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domingo, 14 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 31]


Quinto caderno de Kindzu - Juras, promessas, enganos

Farida dormia na cabina do capitão. Enquanto eu dormia fora, deitado entre cordas e panos velhos. O anão nunca saía do porão, de guarda aos donativos. Caso estranho: Farida não era capaz de ver o tchóti. Pior ainda: ela desacreditava da sua existência. Eu lhe apontava lá em baixo no porão, a sombra escura e minusculinha do anão. Ela se ria, como se fosse brincadeira. Eu lhe notava os barulhos que o baixito fazia, ela respondia que era o mar ecoando no navio. Desisti de provar a presença do tchóti. Aliás, mesmo eu comecei a duvidar. Cheguei a descer ao porão para provar se o baixito ali permanecia. Chamei por ele, vasculhei, passei tudo pela finura de um pente. Nada. Nem vestígio do anão. Farida tinha razão? Ser que só em sonho a criaturita preenchera alguma existência? Ou seria, mais outra vez, obra de meu pai?
Essas perguntas me perseguiam enquanto procurava ninho para dormir. Do lugar onde me ensonava eu podia ver o céu, todo redondo, estrelinhoso. Nas noites mais claras eu já enxergava a torre do farol. No princípio eu não conseguia distinguir a ilha mais sua construção. Agora, sim. já os via tanto quanto deixara de ver o anãozito. Eu e Farida trocáramos de ilusões?

E lá estava o farol, esse da esperança. Parecia uma zebra descansando sobre uma só perna.
Muitas vezes nem se via a pequena ilha onde tinha sido construído. As ondas cobriam os rochedos, em crinas de espumas. Nas ventanias, o mar se agravava e parecia o barco ia ser arrancado. Eu pensava: lá vamos partir de viagem, sem rumo nem comandante. Contudo, o barco apenas rangia, cansado. Nenhuma força conseguia libertar aquele náufrago. Tinha teimosias iguais às de Farida, só que de contrárias direcções. Um queria ficar, outro ansiava partir. Nada parecia demover aquela mulher de sair de sua terra, abandonar tudo. Seu filho era sua única dúvida, a última âncora.
Antes de deitar, Farida passeava pelo convés. Vagueava, espreitando no escuro. Nesses momentos, ela me recordava meu pai, andando pelo mato à procura de sonhos.
- Não sentes, Kindzu? O barco está a mexer!
Não mexia. Só ela sentia o navio ceder. Naquele destroço, o tempo parecia também naufragado. Nesse enquanto, fui um ouvidor. De cada vez que sofria uma dessas estranhas febres que lhe roubavam o corpo, Farida contava sua estória, fiava e desfiava lembranças. Eu escutava até anoitecer. Meu pai costumava dizer que a escuridão nos faz nascer muitas cabeças. Os relatos de Farida me faziam entrar no passado dela como se eu fosse natural desse seu tempo. Minha companheira perdia a noção do mundo enquanto duravam suas recordações. Era eu que alertava para a fome, para a sede, para o frio. Comíamos e bebíamos da despensa do navio. Havia ainda demais reservas.
Farida podia ficar aqui por tempos e tempos. E parecia era esse o desejo dela. E as estórias se seguiam, se repetiam, trocavam e multiplicavam.
- Me estás a ouvir, Kindzu?
Na realidade, eu já desistira de escutar. Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Entendia o que me unia àquela mulher: nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa do pastor Afonso, de Virgínia, de Surendra.
E sobretudo, culpa nossa. Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar um outro continente dentro de África. Mas uma diferença nos marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava. Não seria nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doença da baleia que morre na praia, com olhos postos no mar.
Certa vez ela se chegou grave. Colocou suas mãos nas minhas e deixou um silêncio pousar. Depois, me pediu:
- Quando saíres daqui quero que vás procurar meu filho. Hei-de levar Gaspar comigo.
- Não posso, Farida. Vou sair daqui e procurar os naparamas.
- Tu nunca vais encontrar esses teus naparamas. Esquece isso.
- Não posso.
- Não vês que essa gente também é filha da guerra? Quando vencerem ficam iguais aos outros. Vão querer dividir as vantagens com os outros.
- Cala-te, tu não sabes nada sobre esta guerra. Tu queres fugir, não tens nenhum direito de falar.
Farida se ofende. No resto do dia ela me evita. Eu também me afastei. Aquela mulher tinha maltratado a minha maior aspiração. Eu precisava acreditar que existia uma causa nobre, uma razão pela qual valia a pena me entregar. Farida não tinha o direito de manchar aquela crença. Ao fim de um tempo, porém, reconsiderei: procurando uns naparamas bem podia procurar também o tal Gaspar.
Não valia a pena acender briga naquele tão pequeno espaço. Me cheguei a Farida e perguntei como se não tivesse nenhum empenho:
- Como posso encontrar teu filho?

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