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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 26]


Finalmente, ela desemudecia. Falou mas ocultando a razão da sua presença.
- Diz, minha filha.
- Irmã, peço: me conte estórias!
A freira se surpreendeu. A visitante lhe explicou: queria saber notícias do mundo, ouvir as cores desse longe em que seus sonhos teimavam. Pouco importava que fossem ou não verdade. A freira, então, se demorou em desfiadas estorinhas, como se adivinhasse sua carência de fantasia. Quando se calou, o sol se inclinava na varanda da tarde. A terra sofria a inundação do poente, os campos se cultivavam de poeira-laranja. Lúcia perdera a força de mais encantarias, sua voz se desbotava vencida pela força das coisas reais, o adverso presente.
- Lá onde vens também há guerra?
Farida acenou a cabeça, confirmando. O sentimento da guerra a fazia calar. A noite, de repente, se espalhou em toda a parte. Finalmente, a visitante foi capaz de anunciar suas intenções. Queria reaver seu menino, renascer como mãe. A freira lhe olhou longamente, com doçura.
- Teu filho é Gaspar, não é?


Ela adivinhara e, por momento, Farida teve medo que se opusesse. Perguntou apenas se ela tinha condição para tratar da criança. Respondeu que não mas que também não podia esperar essa condição. A Irmã abanou a cabeça em concordância. Então, a religiosa falou sobre demoradas tristezas de Gaspar, no sempre afundado entre os magros ombros. Não podia haver criança exercendo, neste mundo, tamanha desolação. Nunca em sua face foi visto rabisco de sorriso. Apenas de noite, enquanto dormia, o menino gargalhava. Eram risos que faziam gelar quem quer que escutasse. A Irmã era a única que, nesses momentos, se chegava ao seu leito. Ficava na cabeceira, aguardando que ele recuperasse o sossego.
Farida inspirou para fundo de si. As palavras da freira lhe faziam crescer antigos remorsos. Lhe vieram as dores da noite em que Romão lhe tomou pelo abuso, seus nervos se raspavam na memória.
- Não sei se o teu filho vai aceitar este encontro. Há muitos que não querem nunca mais ver seus pais. Precisamos saber o que ele pensa. Espera, vou chamar Gaspar.
Farida se assustou. Pediu à Irmã que não fizesse, ela não estava preparada para encarar seu menino. Se levantou, tonteando em círculos. Lúcia lhe segurou as mãos, trazendo-lhe sossego.
- Deixa, eu falo com ele. Marquemos para amanhã, espera-nos junto da ponte.
Farida se preparou para esse encontro como se fosse um noivado. Se vestiu com cuidados, penteou-se com mil esmeros. Esperou com coração de passarinho. Passou a hora, seu filho não compareceu. Contudo, uma estranha sensação ia tomando seu espírito desde que chegara. Lhe parecia que, do outro lado da ponte, um vulto espreitava, entrecoberto por trás de uns arbustos.
- Gaspar?
Queria ter chamado: filho. Mas não lhe saiu. Não tinha acesso a essa palavra. As folhas do arbusto se imobilizaram. Farida se convenceu que era ilusão, não havia ninguém espreitando. Era já escuro, ela se retirava quando deparou com a Irmã.
- Gaspar fugiu da Missão, disse Lúcia.
Nunca mais soube dele. Passaram anos mas, para ela, seu filho permanece pequenito, fugindo em desampares pelo mato e requerendo parte de si que nunca nasceu. Por motivo dessa criança, ela só chorava lágrimas de leite. Desciam brancas na pele escura e quando as tocava, em seus dedos se arredondavam como pequeninos sóis brilhantes.
Mesmo agora, me contando tudo isso, Farida lutava com as lágrimas. Estava no fim de seu relato, sua voz estava mais firme.
- Continua, pedi.
Desde então ela queria cumprir um sonho antigo: sair dali, viajar para uma terra que ficasse longe de todos os lugares. Quando soube de que um navio naufragara ela se juntou ao grupo de pescadores que se dirigia para o lugar do acidente. Os pescadores assaltaram o mais que puderam, encheram a transbordar os seus barquitos. E, no fim, lhe disseram:
- Já não te vamos levar. Não há lugar para ti.
Eles tinham trocado pessoa por coisa. Porém, Farida não sentiu mágoa. Estranhamente se sentiu aliviada, aquilo era uma prenda do destino. Primeiro: em terra ela já não tinha nenhum lugar. Segundo: depois desse primeiro grupo de pescadores mais ninguém conseguiu abordar o navio náufrago. A toda volta do banco de areia se levantaram ondas que persistiam como guardiãs da solidão do navio. Estar ali era para Farida como uma estação de aguardo para uma outra vida. De uma coisa ela tinha certeza: os donos do navio viriam buscar suas propriedades. Um navio daquele tamanho, maior que uma povoação, não podia ser deixado assim. Os devidos proprietários viriam buscar-lhe e a encontrariam ali, pronta para toda a viagem.
Farida se interrompeu, em brusco silêncio. Se ergueu e chegou junto à amurada do barco. Ficou olhando o mar, calada. Entendi que me devia juntar a ela. Na realidade, me queria mostrar qualquer coisa. Apontou no escuro e disse:
- Vês aquelas sombras lá? É uma pequenita ilha. Nessa ilhinha está um farol. Já não trabalha, se cansou. Quando esse farol voltar a iluminar a noite, os donos deste barco vão poder encontrar o caminho de volta. A luz desse farol é a minha esperança, apagando e acendendo tal igual a minha vontade de viver.

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