Por entre as cortinas vi o corpo de Farida. Ela se banhava. Assim,
em contorno de claro e escuro a mulher se esfregava em água ou em claridade?
Cheguei à escotilha, espreitei sem disfarce. Farida me notou, virou-se de lado
e acenou um gesto de convite.
Entrei, perturbabado, ardendo de intenção. Juntei-me a ela,
chegadinho, fosse confiar-me um ilegítimo segredo. Ela se prumou, face a face.
Nos olhámos como se reconhecêssemos, no outro, o único ser da terra. Eu para
mim, me garantia: não chegava uma vida inteira para contemplar aqueles olhos.
Cinzas, se nos olhos dela dormitavam, em brasas se acenderam. Um dedo foi
entrando no canto da sua boca. Toquei primeiro em seus dentes, depois senti sua
saliva. Era uma saliva quente, parecia que não era apenas um dedo mas todo eu
inteiro que penetrava numa caverna aquecida. Outro dedo caminhou nos interiores
dela, nervoso de contente. Lá fora, o mar esturdilhava, lançando espumas. O
vento soprou com mais raiva, as ondas começaram a varrer tudo, sem respeito.
Mesmo ali, no guardado da nossa sala, a água jorrava. Nem parecíamos notar.
O mundo esvanecia e o mar já não importava. As mãos molhadas de
Farida desataram as vestes, os dedos dela parecia eram de água. Ela se deitou,
derramada no chão de ferro. Nos colámos em gestos de afogado. As vagas ondeavam
nossos corpos, indo e vindo. Os dois éramos já só um, emergindo como uma ilha
num imenso nada.
Depois, nos desprendemos, fatigados. Ela estremeceu, molhada. Se
chegou ao xipefo, se envolveu numa manta. Permaneci, prostrado, seguindo cada
movimento dela. Que idade teria? Porque se Farida dava como uma mulher, recebia
como uma menina.
- Tens que ir, Kindzu.
Não entendi. Antes, ela me pedira que eu aguardasse pelas noites
de luar. Agora se antecipava à lua. E depois, eu é que devia anunciar a
partida. Como é que ela podia ordenar a nossa separação?
- Eu vou. Mas tu vens comigo, Farida.
Ela negou: não podia abandonar aquele navio. Mas é um destroço,
Farida. Aqui só há outroras, isto é água riscando fósforos. Ela não recuava
ideia. Aqui, Kindzu, é o meu ninho. E depois, tenho a certeza, me hão-de vir
buscar.
- Um barco desse tamanho não pode ser esquecido. Os donos virão
rebocar esta carcaça, eu irei junto. Para longe, muito longe, Kindzu.
Praguejei. Eu sabia que a miséria se cura é com farturas. É
verdade que o melhor lugar para o vivo se esconder é no meio de um enterro. Mas
aquele devaneio dela não tinha conformidade nenhuma. Tanta ilusão não se
concebia. Gritei, em desespero: vais é morrer aqui, apodrecer sozinha. Ela
girou, furiosa. Meus modos lhe desacertavam. Parecia que ela iria responder à justa
letra e tom. Mas permaneceu gesticalada, com esse surpreendimento que só as
mulheres são capazes. Mais tarde, avançou, carinhenta:
- É o tempo da gente ser cada um. Só isso, Kindzu.
- A terra que tu procuras é esta, Farida. Não há outro lugar.
- Tu não entendes, Kindzu. Eu quero sair, continuar viva.
- E teu filho: vais deixá-lo?
Eu pensava que aquele seria argumento fatal. Enganei-me.
Ela já não escutava. Cabisbaixei-me, desistido. Quis enrolar um
cigarro, o papel estava encharcado. Amarrotei o charro e atirei para o chão
como se nos meus dedos estivesse a minha vontade. Farida não percebia: eu não
podia senão viver no sossego da labareda, à sombra de uma paixão mortal. Ela me
roçou um gesto, terna, materna. Perguntei se algum recado havia, alguma mensagem
a levar para terra. Ela trocou uns dedos de silêncio e, depois, murmurou:
- Eu, Deus me esqueça, só peço uma coisa: é que meu filho já não
viva.
- Não diga uma coisa dessas. O que é isso, mulher?
- Mas, Kindzu, acredita que eu quero mal ao meu menino? É que
quase eu penso que na morte se está melhor que aqui. E, depois, são
pressentimentos, coisas de mãe, nem você pode nunca entender.
- Eu prometi que iria buscar seu menino. É isso que farei, Farida.
Ela sorriu, nem sei se de gratidão. Talvez se divertisse de minha
ingenuidade. Pedi-lhe que prometesse esperar pelo meu regresso. Respondeu com
um vago aceno. Insisti:
- Virei com seu Gaspar. Promete que me espera?
- Prometo. Agora vai, Kindzu. Vai dormir que sua viagem segue
amanhãzinha cedo.
Fui-me deitar em meu recanto. Farida não queria que dormíssemos
juntos. Quem dorme no colo de outro perde a alma, dizia. Os sonhos não
encontram os respectivos donos quando homem e mulher dormitam entrelaçados.
Assim, me embalei solitário, procurando vencer meu cansaço. Em vão. Já era madrugada
ainda eu não dera jeito no sono. As pálpebras cabecearam só quando o dia
espantava. Olhando o nascer da luz realizei que nunca mais dera atenção ao
astro-dia. No fundo, me despedira da luz nas praias de minha aldeia. De bruços
sobre o verão, eu deixara o sol na savana do tempo. Molhado, quase líquido, o
dia brotava das fundas águas do Índico. Se ergueu com a soberania das coisas
derradeiras. E a terra se via estar nua, lembrando distante seu parto de carne
e lua.
[fim do quinto capítulo]
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