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domingo, 14 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 33]


Por entre as cortinas vi o corpo de Farida. Ela se banhava. Assim, em contorno de claro e escuro a mulher se esfregava em água ou em claridade? Cheguei à escotilha, espreitei sem disfarce. Farida me notou, virou-se de lado e acenou um gesto de convite.
Entrei, perturbabado, ardendo de intenção. Juntei-me a ela, chegadinho, fosse confiar-me um ilegítimo segredo. Ela se prumou, face a face. Nos olhámos como se reconhecêssemos, no outro, o único ser da terra. Eu para mim, me garantia: não chegava uma vida inteira para contemplar aqueles olhos. Cinzas, se nos olhos dela dormitavam, em brasas se acenderam. Um dedo foi entrando no canto da sua boca. Toquei primeiro em seus dentes, depois senti sua saliva. Era uma saliva quente, parecia que não era apenas um dedo mas todo eu inteiro que penetrava numa caverna aquecida. Outro dedo caminhou nos interiores dela, nervoso de contente. Lá fora, o mar esturdilhava, lançando espumas. O vento soprou com mais raiva, as ondas começaram a varrer tudo, sem respeito. Mesmo ali, no guardado da nossa sala, a água jorrava. Nem parecíamos notar.

O mundo esvanecia e o mar já não importava. As mãos molhadas de Farida desataram as vestes, os dedos dela parecia eram de água. Ela se deitou, derramada no chão de ferro. Nos colámos em gestos de afogado. As vagas ondeavam nossos corpos, indo e vindo. Os dois éramos já só um, emergindo como uma ilha num imenso nada.
Depois, nos desprendemos, fatigados. Ela estremeceu, molhada. Se chegou ao xipefo, se envolveu numa manta. Permaneci, prostrado, seguindo cada movimento dela. Que idade teria? Porque se Farida dava como uma mulher, recebia como uma menina.
- Tens que ir, Kindzu.
Não entendi. Antes, ela me pedira que eu aguardasse pelas noites de luar. Agora se antecipava à lua. E depois, eu é que devia anunciar a partida. Como é que ela podia ordenar a nossa separação?
- Eu vou. Mas tu vens comigo, Farida.
Ela negou: não podia abandonar aquele navio. Mas é um destroço, Farida. Aqui só há outroras, isto é água riscando fósforos. Ela não recuava ideia. Aqui, Kindzu, é o meu ninho. E depois, tenho a certeza, me hão-de vir buscar.
- Um barco desse tamanho não pode ser esquecido. Os donos virão rebocar esta carcaça, eu irei junto. Para longe, muito longe, Kindzu.
Praguejei. Eu sabia que a miséria se cura é com farturas. É verdade que o melhor lugar para o vivo se esconder é no meio de um enterro. Mas aquele devaneio dela não tinha conformidade nenhuma. Tanta ilusão não se concebia. Gritei, em desespero: vais é morrer aqui, apodrecer sozinha. Ela girou, furiosa. Meus modos lhe desacertavam. Parecia que ela iria responder à justa letra e tom. Mas permaneceu gesticalada, com esse surpreendimento que só as mulheres são capazes. Mais tarde, avançou, carinhenta:
- É o tempo da gente ser cada um. Só isso, Kindzu.
- A terra que tu procuras é esta, Farida. Não há outro lugar.
- Tu não entendes, Kindzu. Eu quero sair, continuar viva.
- E teu filho: vais deixá-lo?
Eu pensava que aquele seria argumento fatal. Enganei-me.
Ela já não escutava. Cabisbaixei-me, desistido. Quis enrolar um cigarro, o papel estava encharcado. Amarrotei o charro e atirei para o chão como se nos meus dedos estivesse a minha vontade. Farida não percebia: eu não podia senão viver no sossego da labareda, à sombra de uma paixão mortal. Ela me roçou um gesto, terna, materna. Perguntei se algum recado havia, alguma mensagem a levar para terra. Ela trocou uns dedos de silêncio e, depois, murmurou:
- Eu, Deus me esqueça, só peço uma coisa: é que meu filho já não viva.
- Não diga uma coisa dessas. O que é isso, mulher?
- Mas, Kindzu, acredita que eu quero mal ao meu menino? É que quase eu penso que na morte se está melhor que aqui. E, depois, são pressentimentos, coisas de mãe, nem você pode nunca entender.
- Eu prometi que iria buscar seu menino. É isso que farei, Farida.
Ela sorriu, nem sei se de gratidão. Talvez se divertisse de minha ingenuidade. Pedi-lhe que prometesse esperar pelo meu regresso. Respondeu com um vago aceno. Insisti:
- Virei com seu Gaspar. Promete que me espera?
- Prometo. Agora vai, Kindzu. Vai dormir que sua viagem segue amanhãzinha cedo.
Fui-me deitar em meu recanto. Farida não queria que dormíssemos juntos. Quem dorme no colo de outro perde a alma, dizia. Os sonhos não encontram os respectivos donos quando homem e mulher dormitam entrelaçados. Assim, me embalei solitário, procurando vencer meu cansaço. Em vão. Já era madrugada ainda eu não dera jeito no sono. As pálpebras cabecearam só quando o dia espantava. Olhando o nascer da luz realizei que nunca mais dera atenção ao astro-dia. No fundo, me despedira da luz nas praias de minha aldeia. De bruços sobre o verão, eu deixara o sol na savana do tempo. Molhado, quase líquido, o dia brotava das fundas águas do Índico. Se ergueu com a soberania das coisas derradeiras. E a terra se via estar nua, lembrando distante seu parto de carne e lua.
[fim do quinto capítulo]

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