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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 24]


Certa vez, Virginha levou a adoptiva para o quintal e ordenou que se sentassem na grande sombra da mangueira. Ela sempre mostrou temor pelas cobras que se agradam dos doces troncos da árvore. Naquele momento, parecia ter esquecido esse perigo. Lentamente, a velha desdobrou os tempos, contando episódios de sua vida. Demorou dias, em detalhes. A velha mirabolava?
- Por que me conta tudo isso, mamã Virgínia?
- Porque quero que me passes a escrever.
- Escrever?
Era. Farida deveria enviar-lhe cartas, falseando autorias, fingindo o longe. Foi o que passou a fazer, se entretendo a ser, de cada vez, um diferente familiar. Pôde imaginar quanta bondade estava criando. Virgínia lia as cartas com aquele soluço que é o tropeço do choro. Farida escutava em tal embalo que se desconhecia autora da missiva. Ou era a velha que inventava, refazendo a irrealidade do escrito? Romão Pinto chegava do bar do Ferroviário e via as duas, naquelas m s horas, inclinadas com doçura no colo uma de outra. Ele nada perguntava, passava espreitando, aproveitando para roçar as pernas da jovem. As mãos do português assentavam sobre os ombros de Farida, em escondida carícia. Virginha parecia nada ver, entretida com seus devaneios.


Mas a vida é a autoridade desordeira: a segunda mãe se apressava naquela doença sem retorno. A velha já nem se confiava, cada vez mais fiel às suas falsidades. Um dia lhe disse:
- Vou-te levar daqui, não podes ficar mais connosco.
- Levar para onde, mãe?
Farida tremia. Sem se perceber ela lhe estava chamando de mãe. Devia ser do medo que a invadia.
- Farida, escuta minha querida. A tua mãe... eu estou chegando ao fim de minhas forças. Tenho medo que, amanhã, já não mais possa cuidar de ti. É por isso que te vou levar daqui.
Aqueles olhos dela, planetários, a contemplavam sem pestanejo. Nessa mesma noite, ela lhe veio despertar. Tomou Farida pela mão com força, guiando-lhe pelo escuro do corredor. Tirou o vestido verde que aguardava para a viagem e se aprontou com decisão.
- Vamos!
Saíram, rumo à Missão. Foi o padre quem veio à porta, seu corpo cobrindo a luz que vinha do interior. Quando Virgínia entregou Farida ao padre a menina entendeu que a sua presença já havia sido previamente falada. Virgínia lhe deu as mãos, os dedos das duas se ameijoaram. Os corpos se despediam, sem competência para o adeus.
- Vou continuar a escrever-lhe, mamã.
- Não é preciso, filha. Já não preciso.
E afastou-se, suas costas mirrando no escuro. Naquele momento, começava a segunda orfandade de Farida.
Por um tempo ela ficou na Missão, num pequeno quarto cheio de sossego. Estudava, lendo o mais que podia. Se fantasiava, enchendo o tempo. Mas lhe faltava o acontecer da vida, a quentura do mundo onde nascera. Aquele lugar lhe deixava um frio interior. Afinal, todos queremos no peito o nó de um outro peito, o devolver da metade que perdemos ao nascer. Em cada noite, o corpo da jovem se amendoinhava, arredondando lentos suspiros. Foi assim que lhe nasceu a ideia de sair daquele lugar, sem nenhuma despedida. O padre era um homem de deixar, suas palavras não sendo de pregar nem o sim nem o não. O Bem nasce é de autorizadas manhas, costumava ele dizer. O sacerdote, certo dia, lhe chamou. Ele compreendera vontades que nela estavam caladas, sonhos que nunca lhe haviam aflorado.
- Queres sair da Missão, eu sei. Este lugar tem pouca vida para uma menina da tua idade.
Não valia a pena ela discordar de si mesma, pensar no certo ou no incerto dos seus actos. Farida que regressasse aos lugares de sua infância se esse era o seu desejo. O mundo não tem nenhuma utilidade, disse ele. E concluiu: a felicidade só cabe no vazio da mão fechada. A felicidade é uma coisa que os poderosos criaram para ilusão dos mais pobres.
No caminho para a aldeia, Farida passou por casa de Romão Pinto. Queria ver Virginha, tocar seu rosto bom, sarar uma saudade. Quem abriu a porta foi o português, com seus olhos de morder.
- Virgínia não está, foi à vila levar um doente.
Disse que a esposa voltaria nessa mesma noite. Farida que esperasse, se servisse de seu antigo quartinho de dormir. Entrou, relutante. Havia um perfume doce, vindo das goiabeiras do quintal. Contudo, naquele momento, só lhe chegavam azedas lembranças. Quem sabe fosse a ausência da Virginha que a amargava. Afinal, mesmo com o carinho de Virginha, aquela fora a casa onde ela não tivera lar.
A porta do quarto se fechou, deixando Farida só. No pente de metal, em cima da mesinha, havia ainda cabelos seus, caracoladinhos como crianças no ventre materno. Tardou em cada objecto, parecendo que as coisas que em tempos tocara, saudosas, lhe reconheciam agora. Na parede húmida estava ainda uma fotografia sua, em moldura de madeira. Aquela era sua única imagem. Por isso, lhe ocorreu levar a foto consigo. Quando a retirava viu que, no papel amarelecido, ela já não estava sozinha. Em redor do rosto dela estavam desenhadas figurinhas várias, tantas que pareciam mover-se e trocarem de posição. 

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