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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 25]


Sorriu, decidida a devolver a moldura à parede. Aquela era obra de Virginha, pondo vida em seu retrato. Quantas vezes não o teria ela pousado sobre o leito, discorrendo mentiras sobre a permanência da adoptiva na velha casa?
Era meia-noite e Virgínia não tinha regressado. Farida se afogou na cama, cansada. Não deu interesse a um ruído da porta. Nem despertou para aquela voz que a puxava, aqueles modos que ela inesquecera. Era Romão que rondava seu leito.
Os passos dele cercavam-lhe o medo, enquanto ia esquentando suas brasas. Em silêncio, rezou com desespero. Colocou tanta fé nesse socorro que perdeu o receio do que pudesse suceder. Romão se sentou na cama, seus braços procuraram no escuro. Quando seus dedos roçaram o rosto da menina ele sentiu o molhado de caladas lágrimas. Essa tristeza ainda mais lhe afiou os apetites. Foi envolvendo Farida, cada avanço dele a doidoendo. Joelhos no peito, ela se pequeninava. Lá fora, a meiguice da lua não fazia suspeitar quanto ódio fermentava naquele quarto. Os anjos demoravam, Romão ganhava vantagem. Na aflição ela se perguntava: e afinal Deus? Por que se demora tanto?

Desistiu de esperar e se ergueu de um salto, escapulada, tirando o corpo do alcance das babas do Romão. Surpreso, o português trancou a voz nos dentes, soprando ameaças. Memórias antigas da raça lhe avisaram: melhor seria ela se deixar, sem menção nem intenção. O português se homenzarrou, abusando dela toda inteira. Transpirava imensos suores. Romão surgia cada vez mais peganhento, colajoso como um sapo. Aquele suor lhe surgiu como se fosse a prova: aquele homem era um estrangeiro, retirado do seu mundo. Na sua terra ele pouparia suores ao fazer amor. Mas ele estava deslocado como um sapo longe do seu charco. E como um sapo adormeceu em seus braços, roncando. Empurrou o peso daquele corpo como quem afasta uma culpa.
Amanhecia quando arrumou o saco e saiu por esse cacimbo que molha tanto como a chuva menininha. Chorou, chorou. Queria atar a tristeza com o fio de suas lágrimas. Chamou todo o ódio contra aquele homem que a violara. Mas o ódio não veio. A culpa era só dela, transitando entre esses mundos, num vira-revira. Ela devia, enfim, retornar ao seu lugar de origem, a ver se o tempo ainda tinha jeito para lhe embalar. Mas ela, no fundo, sabia que não havia de reencontrar o mundo onde nascera. Tia Euzinha, quando a viu chegar, traduziu esse receio:
- Não devias ter voltado, filha.
Que a gente da aldeia não haveria de a querer ali, ida e voltada, outrora menina da terra, hoje mulher de visita. Se saíra, cortara os laços, não devia mostrar o golpe da partida. Porque nela lhes doía o terem ficado. A formiga incomoda é dentro das roupagens.
Nos meses que ali permaneceu uma terrível certeza lhe foi chegando: ela se barrigava, um filho nela se aninhava. Esse menino viria a nascer sem a devida cor: seria um mulato. Tia Euzinha lhe tinha avisado: não confesses a verdadeira raça dele, antes vale dizeres que ele é albino. Nascera assim porque, durante o ventre dela, fora atravessado por um relâmpago. Era essa a crença que explicava os albinos.
Mas tia, reclamou Farida, se eu apresentar o menino como albino vou criar mais um motivo para ser afastada. Euzinha bem sabia o preço dessa mentira. Ninguém mais poderia beber pelo seu copo, nenhuma mulher se deteria no caminho para lhe trocar os bons-dias. Nascida gémea primeiro, agora mãe de um albino: ela era a pior das leprosas, condenada para sempre à solidão.
- Mais vale tu sofreres que a criança, teimou Euzinha.
Esse menino nasceu sem que ela nascesse mãe. Em nenhum momento Farida notou alguma vontade de lhe dar cuidados. Foi à igreja e entregou a criança como se fosse uma encomenda de ninguém, um lapso da vida. Ficou lá, na Missão, nunca mais ela o viu. Com certeza, já faleceu. ou foi levado pelos bandos, tomado um matador de gente. Se queria ver o filho? Não sabia, lhe custava falar o assunto. Porque se era punida por sua lembrança só ganhava amargura com seu esquecimento. Não podia nomear esse filho dela, caso senão ele todo lhe vinha à boca, lhe estalavam os lábios para saírem suas porções. Essa criança está-me dentro, sobra-me. Assim dizia Farida. E acrescentava: Tenho-o dentro como um fruto abriga o caroço. Eu sou a povoa dele, estou nascendo dele, empurrada pelo seu corpo, amadurecendo até tombar na terra e ser comida pelos vermes. É assim que me sinto.
Agora, encostada nas cordas do velho barco aquela mulher desfiava dolorosas lembranças. Seu filho era o nó onde se enlaçavam todas as suas recuadas vivências. Houve um tempo que tentou regressar atrás, recuperar esse menino. Foi à Missão, era uma tarde bonita. Sentada na berma do poço estava uma freira branca. Chamava-se Lúcia, chegara há pouquinho tempo à Missão. Parecia capaz de bondades, atenta às alheias tristezas. Ela puxava um balde por uma corda, lhe doía o tanto peso. Farida se ofereceu para a ajudar. Lúcia ficou olhando em silêncio enquanto ela puxava. Recebeu a água e perguntou:
- És tão bonita! De onde vens?
Quis falar mas nenhuma palavra lhe aflorava a boca. Seu filho não lhe chegava, parecia um motivo cansado. Ser que ela realmente amava aquela criança?, se perguntava Farida. Se assim fosse não saberia mentir a si própria. Uma coisa a guerra faz acontecer: tudo se vai tornando verdade. Está-se pisando a fronteira, morte e vida nos trocáveis lados de um mesmo risco. Irmã Lúcia insistiu, inquirindo sobre o quê da visita de Farida.
- Venho falar, Irmã.         [continua]

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