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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 27]


Fingi ver a ilha. À minha frente só se abria os escuros panos da noite. Mas Farida punha tanta verdade em sua esperança que eu não ousei contrariar. O que ela falou, a terminar, vou pôr em suas exactas palavras. Não posso transcrever seu rosto, disposto em pétalas de luz, conforme a sinceridade da lua. Assim falou Farida:
- Esta é a minha estória, nem sei por que te conto. Agora, estou cansada de falar. É perigoso continuar. Quem sabe eu perderei o pensamento, as minhas lembranças se misturarão com as tuas. Pensas que estou delirando? Escuta, Kindzu: sabes quem te guiou até aqui? Não acreditas nos xipocos? Pois eu sou da família dos xipocos. Me ensinaram a apagar essa parte de mim, crenças que alimentaram nossas antigas raças. Agora, não é que acredite neles, nos espíritos. Sei que sou um deles, um espírito que vagueia em desordem por não saber a exacta fronteira que nos separa de vocês, os viventes. Nós somos sombras no teu mundo, tu jamais nos tinhas escutado. É porque vivemos do outro lado da terra, como o bicho que mora dentro do fruto. Tu estás do lado de fora da casca. Eu já te tinha visto desse outro lado, mas as tuas linhas eram de água, teu rosto era cacimbo. Fui eu que te trouxe, fui eu que te chamei. Quando queremos que vocês, os da luz, venham até nós, espetamos uma semente no tecto do mundo. Tu foste um que semeámos, nasceste da nossa vontade. Eu sabia que vinhas. Te esperava, Kindzu.        [fim do quarto capítulo]

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