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domingo, 14 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 37]


- Não lhe vais soltar?
- Soltar? A gaja vai render altos tacos...
Riu-se, espalhafarto. Passou a mão pela curva da barriga a adivinhar o sucesso. Mas depois sobrancelhou-se, preocupado. Fez-me sinal para me segredar. Pediu-me que convencesse a senhora a beber, comer aquilo que muito custara a arranjar. Mostrou-me a lata de água, um prato com peixe, migalhas de arroz. Aqueles restos eram motivo de muita inveja. E agora ela recusava ser servida. Talvez comigo fosse diferente. Ao menos que bebesse, diminuísse a sua fraqueza. Se ela morresse o negócio terminaria. Me cheguei à mulher, toquei suas costas curvas. A pele dela estava fria, escamosa. Demorou a erguer a cabeça. Quando os olhos dela me chegaram recuei em tais boquiaberturas, de abismaravilhado. Seu rosto parecia igual do avesso e do direito. Os cabelos espalhados em ramadas lhe roubavam o humano semblante. Havia, no entanto, qualquer coisa de familiar naquela mulher. Em algum lado eu já havia tocado conhecimento com ela. Quem seria? Onde lhe teria visto? E que palavras iria proferir a um ser tão abichado? Nada não falei. Aproximei o prato de suas mãos e, sem nada dizer, desviei as vistas.
Fugi dali, desandarilho. Sufocava, agoniado. A imagem daquela mulher me dava aperto. Molhei os pés, o frio me fez regressar a mim.

Fiquei sentado na berma da água até que um vulto se aproximou. Era Antoninho. Ao princípio, não trocámos palavra. Fomos por caminhos escuros, atalhos de atalhos. Depois, falei alto para que Antoninho me escutasse, lá na frente. Recordei Assane negociando a sua cadeirinha de rodas. Para aquela gente aquilo era coisa mais que normal. Antoninho me confirmava, grato. Em terra de misérias um pequeno nada é olhado com muita inveja. E, afinal, se entende: um coxo faz inveja a um paralítico. Assane sabia as vistas que dava sua cadeirinha. Ele só faz bem, garantia Antoninho: render o aparelho para todos, não beneficiar sozinho do bem ganhado. E rematou:
- Não esqueças, patrão. A riqueza é como o sal: só serve para temperar.
Patrão. Aquele moço teimava em chamar-me assim. Em sua boca aquele termo surgia como ofensa, um cuspe azedo. Mostrava que, apesar de meus modos assimilados, eu pertencia à sua raça. Um dia iria pagar ter traído essa condição.
Quando bati à porta, Assane me deu as boas entradas. Apertou-me a mão com insuspeitas forças. São assim os braços de quem não pode dar um passo, de quem tem os pés em prematuro silêncio. Subtraído como estava, acanhado na cadeira de rodas, olhava os outros sempre de baixo.
- Tome umas horas. Surendra ainda demora.
Palavreámos, noite adentro. Assane me voltou a contar as suas infelicidades, maneira como havia sido traído pelo administrador. Que havia desvios, açambarcamentos dos donativos que chegavam, tudo isso era verdade. Nem Assane achava muito grave roubar o que era destinado aos esfaimados. Cada um se desenrasca, consoante os poderes, dizia ele. Mas a briga com o administrador era outra. Começara quando Assane se tinha oposto a uma ordem.
- Era uma ordem de morte matada. Certa mulher devia desaparecer.
- Uma mulher?, perguntei.
- Era uma chamada Farida.
Gelei mas fingi não mostrar interesse. Por que motivo teria sido ela condenada pelo administrador? Me ardia a curiosidade mas nada perguntei. Em outro momento eu chegaria àquela verdade. Mudei o assunto, procurei saber dos planos do aleijado.
- O que eu vou fazer agora? Vou montar negócio, ninguém sabe o futuro depois da guerra...
A loja estava já instalada, toda plena, mercadorias nas prateleiras. Faltava, no entanto, inaugurar. Convinha para ele ficar bem com o governo. As autoridades também pretendiam apagar as comprometedoras marcas no corpo do antigo secretário. O administrador estava convidado, era bom oficializar o estabelecimento às vistas do mundo. Assane só tinha uma arreliação: o ambiente não estava bom para os indianos. Havia agitação criada por certa gente graúda. Daí que a cerimónia de inauguração devesse ser vistosa, convites espalhados nas boas direcções, conforme as tácticas da convivência. Eu estava convidado também. Seria um bom momento para conhecer os locais. Respondi educadas evasivas. Eu estava ali de passagem. Meu destino era partir pelos matos, procurar Gasparzito. O anfitrião encolheu os braços a mostrar que a decisão me competia. Voltou a encher os copos. Assane era um garrafeiro, já vazara umas boas goladas, sem mais nem nada. Contudo, seu pensamento se mantinha escorrido. Justificou o excesso:
- No frio é que entorno mais. É que aqui faz frio, não sabia? Chega a dez graus, ainda por cima centígrados! E bebendo a gente sempre esquece...
- Precisamos esquecer quase tudo, não é? Agora, eu entendo bem os babalazes (Babalazes: ressacas de embriaguez) de meu Pai.
- Preciso esquecer muito-muito são coisas que assisti na administração. Eu apanhei porrada que me matou as pernas. Mas antes de mim muitos foram chambocados sem nenhuma razão.
Ele rodava a cadeira, frente para trás. De quando em enquanto se escutavam tiros, rajadas de metralhadora. Já nem nos alarmávamos. Lá fora havia o matraquear da morte, lamentos de vidas que se apagavam. Para nós, porém, aquele ruído era já parte da paisagem. 

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