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domingo, 14 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 38]


Ficava, contudo, um amargo escorrendo naquelas paredes. Nosso assunto se engasgou. Comentei sobre a eternidade que demorava a guerra. Assane discordou:
- Nem isto guerra nenhuma não é. Isto é alguma coisa que ainda não tem nome.
Se explicou: antes fosse uma guerra a sério. Se assim fosse teria feito crescer o exército. Mas uma guerra-fantasma faz crescer um exército fantasma, salteado, desnorteado, temido por todos e mandado por ninguém. E nós próprios, indiscriminadas vítimas, nos íamos convertendo em fantasmas.
- No fundo da latrina não pode haver guerra limpa.
E reclamou como tudo aquilo lhe prejudicava os negócios: a desordem lhe impedia a loja, o florir de seus planos. Pediu-me que lhe guiasse pela casa, queria mostrar o que a guerra tinha feito aos seus domínios. Foi abrindo portas, apontando as muitas crianças, sobrinhos vindos do mato. Estavam misturados com caixas de cerveja, latas, plásticos, embrulhos.
- Você sabe como é, a nossa família sempre é assim, maior que a humanidade. Como queria que eu não desviasse donativos que chegavam na administração?

Abria e fechava as portas: em todo o lado se apinhavam crianças, todas sobrinhas, ranhosas, olhudas, miudinhas. Assane seguia à frente, exibindo as demais bocas com que tinha que repartir o pão. No quintal traseiro havia uma geleira, vinda do barco naufragado. Um moço trabalhava nela com martelo e escopro. Cortava a chapa da porta. Assane me explicou o motivo de tais mecânicas:
- Está a adaptar a coisa. É que uma geleira, aqui, onde nem há electricidade: é para fazer o quê? Agora, vai ficar uma cama para os mais novitos. Enchemos com palha, os miúdos dormem aí, faz conta é uma cama.
- E agora não se pode ir buscar mais coisas lá no tal barco?
- Não. Agora é muito proibido.
- E é porquê?
- Porque no barco está essa gaja, essa Farida. Essa mulher viu muita coisa. Ela não pode viver mais. O administrador está estudar maneira de lhe desaparecer.
Passámos pelo quarto de Surendra. A porta meio-fechada deixava ver um lençol espalhado no chão. Naquele momento, me chegou o tal perfume da minha infância, os incensos da loja antiga. Assane comentou:
- O monhé estava aqui só temporário. Não lhe posso manter aqui em minha casa. Isso me compromete politicamente.
Eu empurrava a cadeira, com receio de não lhe saber deslocar suavemente. Quem sabe ele se ofenderia se eu esbarrasse, em descomando, pelas esquinas. Minhas mãos tinham o malvoroço de quando seguramos um recém-nascido. Assane notou minhas inseguranças. Pediu que me sentasse, apanhando um fresco sossegado.
- Sente. Quero falar alguma coisa. Você é amigo de Surendra, já vi. Mas esse monhé não está bom da cabeça, o gajo não bate cem. É bom você se prevenir.
E continuou: esse gajo anda com pensamentos aéreos, mais distraído que a lua. Parece está aqui enquanto nem. No princípio eu me juntei com ele neste negócio. Ele é que tinha os tacos mas era preciso um nacional para ficar à frente do estabelecimento.
- Nós, originários, devemos assumir as propriedades, não é assim mesmo?
Enquanto a conversa lhe crescia mais velas lhe nasciam no pescoço. Confessou, com raiva:
- Eu não gramo esses gajos, monhés. Nem sei como você pode ser amigo desse Surendra.
- Eu podia responder que este indiano era diferente. Mas fiquei calado. Que sabia eu dos outros indianos? Afinal, o que eu conhecia, o único, era Surendra Valá. Não me defendi. Ao contrário, devolvi outra pergunta:
- Porquê eu não posso ser amigo de monhé? E você? Ser que pode ser sócio de um monhé?
- Eh pá, espera lá! O gajo é que domina os tacos. É só isso. Depois de um tempo, eu nacionalizo tudo. Para o ano que vem, eu privo tudo. Chuto o baniane no rabo.
Riu-se, satisfeito com seus instintos. Prometera sociedade com Surendra. Mas no actual presente o prometido é de vidro. E ele repetia, satisfeito: privo tudo! Gargalhava em bom barulho. Talvez que minha cara revelasse desgosto. Fosse por isso, Assane desviou a matéria da conversa. Me chamou mais perto e murmurou:
- Tenho um segredo, meu Irmão. Jura não divulga!
- Juro.
- Jure dois mil pecados!
Voltei a jurar. Então, ele me pediu que lhe conduzisse a um arbustal cerrado, nas imediações do quintal.
- É aqui! Veja-me lá essa maravilha!
Oculto entre os arbustos jazia um enorme tanque militar. O blindado estava meio destruído, sem rodas. Assentava os flancos na areia, guerreiro em convalescença.
- Este blindado é meu Irmão, nem eu nem ele não funcionamos das pernas.

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