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domingo, 14 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 39]


O que fazia ali aquele veículo mortal? Assane respondeu com tons vagos, sugerindo que, nos dias de hoje, todo o incrível se torna frequente. Repeti a dúvida: por que razão o monstro de metal era ali escondido?
- Vai lá ver. Com seus olhos, veja o actual serviço desse bicho.
No piso de areia, a cadeira não se movia. Fui sozinho, resolver minha curiosidade. Dentro do blindado chegavam pios e cacarejos. As cacas em volta manchavam o cheiro da terra. Espreitei dentro: dezenas de galinhas me olharam, em estúpida surpresa. O tanque era uma capoeira, lugar de produção. Assane, vaidoso, pontuava:
- É meu biznés, esse. Ninguém suspeita, ninguém pode imaginar, ninguém pode roubar. Se falhar a loja, já tenho outra garantia.
Aquele era o investimento dos dinheiros acumulados durante a vigência do seu lugar na administração. Outros pensariam que era resultado do aluguer da cadeirinha, seu recente expediente. Se valia do aluguer desde que, em troca de silêncio, convencera o administrador a desviar uma cadeira do armazém dos donativos. Mas o homem mantinha um pé em cada margem: ao mesmo tempo que abria a loja, mantinha a capoeira.
- Nunca se sabe!

Voltámos a casa, e de novo se deu andamento aos copos. Assane ultrapassava o risco. Voltei a perguntar por Surendra, o tempo já estava muito escorrido. Surendra, respondeu Assane, foi fazer um serviço, já volta. Eu notei uma sombra na resposta dele.
- Esse monhé, cabrão, ainda lhe lixam antes de eu sacar vantagem do meu negócio...
Quis entender melhor o que dizia. Ele se esticou na cadeira e me lembrou da oficial política do governo. Não havia racismo, nenhuma discriminação. Até ministros indianos havia. Contudo, havia aqueles que estavam descontentes. Queriam fechar porta aos asiáticos, autorizar os acessos do comércio apenas aos negros. Assane desfiou politiquices, deixei de lhe escutar. Surendra já me havia falado desse perigo. Pagaria por todos de sua raça, pelos erros e pela ambição dos outros indianos. Seria preciso esperar séculos para que cada homem fosse visto sem o peso da sua raça. Assane prosseguia, lenga-lengando:
- Não é só o monhé que vai passar mal. Também você se cuida. Você veio de fora, é um tribal, ninguém conhece seu motivo de viagem. Já lhe tinha dito naquele dia na praia. Você é teimoso, não se queixa depois...
E concluiu: aqui já não há quem mande! Esse era o seu medo. Qualquer um podia tomar comando, fazer e desfazer, sem apelo nem despeito. Depois, a quem nos podemos queixar? Os chefes aqui andam de ombros tão elevados que já não escutam o bater do coração. Eu já lhes conheço: nunca lhes vi em nenhuma bicha, sempre se abastecem de esquemas, porta dos cavalos. O que aborrecia Assane não era um princípio mas o já não poder continuar a usufruir das vantagens. Os grandes, no passado da tradição, haviam sempre distribuído benefícios pelos pequenos.
Só agora os poderosos estavam cegos para o alheio sofrimento.
Sugeri um outro motivo de conversa, menos gravoso: mulheres. Era uma maneira de chegar directo ao tema de Farida, conhecer segredos que o aleijado escondia.
- E como estamos de mulheres aqui em Matimati?
Pensei na jura que fizera a Farida. Mas eu não podia respeitar o seu pedido de nunca ser mencionada. Precisava saber mais. Adiantei:
- Mas essa mulher, essa tal Farida...
Assane sorriu, malandro. Esfregou as palmas das mãos nas coxas como se consolasse da sua desvalia. Confortava as pernas que agora sustentavam sua solidão.
- Essa mulher é muito puta. Mas é uma puta muito, muito...
Não encontrava adjectivo. Só em seus olhos luzia um brilho, esses que só a saudade acende. Divagou sobre mulheres que ele dividia em mais e menos putas. Mas nada adiantava sobre Farida. Sua língua se prendia nos vapores de álcool que lhe chegavam de dentro dele mesmo. Eu já não dava ouvidos, naquela conversa aguada. Bateram à porta, era Antoninho. Trazia Surendra com ele. Ficaram parados à porta, pareciam fantasmas.
- Surendra!, chamei enquanto me levantava.
Contudo, o indiano pareceu nem me ver. Estava diferente, os cabelos pretos caindo em desmazelo sobre a testa. Magrecera, o corpo lhe fugia dentro da roupa. Devia ter vindo pela praia, as calças estavam molhadas. Antoninho interrompeu o momento, falando atrapalhoadamente:
- Camaradas patrões: nem imaginam o que ele fez!
Apontava Surendra como se este inexistisse. Assane se irritou e pediu que fosse dado o imediato relatório. Antoninho contou o que passara: Surendra tinha saído para a praia, depois do almoço. Levou a esposa junto com ele. Depois, juntou uns paus e improvisou uma jangada. Assma, a seu lado, canta-encantava qualquer coisa, parecia era um desconcerto de ruídos. Ao fim da tarde, já o indiano tinha completado sua improvisada obra. Deitou a jangada no mar, colocou nela Assma. Foi entrando, ondas adentro e, quando já não pousava o pé no fundo, longamente beijou a esposa na testa. Depois, apontou a jangada numa escolhida direcção e lhe deu um empurrão com força. Ficou acenando uma despedida:
- Vai, Assma! Volta na sua terra!
Assane interrompeu o relato. Perguntou a Surendra se era verdade. Meu velho amigo nem pareceu ouvir. Sentara-se sobre um caixote, mãos impecáveis sobre os joelhos. 

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