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domingo, 14 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 34]


Sexto capítulo - As idosas profanadoras

À volta do machimbombo Muidinga quase já não reconhece nada. A paisagem prossegue suas infatigáveis mudanças. Será que a terra, ela sozinha, deambula em errâncias? De uma coisa Muidinga está certo: não é o arruinado autocarro que se desloca. Outra certeza ele tem: nem sempre a estrada se movimenta. Apenas de cada vez que ele lê os cadernos de Kindzu. No dia seguinte à leitura, seus olhos desembocam em outras visões.
Muidinga já não reclama para passear pelas cercanias. Apenas Tuahir deseja sair, se espraiar pelos matos. Seu pretexto é a água: é preciso ir buscá-la, armazenar uma boa porção. Aconteceu nessa manhã mais cedo que o habitual:
- Vamos!
- Eu fico, tio.
- Nem pense. Aqui ninguém fica. Se não quer me acompanhar então siga noutra direcção. Mas aqui é que não fica.
Valia a pena discutir? Muidinga se resigna, pois, a ir sozinho pelos carreiros dos bichos. Tuahir segue em oposta direcção. Por onde seguia o moço os capins se infindavam, num Moçambique de verdes. Os olhos de Muidinga se meninam a ver as árvores. Em redor, já nada faz recordar a savana empobrecida. Agora a floresta floresce. Os caminhitos com a guerra se desabituaram de servir. E os capins ganharam confianças, cobrindo tudo. De repente, as árvores se suspendem em clareira. Um campo se abre, de cultivos pobres: milho, meixoeira, pouca mapira.

Muidinga pára a olhar. Ali estava, mesmo que indigente, uma extensão da vontade humana. Fica por instantes a inspirar aquele perfume da terra lavrada até que escuta vozes, vindas do fundo da paisagem. Eram mulheres que se aproximavam, cantando. Traziam ramos nas mãos e com eles iam batendo no chão. Da terra se levantavam nuvens e talvez fosse a poeira que não as deixava ver o miúdo. À frente, vem uma velha, corcunda, esbafurada. Muidinga grita para que seja notado. Há um alvoroço. Elas primeiro se alarmam, depois fazem uma roda, bichanando. Muidinga vai chegando perto, curioso. Súbito, elas correm para ele. O moço fica parado. Uma voz dentro o avisa:
- Foge, Muidinga!
Mas ele nem dá entendimento. Fugir de um grupo de tão avançadas senhoras? As velhas já estavam junto, cercando-lhe. Gritam em língua que ele desconhece, parecem dedicar-lhe azedos insultos.
A mais velha se acerca e, com insuspeita força, lhe bate na cara. Muidinga fica dominando fervuras, entre receio e rancor. O seu medo estava preparado para as demais situações mas não para enfrentar tão idosa e feminina violência. Uma por uma, todas as outras dão um passo em frente e lhe atiram pancadarias. Lhe batem com paus, ramos secos, lhe atiravam areia, pedras, torrões.
- Porquê me batem, mães?
Mas elas não entendem a sua língua. E desse desencontro se enchameia mais a zanga daquela gente. Braços e pernas se cruzam na az fama de lhe golpejar, gritos e risos se enroscam na fria de lhe ofender. O miúdo se humilha, olhos prestes a se aguarem, indefeso como bicho fora da toca.
- Não me batam mais, por favor!
Então, a mais velha se coloca de pernas abertas sobre seu corpo derrubado e, num puxão, se desfaz da capulana. Aparecem as usadas carnes, enrugadas até aos ossos, os seios pendentes como sacos mortos. Ela grita, se lambe a si mesma, em inesperadas volúpias. Sobe a mão por entre as pernas e se deixa cair sobre o rapaz. E se desata a esfregar de encontro ao prostrado Muidinga, mais ciosa que ansiosa. As outras acompanham xiculunguelando, palmando. Uma por uma, todas restantes vão tirando as roupas, trapos e sacos com que se cobriam. Estão nuas, dançando frenéticas à sua volta. A mais idosa dá mais avanço a seus intentos, puxando as íntimas partes do rapaz, abraçada como se lhe quisesse arrancar a alma. Muidinga nem se quer inteirar da sucedência: estava a ser violentado, em flagrante abuso. A primeira se sacia, abusa e lambuza. Depois, as outras se seguem, num amontanhado de corpos, gorduras e pernas.
O pobre moço nem sabe se perdeu o consenso ou se o mundo rodou mais rápido que as mulheres endoidadas. Sabe apenas que está saindo de um escuro e as luzes pirilampejam, abrindo soluços no céu. No recorte da visão está Tuahir, lhe puxando para uma sombra.
- O que aconteceu?, pergunta Muidinga.
Tuahir sorri. E lhe explica com modos paternos. O que aconteceu foi que aquelas mulheres estavam em sagrada cerimónia, afastando os gafanhotos que assaltaram as plantações. Elas estavam a enxotá-los, a esconjurar a maldição. A chegada de um intruso quebrou os mandamentos da tradição. Nenhum homem pode assistir a esta cerimónia. Nenhum, nunca.
- É que esses não são gafanhotos próprios. São gafanhotos de alguém.
Tuahir fala apontando os campos onde cardumes de gafanhotos, em nuventanias, mastigavam o mundo. Aquele escasso verde desaparece dentada por dentada.
- Vamos para o machimbombo.

Muidinga se deixa levar nos braços do velho. Lhe sabe bem aquele abandono, as marcas dos brutais apertos lhe parecem nem existir. E é assim dorido que Tuahir o deixa tombar no banco do velho machimbombo. O miúdo geme enquanto o velho lhe aquece um chá.
- Vá, beba. Fique forte que é para, mais logo, atacar aqueles caderninhos que você sabe.
- Mas, tio. Nem sei se vou conseguir.
- Consegue. Leia como o velho Siqueleto, um olho aberto de cada turno.

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