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domingo, 14 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 36]


- Antoninho!? Onde está Surendra?
- Está na loja.
- Loja? Ele tem nova loja?
Ele confirmou. Pedi que me levasse até lá. Mas primeiro, Antoninho tinha que devolver a cadeira de rodas. Fomos subindo a encosta, empurrando a cadeira. Antoninho me apontou um homem sentado sobre uma pedra que nos aguardava no topo da colina.
Eu me surpreendi: aquele era Assane, o ex-secretário do administrador, o tal que me contara a estória de Matimati.
- Conhece-lhe? É o camarada Assane. Agora, ele é o novo sócio de Surendra. Também é o dono desta cadeira rodoviária.
Enquanto subíamos, Antoninho me explicou: Assane alugava a cadeirinha para divertir o pessoal. Assim desarrascava uns dinheiros.
- É a vida de agora!
Quando saudei Assane, me impressionei. Da primeira vez, eu lhe vira em penumbra. Agora me surgia um homem grande, cabedaloso. Eu sabia a razão de seu corpo estar assim despernado. Mas vendo seu tamanho maiúsculo me dava ainda mais pena lhe ver assim perninulo.
- Minha cadeira está boa?, perguntou, dirigindo-se a Antoninho.
- Está, camarada Assane. Veja: nem um arranhinho.

Assane inspeccionou o veículo. Depois, virando-se para mim:
- Você, afinal, voltou?
Antes que pudesse falar ele me perguntou se queria alugar a cadeira. Neguei. Disse-lhe que queria encontrar seu sócio, meu amigo Surendra Valá. Assane respondeu que o indiano vivia com ele em sua casa, num bairro quase distante. Disse-me que, à noitinha, passasse por lá.
- E como sei onde o camarada mora?
Antoninho, depois, me viria buscar à praia. O ajudante da loja me indicaria um caminho seguro, salvo das balas e dos bandos.
De noite, fiz assento pela praia, esperando Antoninho. Era o tempo das queimadas, se notava o musgo vermelho da lua.
Olhei o mar, os milibrilhos do luar me acendendo os olhos. O mar: porquê eu me achegava nele se, até então, suas águas só me ofereciam sofrimento? Talvez que ali, no meio de tão extensas securas, o mar fosse a fonte que trazia e levava todos meus sonhos.
Ao longo da areia se montoavam gentes. Fogueiras sucessivas luziam no rosto da escuridão. Se escutavam os tambores, sombras esvoavam como ondas na areia. Continuavam as cerimónias para provocar mais naufrágios. Se convocavam feitiços para que os barcos, carregados com donativos, tropeçassem a pique nas rochas da maré baixa. E ficassem esbarrigados, derramando caixotes e volumes pelos bancos de areia. Quem dera um oxalá àqueles pobres! Me olhavam com desconfios mas não me davam demais atenções. Lembrei meu pai, sua palavra sempre azeda: agora, somos um povo de mendigos, nem temos onde cair vivos. Era como se ainda escutasse:
- Mas você, meu filho, não se meta a mudar os destinos.
Afinal, eu contrariava suas mandanças. Fossem os naparamas, fosse o filho de Farida: eu não estava a deixar o tempo quieto. Talvez, quem sabe, cumprisse o que sempre fora: sonhador de lembranças, inventor de verdades. Um sonâmbulo passeando entre o fogo. Um sonâmbulo como a terra em que nascera. Ou como aquelas fogueiras por entre as quais eu abria caminho no areal.
Vozes em briga me trouxeram ao presente. Na praia pessoas se empurravam num círculo. Quando me aproximei, a roda se desfez, em respeito. Um pescador, aparente dono da situação, me perguntou:
- Quer ver?
- É o quê?
Um moço se chegou com uma lata na mão. Como eu não reagisse, ele sacolejou a lata, fazendo soar moedinhas. O pescador interveio:
- Deixa, esse não paga nada. É convidado.
Foi então que vi: deitada na areia havia uma mulher de pele muito clara, toda despida, cabelos compridos tapando o rosto. Perto dela havia um prato com peixe e uma lata com água. Viajando entre nuvens a lua me dava e tirava a visão, num gaguejo de olhos. A multidão se redondava num óóó. Ninguém não falava, só eu perguntei:
- Quem é?
O barqueiro me contou: acabara de encontrar aquela mulher, perdida, sem endereço nas ondas. Lutava para flutuar, os cabelos ondilhavam como algas. O pescador apanhou, limpou e cobriu aquele corpo moribundo. Ela agradeceu muitíssimo, o homem permaneceu calado. A afogada lhe sorriu as maiores gratidões, crendo que ele não soletrasse português. Ele trouxe-lhe para terra e lhe amarrou ali.
- Não é todos dias que se apanha um peixe desses, vangloriava-se o pescador.
Não pensasse ela que lhe enganava, tomasse o salvador por estúpido, rural do mar. Pois ele sabia muito bem como tirar a vantagem do achado. Lucraria era ele, espertalhoso, farto das misérias. E assim, a dita mulher foi posta em exibição para espantosos olhos que jamais viram semelhante criatura.

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