Sexto caderno de Kindzu
- O regresso de Matimati
Farida me dera um gosto novo de viver. Até ali me distraíra nesse
estar contente sem nenhuma felicidade. Depois de Farida me tornei encontrável,
em mim visível. Muitas vezes me avisei do perigo desse amor. Nenhum de nós
podia esperar muito: como ela eu era um passageiro esquecido da qual viagem.
Mas Farida me mandava calar, dedo sorrindo sobre os lábios. Eu temia sua
inocência: ela não sabia viver. Tinha sido preparada para um outro mundo, um
mundo com ordem e medida. O país mudara, ela estava desamparada, sem ninguém a
quem recorrer. Eu sentia o mesmo, mas de uma outra maneira. Talvez porque não
tivesse um filho, não tivesse ninguém. Minha única posse era o medo. Sim, foi
para escapar do medo que saíra de minha pequena vila. Porque esse sentimento já
totalmente me ocupava: eu passeava com o medo na rua, dormia com o medo em casa. Quem vive no medo
precisa um mundo pequeno, um mundo que pode controlar. Nosso mundo, meu e de
Farida, tinha agora o tamanho de um navio. Para mim aquele era apenas um
passageiro momento. Para Farida aquilo era o imutável cumprir de um destino.
Minha companheira comentava quase nada as realidades da vida corrente.
Fantasiática, tudo para ela ocorria no além-visto. Só uma vez beliscou o
assunto da guerra. Me inquiria como se habitasse um outro país:
- Essa guerra algum dia há-de acabar?
Acenei que sim. Mas meu coração se pequenou, constreitinho. Farida
queria conhecer mais: saber o motivo da guerra, a razão daquele desfile de
infinitos lutos. Lembrei as palavras de Surendra: tinha que haver guerra, tinha
que haver morte. E tudo era para quê? Para autorizar o roubo. Porque hoje
nenhuma riqueza podia nascer do trabalho. Só o saque dava acesso às
propriedades. Era preciso haver morte para que as leis fossem esquecidas. Agora
que a desordem era total, tudo estava autorizado. Os culpados seriam sempre os
outros.
- Pode acabar no país, Kindzu. Mas para nós, dentro de nós essa
guerra nunca mais vai terminar.
Farida não voltou a falar da guerra. Parecia não ter força para
enfrentar as matanças distantes. Simplesmente parasse aquela discórdia dentro
de si, aquela angústia que lhe tirava o sossego. Era só essa pequenina paz que
ela sonhava. Quando, por fim, me despedi, ela me pediu:
- Lá, em Matimati, nunca fale de meu nome. Eles me odeiam.
Já em meu concho, remando para terra, surgia clara a razão do meu
retorno à costa. Eu procurava apagar o fogo que devorava aquela mulher. Nem
sequer era generosidade. Precisava salvar Farida porque ela me salvava da
miséria de existir pouco. Havia, por fim, um alguém que não estava metido no
mesmo lodo em que todos chafundávamos, alguém que mantinha a esperança, louca
que fosse. Farida, ao menos, tinha uma ilha com um inviável farol, um barco que
viria de lá onde habitam os anjonautas.
Ao avistar a praia de Matimati, comprovei como são nossos olhos
que fazem o belo. Meu estado de paixão puxava um novo lustro àquela terra em ruínas. Aquelas
visões, dias antes, já tinham estado em meus olhos. Porém, agora tudo me
parecia mais cheio de cores, em assembleia de belezas. Desembarquei sem
conhecer por onde começar a busca. Desta vez não havia tanta gente na praia. A
multidão se tinha dispersado. Seria por consequência da ameaça das autoridades?
Fui subindo por um caminhozito descalço, um trilho tão estreito que mesmo duas
serpentes não podiam namorar. A vila era mais pequena do que parecia, suas
casas estavam mais inteiras que as da minha terra. Havia, no entanto,
excessivos refugiados. Dormiam nas ruas, nos passeios. Por todo o lado, se viam
corpos estendidos, esteirados ao sol.
Eu circulava por ali, divagante, devagaroso. Como começar para
chegar ao filho de Farida? Procurar Irmã Lúcia? Não, ela pouco adiantaria. O
menino saíra da Missão rumo aos matos. O melhor seria encontrar tia Euzinha,
ela saberia das pistas que Gaspar rumara. Mas, Euzinha: onde seu actual
paradeiro? Estaria entre aqueles deslocados da vila? Ou resistira no campo, na
sua casinha-natal? Resolvi não resolver nada, deixar que a resposta acontecesse
sozinha. Me restava um tempo. Farida prometera não abandonar o barco antes que
eu trouxesse novidades de seu filho. Mesmo que viesse gente para resgatar o
navio, mesmo assim ela aguardaria por mim. Trocámos jura contra jura.
A pequena vila se inclinava por uma barreira alta. Fui subindo a
rua que se espreguiçava na colina, igual um penembe (Penembe: lagarto,
varano do Nilo), esses lagartos compridões. Me protegiam sombras de acácias
sossegadas. De repente, o susto: gritos de várias direcções e feitios. Do alto
da estrada uma cadeira de rodas avançava a erróneas velocidades. Sentado nela
vinha um homem, em aflições, tentando endireitar não o veículo mas o caminho.
Nisto, a cadeira viroteou no ar, o corpo do madeireiro foi lançado pelo ar, no
endereço de muitos metros. Ajudei o infeliz a levantar, recostar, limpar as
poeiras. Me admirou ver que não era aleijado. Mais me surpreendeu quando
reconheci seu rosto: era Antoninho, o ajudante da loja de Surendra! Ele também
se espantou de me ver. Nos inquirimos de muitos cornos e quandos.
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