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domingo, 14 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 40]


Seus olhos buscavam uma outra margem do mundo. Eu me levantei, sentindo que minhas pernas me falhavam. Afinal, era Assma a mulher que eu vira! Me abaixei junto de Surendra e lhe dei as mãos:
- Surendra, eu vi Assma. Ela está viva, um pescador lhe apanhou. Venha comigo, vamos buscar Assmita.
Minha voz tremia de raiva. Eu não me perdoava não ter reconhecido Assma, não lhe ter arrancado daquele sofrimento.
Assane, então, desatou-se aos berros:
- Antoninho, me tira dessa merda de cadeira. Vamos lá, vamos pegar essa pobre mulher. Você fica, Kindzu.
Antoninho ajudou Assane a sair dali, passou o braço pela cintura do outro e os dois se arrastaram pela noite. Fiquei só com Surendra. Durante aquele tempo o indiano não se movera. Parecia viver uma daquelas ausências que sua mulher experimentava na loja, escutando os radiofónicos ruídos que mentiam sobre a Índia.
- Surendra: eu vou ajudar Assma. Você vem?
Nem pestanejou. Deixei-lhe assim, entretido com os seus nadas. Na praia, rapidamente encontrei Assane e Antoninho. Afinal, eles tinham chegado a tempo de encontrar Assma viva. Assane ordenou que sua cadeira de rodas fosse trazida para carregar a acidentada. E foi assim, sentada na cadeirinha de Assane, que ela foi levada para o posto de saúde. Eu ajudava o aleijado a se arrastar enquanto, à volta, se juntava um cortejo de muitos curiosos. A indiana ficou no posto, baixada, sem dar acordo.

Depois daquela noite, fiquei alojado em casa de Assane, dormindo na cama de Assma. Surendra se deitava num colchão ao lado, sempre estatuado, inerte. Destinei os dias que ali fiquei a tentar trazer Surendra de volta à consciência. Eu sentia uma grande dívida para com ele, minha infância se abrira em mil horizontes foi na loja dele. Pouco consegui. Valá permanecia em si, clausurado em tristeza. Mesmo assim, todas as tardes, antes de sair para visitar Assma eu lhe perguntava:
- Vou visitar sua mulher. Não quer vir?
- Assma está quase chegar na Índia, me respondia.
A pobre indiana melhorou. Eu mesmo lhe trouxe de regresso a casa. Instalei a senhora numa velha poltrona. Ali ficou. Surendra não quis que ela voltasse ao quarto. Assane se revelou, então, no estranho entrechocar dos sentimentos. Tratava dela com carinho, lhe guardava a melhor parte da comida. Servia-lhe a sopa na boca com uma colher. Conforme Assma se restabelecia, Assane lhe encomendava pequenos serviços na capoeira, se via que era só coisa de convalescer a ideia dela.
Uma noite eu despertei todo transpirado. Meu coração batia em tempestade. Eu escutava a canção de embalar de minha mãe! A melodia vinha de fora, em irreal verdade. Saí embrulhado no lençol. Agora, já não tinha dúvidas. Eram os embalos com que eu e meus Irmãos tínhamos sido adormecidos. A canção chegava do tanque militar. Me aproximei, cauteloso. Quando cheguei à capoeira se instalou o total silêncio. Vislumbrei então um enorme galo. O bicho me fitou surpreso. O olhar dele quase me fez cair. Aqueles olhos eram de uma tristeza que eu já conhecera.
- Junhito!
O galo entortou a cabeça, duvidando-me. Cócóricou, esgravatando o chão, em exibição de mandos. Agora, ele semelhava um real bicho, ave de nascimento e vocação.
Não podia ser Junhito, meu Irmão. Mesmo assim, me deixei ficar, olhando no relento, parado, nidificável. Me rebateu um remorso fundo. Eu havia esquecido meu mano. Estava dedicado a procurar Gaspar, um estranho. Mas abandonara a lembrança de Junhito. Que Irmãodade exercia eu, afinal? Ainda esperei resposta vinda dos aléns, descesse o espírito de meu velho nem que fosse para me dar castigo. O tempo passou, em desfile de cigarra. Depois, desisti-me. Me cheguei junto do galo em quase despedida. Então, outra vez, aqueles olhos se mostraram humanos, capazes de lágrimas. Meus dedos passaram entre a rede e lhe acariciei as asas. Posso jurar ter ouvido, nas minhas costas, o embalo da minha infância. Nunca mais voltei à capoeira. Me convenci que aquele encontro tinha sido uma ilusão, excesso de minha fantasia. Junhito estava falecido, perdido nos lugares que eu deixara. Era isso que eu repetia todas manhãs, quem sabe em limpeza da consciência?
Naqueles dias, eu despertava mais cedo que o sol. Da minha janela via mulheres plantando milho perto da estrada. Insistiam em todo o lado, mesmo onde nem pedra dá semente. Perdiam horas naquela luta inválida. Tal como minha mãe elas acreditavam que um ventre morto pode dar à luz. Dali, do meu quarto eu alcançava toda a estrada de areia até a uma praça. Era uma praça quieta, lembrando o estuário de um pequenito riacho. No centro se erguia uma estátua. Era um monumento aos heróis da Independência. A estátua tinha sido levantada a substituir uma outra, antiga, de política avessa, gloriando os coloniais guerreiros. Derrubaram-na no dia da Independência, quebraram a pedra em mil pedrinhas. E edificaram uma outra, disseram que provisória, mas que ainda durava. Estava suja, coberta de pó, com lixos ao redor. Ninguém parecia lhe dedicar grande respeito. Excepto uma mulher que ali se postava, horas a fio. Eu olhava essa mulher, vestida de negro e acreditava tratar-se de uma viúva.
Foi Assane quem me desvendou a senhora:
- Aquela é esposa do administrador.

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