Fingi ver a ilha. À minha frente só se abria os escuros panos da
noite. Mas Farida punha tanta verdade em sua esperança que eu não ousei contrariar.
O que ela falou, a terminar, vou pôr em suas exactas palavras. Não posso
transcrever seu rosto, disposto em pétalas de luz, conforme a sinceridade da
lua. Assim falou Farida:
- Esta é a minha estória, nem sei por que te conto. Agora, estou
cansada de falar. É perigoso continuar. Quem sabe eu perderei o pensamento, as
minhas lembranças se misturarão com as tuas. Pensas que estou delirando?
Escuta, Kindzu: sabes quem te guiou até aqui? Não acreditas nos xipocos? Pois
eu sou da família dos xipocos. Me ensinaram a apagar essa parte de mim, crenças
que alimentaram nossas antigas raças. Agora, não é que acredite neles, nos
espíritos. Sei que sou um deles, um espírito que vagueia em desordem por não
saber a exacta fronteira que nos separa de vocês, os viventes. Nós somos
sombras no teu mundo, tu jamais nos tinhas escutado. É porque vivemos do outro
lado da terra, como o bicho que mora dentro do fruto. Tu estás do lado de fora
da casca. Eu já te tinha visto desse outro lado, mas as tuas linhas eram de
água, teu rosto era cacimbo. Fui eu que te trouxe, fui eu que te chamei. Quando
queremos que vocês, os da luz, venham até nós, espetamos uma semente no tecto
do mundo. Tu foste um que semeámos, nasceste da nossa vontade. Eu sabia que
vinhas. Te esperava, Kindzu. [fim do quarto capítulo]
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