram?
Inquiria sobre a refeição de Junhito. Mas sobras, que sobras podem haver de restos de migalhas? E, contudo, sobrava. Quem sabe nossas barrigas se torcessem de aperto: dos nadas de nossos pratos, afinal, sempre restava uma qualquer coisinha.
Junhito se foi alonjando de nossas vistas, proibidos que estávamos só de mencionar sua existência. Minha mãe, mesmo ela, se parecia resignar. Contudo, eu sabia que ela, às escondidas, visitava a capoeira. Fazia isso pelas traseiras da noite. Sentava no escuro e cantava uma canção de nenecar (Nenecar : no sentido original significa trazer uma criança às costas; utilizado aqui como adormecer, embalar), a mesma que servia para todos os nossos sonos. Junhito, de começo, entoava junto com ela. Sua voz nos fazia descer uma tristeza, olhos abaixo. Depois, Junhito já nem sabia soletrar as humanas palavras. Esganiçava uns cóóós e ajeitava a cabeça por baixo do braço. E assim se adormecia.
Uma manhã, a capoeira amanheceu sem ele. Nunca mais, o Junhito. Morrera, fugira, se infinitara? Ninguém se acertava.
Os vizinhos diziam: foi meu pai que, na plena bebedeira confundiu o pescoço de um bico verdadeiro com o do menino de sua criação. Outros dizem foram os bandos que larapilharam o galinheiro para curar suas fomes. Minha mãe, em seu cismado silêncio, escondia outras versões. Talvez ela, quem sabe, abrira a portinhola de rede e soltara se menino para ele debicar por aí, por esses aforas?
O desaparecimento de meu Irmão treslouqueceu toda a nossa casa. Quem mais mudou foi meu pai. Aos poucos foi deixando as demais ocupações alvorando e anoitecendo na beberagem. O barco dele dormia na duna, vela entornada, com nostalgia do vento.
Meu velho se embebedava encostado no barquito. Era como se os dois, embarcação e pescador, esperassem uma viagem que nunca mais chegava.
O estado dele se foi reduzindo até ficar menos de uma lástima: carapinhoso, aguardendo nos bafos. A sura era o seu único conteúdo. Um dia lhe encontrámos, tão repleto, já nem falava. Borbulhava espuma vermelha pela boca, pelo nariz, pelos ouvidos. Foi vazando como um saco rompido e é quando já só era pele, tombou sobre o chão com educação de uma folha.

Cerimónia fúnebre foi na água, sepultado nas ondas. No dia seguinte, deu-se o que de imaginar nem ninguém se atreve: o mar todo secou, a água inteira desapareceu na porção de um instante. No lugar onde antes pairava o azul, ficou uma planície coberta de palmeiras. Cada uma se barrigava de frutos gordos, apetitosos, luzilhantes. Nem eram frutos, parecia eram cabaças de ouro, cada uma pesando mil riquezas. Os homens se lançaram nesse vale, correndo de catanas na mão, no antegozo daquela dádiva. Então se escutou uma voz que se multiabriu em ecos, parecia que cada palmeira se servia de infinitas bocas.
Os homens ainda pararam, por brevidades. Aquela voz seria em sonho que figurava? Para mim não havia dúvida: era a voz de meu pai. Ele pedia que os homens ponderassem: aqueles eram frutos muito sagrados. Sua voz se ajoelhava clamando para que se poupassem as árvores: o destino do nosso mundo se sustentava em delicados fios. Bastava que um desses fios fosse cortado para que tudo entrasse em desordens e desgraças se sucedessem em desfile. O primeiro homem, então, perguntou à árvore: por que és tão desumana? Só respondeu o silêncio. Nem mais se escutou nenhuma voz. De novo, a multidão se derramou sobre as palmeiras. Mas quando o primeiro fruto foi cortado, do golpe espirrou a imensa água e, em cantaratas, o mar se encheu de novo, afundando tudo e todos.
Só recordo esta inundação enquanto durmo. Como as tantas outras lembranças que só me chegam em sonho. Parece eu e o meu passado dormimos em tempos alternados, um apeado enquanto outro segue viagem.
Certo foi minha mãe, após a viuvez, se enconchar, triste como um recanto escuro. Consultámos o feiticeiro para conhecer o exacto da morte de meu pai. Quem sabe era um falecimento sem validade, desses que pedem as mais devidas cerimónias?
O feiticeiro confirmou o estranho daquela morte. Lhe receitou: ela que construísse uma casa, bem afastada. Dentro dessa solitária residência ela deveria colocar o velho barco de meu pai, com seu mastro, sua tristonha vela. Seu dito, nosso feito. No ajunto de todos, empurrámos o concho. Peso tão cheio nunca eu vi.
O puxar do barco demorou todo o dia. Meu tio mais velho comandava os cantos, com sua voz corpulenta. À noitita, junto da fogueira, me explicaram a tradição. Motivo do barco, dentro da casa: meu pai poderia regressar, vindo do mar.
E assim, todas as noites passei a levar para a casinha solitária uma panela cheia de comida. No dia seguinte, a panela estava vazia, raspadinha.
Às vezes, enquanto seguia pelo escuro carregando a refeição do defunto, ouvia as hienas gargalhando. No desfrizar do medo me veio a suspeita: e se fossem as quizumbas (Quizumba: Hiena.) a aproveitar das panelas? Ou se ele, o falecido, usasse a forma de bicho para se empançar? Uma noite, enquanto as hienas vozeavam eu vi um vulto saindo da cabana. Só avislumbrei um braço, todo amarrado com panos vermelhos e pulseiras portadoras de feitiços. Me depressei a chamar minha mãe. Muito-muito eu queria lhe mostrar a existência de um outro ser, um outro comedor de seus jantares. Provar a total ausência de meu pai era para mim uma vitória. Entrei na luz do pátio vi minha mãe surdinando um canto. Nem eu disse nada, já ela se adiantou:

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