O que fazia ali aquele veículo mortal? Assane respondeu com tons
vagos, sugerindo que, nos dias de hoje, todo o incrível se torna frequente.
Repeti a dúvida: por que razão o monstro de metal era ali escondido?
- Vai lá ver. Com seus olhos, veja o actual serviço desse bicho.
No piso de areia, a cadeira não se movia. Fui sozinho, resolver
minha curiosidade. Dentro do blindado chegavam pios e cacarejos. As cacas em
volta manchavam o cheiro da terra. Espreitei dentro: dezenas de galinhas me
olharam, em estúpida surpresa. O tanque era uma capoeira, lugar de produção.
Assane, vaidoso, pontuava:
- É meu biznés, esse. Ninguém suspeita, ninguém pode imaginar,
ninguém pode roubar. Se falhar a loja, já tenho outra garantia.
Aquele era o investimento dos dinheiros acumulados durante a
vigência do seu lugar na administração. Outros pensariam que era resultado do
aluguer da cadeirinha, seu recente expediente. Se valia do aluguer desde que,
em troca de silêncio, convencera o administrador a desviar uma cadeira do
armazém dos donativos. Mas o homem mantinha um pé em cada margem: ao mesmo
tempo que abria a loja, mantinha a capoeira.
- Nunca se sabe!
Voltámos a casa, e de novo se deu andamento aos copos. Assane
ultrapassava o risco. Voltei a perguntar por Surendra, o tempo já estava muito
escorrido. Surendra, respondeu Assane, foi fazer um serviço, já volta. Eu notei
uma sombra na resposta dele.
- Esse monhé, cabrão, ainda lhe lixam antes de eu sacar vantagem
do meu negócio...
Quis entender melhor o que dizia. Ele se esticou na cadeira e me
lembrou da oficial política do governo. Não havia racismo, nenhuma
discriminação. Até ministros indianos havia. Contudo, havia aqueles que estavam
descontentes. Queriam fechar porta aos asiáticos, autorizar os acessos do
comércio apenas aos negros. Assane desfiou politiquices, deixei de lhe escutar.
Surendra já me havia falado desse perigo. Pagaria por todos de sua raça, pelos
erros e pela ambição dos outros indianos. Seria preciso esperar séculos para
que cada homem fosse visto sem o peso da sua raça. Assane prosseguia,
lenga-lengando:
- Não é só o monhé que vai passar mal. Também você se cuida. Você
veio de fora, é um tribal, ninguém conhece seu motivo de viagem. Já lhe tinha
dito naquele dia na praia. Você é teimoso, não se queixa depois...
E concluiu: aqui já não há quem mande! Esse era o seu medo.
Qualquer um podia tomar comando, fazer e desfazer, sem apelo nem despeito.
Depois, a quem nos podemos queixar? Os chefes aqui andam de ombros tão elevados
que já não escutam o bater do coração. Eu já lhes conheço: nunca lhes vi em
nenhuma bicha, sempre se abastecem de esquemas, porta dos cavalos. O que
aborrecia Assane não era um princípio mas o já não poder continuar a usufruir
das vantagens. Os grandes, no passado da tradição, haviam sempre distribuído
benefícios pelos pequenos.
Só agora os poderosos estavam cegos para o alheio sofrimento.
Sugeri um outro motivo de conversa, menos gravoso: mulheres. Era
uma maneira de chegar directo ao tema de Farida, conhecer segredos que o
aleijado escondia.
- E como estamos de mulheres aqui em Matimati?
Pensei na jura que fizera a Farida. Mas eu não podia respeitar o
seu pedido de nunca ser mencionada. Precisava saber mais. Adiantei:
- Mas essa mulher, essa tal Farida...
Assane sorriu, malandro. Esfregou as palmas das mãos nas coxas
como se consolasse da sua desvalia. Confortava as pernas que agora sustentavam
sua solidão.
- Essa mulher é muito puta. Mas é uma puta muito, muito...
Não encontrava adjectivo. Só em seus olhos luzia um brilho, esses
que só a saudade acende. Divagou sobre mulheres que ele dividia em mais e menos
putas. Mas nada adiantava sobre Farida. Sua língua se prendia nos vapores de álcool
que lhe chegavam de dentro dele mesmo. Eu já não dava ouvidos, naquela conversa
aguada. Bateram à porta, era Antoninho. Trazia Surendra com ele. Ficaram
parados à porta, pareciam fantasmas.
- Surendra!, chamei enquanto me levantava.
Contudo, o indiano pareceu nem me ver. Estava diferente, os
cabelos pretos caindo em desmazelo sobre a testa. Magrecera, o corpo lhe fugia
dentro da roupa. Devia ter vindo pela praia, as calças estavam molhadas.
Antoninho interrompeu o momento, falando atrapalhoadamente:
- Camaradas patrões: nem imaginam o que ele fez!
Apontava Surendra como se este inexistisse. Assane se irritou e
pediu que fosse dado o imediato relatório. Antoninho contou o que passara:
Surendra tinha saído para a praia, depois do almoço. Levou a esposa junto com
ele. Depois, juntou uns paus e improvisou uma jangada. Assma, a seu lado,
canta-encantava qualquer coisa, parecia era um desconcerto de ruídos. Ao fim da
tarde, já o indiano tinha completado sua improvisada obra. Deitou a jangada no
mar, colocou nela Assma. Foi entrando, ondas adentro e, quando já não pousava o
pé no fundo, longamente beijou a esposa na testa. Depois, apontou a jangada
numa escolhida direcção e lhe deu um empurrão com força. Ficou acenando uma
despedida:
- Vai, Assma! Volta na sua terra!
Assane
interrompeu o relato. Perguntou a Surendra se era verdade. Meu velho amigo nem
pareceu ouvir. Sentara-se sobre um caixote, mãos impecáveis sobre os joelhos.
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