certeza,
sentenciou o velho Taímo. Quem vai receber esse apagamento é um de vocês, meus
filhos. E rodou os olhos vermelhos sobre nossos ombros encolhidos.
- É
ele. É ele quem vai falecer!
Apontou
Junhito, nosso Irmão mais pequeno. Estremecemos todos, meu irmanito nem
entendeu o que se falava. Seus ouvidos não trabalhavam bem desde que ele quase
se afogara. A água lhe entrou fundo nos ouvidos, tanto que nunca mais se
limparam.
Sacudiu-se,
enxugou-se: nada. A água lá ficou, a gente ouvia chocalhar na cabeça dele. Tive
que lhe repetir as palavras de meu pai. Junho se escondeu entre meus braços,
tremedroso. O velho ergueu a bengala suspendendo as gerais tristezas.
-
Calem! Não quero choraminhices. Este problema já todo eu pensei. Em diante,
Junhito vai viver no galinheiro!
Fez
seguir ordens de seu mandamento: o miúdo devia mudar, alma e corpo, na
aparência de galinha. Os bandos quando chegassem não lhe iriam levar. Galinha
era bicho que não despertava brutais crueldades. Ainda minha mãe teve ideia de
contrariar: não faltavam notícias de capoeiras assaltadas. Meu pai estalou uma
impaciência na língua e abreviou o despacho: aquela era a única maneira de
salvar Vinticinco de Junho.
A
partir desse dia, o manito deixou de viver dentro da casa. Meu velho lhe
arrumou um lugar no galinheiro. No cedinho das manhãs, ele ensinava o menino a
cantar, igual aos galos.
Demorou
a afinar. Passadas muitas madrugadas, já mano Junhito cocoricava com perfeição,
coberto num saco de penas que minha mãe lhe costurara. Parecia condizer com
aquelas penugens, pululado de pulgas.
Nas
seguintes noites, já nenhuma estória meu pai pronunciava. Ao nosso lar só
chegavam novidades de balas, catanas, fogo. Ficávamos juntos, na mastigação de
um frio silêncio. Meu pai perguntava:
- As
sobras: já lhe deitaram?
Inquiria
sobre a refeição de Junhito. Mas sobras, que sobras podem haver de restos de
migalhas? E, contudo, sobrava. Quem sabe nossas barrigas se torcessem de
aperto: dos nadas de nossos pratos, afinal, sempre restava uma qualquer
coisinha.
Junhito
se foi alonjando de nossas vistas, proibidos que estávamos só de mencionar sua
existência. Minha mãe, mesmo ela, se parecia resignar. Contudo, eu sabia que
ela, às escondidas, visitava a capoeira. Fazia isso pelas traseiras da noite.
Sentava no escuro e cantava uma canção de nenecar (Nenecar : no sentido
original significa trazer uma criança às costas; utilizado aqui como adormecer,
embalar), a mesma que servia para todos os nossos sonos. Junhito, de
começo, entoava junto com ela. Sua voz nos fazia descer uma tristeza, olhos
abaixo. Depois, Junhito já nem sabia soletrar as humanas palavras. Esganiçava
uns cóóós e ajeitava a cabeça por baixo do braço. E assim se adormecia.
Uma
manhã, a capoeira amanheceu sem ele. Nunca mais, o Junhito. Morrera, fugira, se
infinitara? Ninguém se acertava.
Os
vizinhos diziam: foi meu pai que, na plena bebedeira confundiu o pescoço de um
bico verdadeiro com o do menino de sua criação. Outros dizem foram os bandos
que larapilharam o galinheiro para curar suas fomes. Minha mãe, em seu cismado
silêncio, escondia outras versões. Talvez ela, quem sabe, abrira a portinhola
de rede e soltara se menino para ele debicar por aí, por esses aforas?
O
desaparecimento de meu Irmão treslouqueceu toda a nossa casa. Quem mais mudou
foi meu pai. Aos poucos foi deixando as demais ocupações alvorando e
anoitecendo na beberagem. O barco dele dormia na duna, vela entornada, com
nostalgia do vento.
Meu
velho se embebedava encostado no barquito. Era como se os dois, embarcação e
pescador, esperassem uma viagem que nunca mais chegava.
O
estado dele se foi reduzindo até ficar menos de uma lástima: carapinhoso,
aguardendo nos bafos. A sura era o seu único conteúdo. Um dia lhe encontrámos,
tão repleto, já nem falava. Borbulhava espuma vermelha pela boca, pelo nariz,
pelos ouvidos. Foi vazando como um saco rompido e é quando já só era pele,
tombou sobre o chão com educação de uma folha.
Cerimónia
fúnebre foi na água, sepultado nas ondas. No dia seguinte, deu-se o que de
imaginar nem ninguém se atreve: o mar todo secou, a água inteira desapareceu na
porção de um instante. No lugar onde antes pairava o azul, ficou uma planície
coberta de palmeiras. Cada uma se barrigava de frutos gordos, apetitosos,
luzilhantes. Nem eram frutos, parecia eram cabaças de ouro, cada uma pesando
mil riquezas. Os homens se lançaram nesse vale, correndo de catanas na mão, no
antegozo daquela dádiva. Então se escutou uma voz que se multiabriu em ecos,
parecia que cada palmeira se servia de infinitas bocas.
Os
homens ainda pararam, por brevidades. Aquela voz seria em sonho que figurava?
Para mim não havia dúvida: era a voz de meu pai. Ele pedia que os homens ponderassem:
aqueles eram frutos muito sagrados. Sua voz se ajoelhava clamando para que se
poupassem as árvores: o destino do nosso mundo se sustentava em delicados fios.
Bastava que um desses fios fosse cortado para que tudo entrasse em desordens e
desgraças se sucedessem em
desfile. O primeiro homem, então, perguntou à árvore: por que
és tão desumana? Só respondeu o silêncio. Nem mais se escutou nenhuma voz. De
novo, a multidão se derramou sobre as palmeiras. Mas quando o primeiro fruto
foi cortado, do golpe espirrou a imensa água e, em cantaratas, o mar se encheu
de novo, afundando tudo e todos.
Só
recordo esta inundação enquanto durmo. Como as tantas outras lembranças que só
me chegam em sonho.
Parece eu e o meu passado dormimos em tempos alternados, um
apeado enquanto outro segue viagem.
Certo
foi minha mãe, após a viuvez, se enconchar, triste como um recanto escuro.
Consultámos o feiticeiro para conhecer o exacto da morte de meu pai. Quem sabe
era um falecimento sem validade, desses que pedem as mais devidas cerimónias?
O
feiticeiro confirmou o estranho daquela morte. Lhe receitou: ela que
construísse uma casa, bem afastada. Dentro dessa solitária residência ela
deveria colocar o velho barco de meu pai, com seu mastro, sua tristonha vela.
Seu dito, nosso feito. No ajunto de todos, empurrámos o concho. Peso tão cheio
nunca eu vi.
O
puxar do barco demorou todo o dia. Meu tio mais velho comandava os cantos, com
sua voz corpulenta. À noitita, junto da fogueira, me explicaram a tradição.
Motivo do barco, dentro da casa: meu pai poderia regressar, vindo do mar.
E
assim, todas as noites passei a levar para a casinha solitária uma panela cheia
de comida. No dia seguinte, a panela estava vazia, raspadinha.
Às
vezes, enquanto seguia pelo escuro carregando a refeição do defunto, ouvia as
hienas gargalhando. No desfrizar do medo me veio a suspeita: e se fossem as
quizumbas (Quizumba: Hiena.) a aproveitar das panelas? Ou se ele, o
falecido, usasse a forma de bicho para se empançar? Uma noite, enquanto as
hienas vozeavam eu vi um vulto saindo da cabana. Só avislumbrei um braço, todo
amarrado com panos vermelhos e pulseiras portadoras de feitiços. Me depressei a
chamar minha mãe. Muito-muito eu queria lhe mostrar a existência de um outro
ser, um outro comedor de seus jantares. Provar a total ausência de meu pai era
para mim uma vitória. Entrei na luz do pátio vi minha mãe surdinando um canto.
Nem eu disse nada, já ela se adiantou:
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