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domingo, 14 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 32]


Farida se espanta. Queres mesmo ir procurar o miúdo, pergunta ela. A sua mão pousa em meu braço: espera não vás já! O melhor é aguardar por uma noite de luar para a tua canoa não virar nas pedras. Repeti a pergunta: onde deveria eu vasculhar para encontrar seu filho? Ela fingiu que pensava naquele momento. Mais de catorze anos se tinham passado desde que entregara seu filho na missão. E se eu procurasse tia Euzinha? Ou quem sabe Virgínia ainda estivesse por ali? Na missão? Na missão nem valia a pena, Gaspar nunca haveria de lá voltar. Enfim, eu que tentasse tudo em toda a parte. O menino não poderia ter desaparecido assim, qualquer maneira.
- Procura onde teu peito suspeitar. Mas promete me trazer de volta o meu menino.
Prometi. Eu começaria a busca mal chegasse a terra. Mas eu sentia em mim uma guerra de quereres: parte de mim desejava que ela nunca mais encontrasse o filho. Seria uma maneira de ela ir ficando por ali, um modo de eu guardar sua companhia. Outra parte de mim queria merecer afectos. Redescobrir Gaspar seria o modo vitorioso de conquistar esse afecto. Depois, porém, eu comecei a duvidar se aquela mulher merecia tantas juras de minha parte. Porque as suas estórias foram mais e mais entrando na confusão. Dizia e desdizia. Uma certa vez, quando eu queria aprofundar o caso de seu filho ela me inquiria, surpresa:

- Meu filho? Qual filho?
- Seu filho Gaspar!
Demorou um tempo até se recordar. Afinal, ela se deslembrara assim do pé para a mão? Ou inventara tudo de sua criação? Comecei a pôr muita sobrancelha nas seguintes escutas. Farida se multiplicava em Faridas. Até que uma noite, o calor me fazia rebulir sobre os panos. Acordei estremungado.
Ouvi barulhos. Um pequeno barco a motor se aproximava. Farida veio e gritou agitada:
- São eles, me vêm buscar!
Eles, quem? Farida não respondeu. Me agarrou pelos braços e implorou defesa. Mas não foi preciso eu fazer nada. Porque uma grandiosa tempestade subitamente rebentou. O barquinho dos visitantes não conseguia encostar ao nosso. Tentaram várias vezes. Mas depois, desistiram e se retiraram, escuro adentro. Voltei a perguntar:
- Mas Farida, quem eram?
- Me querem vir matar, Kindzu.
Um assassinato? Que motivo teria? Me pareceu pouco acontecível, mais um delírio daquela mulher. Daquela vez, porém, seu comportamento me estranhou, em convincência. Ela se encerrou em seu quarto e me pediu que me mantivesse à espreita, não fossem os outros regressar. Fui para o convés, molhado até dentro dos olhos. A chuva redigia suas gordas gotas, hesitantes entre trovoar e tropousar. As nuvens se acotovelavam, sem gentileza. Podiam se tocar, pedirem desculpa e continuar caminho. Enquanto não: brigavam, cuspiam lumes, resmungos celestiais. Ser que aprenderam dos homens as impaciências terrestres?
Aquelas nuvens me fizeram recordar quantos dias passaram desde que chegara ao barco encalhado. Já me fartava daquela sozinhidão. Farida nem se importava com a espera. Muitas vezes eu lhe pedia:
- Vem, volta comigo para terra.
Por que razão eu não queria que ela fosse em sua viagem? Por que me doía pensar que alguém pudesse vir-lhe buscar e levar-lhe para terras muito estrangeiras? Ser que já me afeiçoara tanto assim àquela mulher? Ou simplesmente sentia inveja de não poder partir também, sair daquela terra enlouquecida? Quem sabe eu tinha medo de aceitar esse desejo do longe, tão igual ao de Farida? Afinal, ali sob a grossa chuva, de sentinela aos obscuros saltinhadores, eu apenas fingia proteger Farida. Era ela quem realmente me protegia, era ela quem governava os espíritos daquele navio. Meu único espírito, o anão, já se havia extinguido.
Uma coisa me certificava: pouco a pouco eu me amarrava à presença daquela mulher. Nunca eu tinha tocado em mulher de amar. As autênticas, reais mulheres me temorizavam. Ao invés, Farida era quase irreal, ela se sonhava e eu me deliciava naquele fingimento que punha nela. Mas quanto mais me ardia em paixão mais eu sentia que me devia ir embora. Minha missão era outra. Por muito que começasse a duvidar, eu não podia esquecer meu original motivo: ser um naparama, um guerreiro de justiça. Farida me roubava coragem do caminho, me roubava força de decidir. Cada dia que passava, meu coração semelhava mais e mais aquele barco. Eu estava parado naquela mulher, como os ferros preguicentos do barco estavam cravados no banco de areia. Não podia adiar mais, se quissesse ainda ser dono de mim. Deveria partir, imediatamente. Desci o porão apenas para descarregar consciência sobre o anão. E se ele realmente existisse? Essa minha dúvida aumentou quando de um lado do porão vi pacotes e caixotes arrumados em altura reduzida como se tivessem sido empilhados por criança. Gritei, chamei.
Recebi nenhuma resposta. Insisti, o silêncio teimou mais que eu. Farida estava certa, não havia ninguém mais no barco a não ser nós os dois.
Saí do porão, aspirei fundo o ar salgado. Nesse dia estava Setembro, o mês que chama os temporais. O vento soprava trazendo e levando uma chuva quente. De repente, a cabina de pilotagem se acendeu, um xipefo (Shima: farinha de milho) pintou luz, em doces pinceladas.

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