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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 23]


Mas elas prosseguiram, cobrindo a coitada com água fria. Até que se afastaram dançando e cantando, deixando a mãe no fundo da terra ensopada. Farida se aproximou, quis ajudá-la a sair. Mas ela recusou: devia ficar ali, matopar-se (topar-se de matope (lama, lodo)), pagar sua dívida com o mundo. Toda a noite, a filha permaneceu na cabeceira do buraco. E lhe cantou um embalo, fosse a mãe a pequenina, saída do ventre da jovem. Cansada, Farida adormeceu.
De madrugada, quando despertou, já a mãe ali não estava. Tinham-na levado, gelada de mais para se manter impura. O sangue de sua mãe, vertido em seu nascimento, já não sujava a aldeia. Nesse mesmo dia, tombaram grossas chuvas. As sementes e a esperança se tinham finalmente reconciliado.
Desde então, a infância de Farida ficou órfã. Ela cresceu, acarinhada por si mesma, na infinita espera de sua mãe. Acreditava que ela regressaria, envolta em seus tristes trapos. No sonho ela ascendia entre fumos, vinda do fundo de um buraco e trazendo nas mãos um pote igual aos que servem para enterrar os meninos. Os dedos dela eram raízes que, depois, se convertiam em cobras feitas de fogo. Essas chamas andantes se anichavam na filha e lhe queimavam o peito. Essa crença a manteve, sobreviveu graças a essa ilusão.


Nunca mais ninguém desejou notícia de Farida, ela ingressara no obscuro mundo dos sobreviventes. Mais tarde, porém, a recordaram de novo: precisavam de uma gémea para os rituais da chuva. Mandaram-lhe chamar e disseram que colhesse os nunos, esses insectos negros que abundam nas machambas. Ela que trouxesse todos os que encontrasse nos campos cultivados. Demorou uma manhã catando as folhas. Meteu todos aqueles bichinhos num velho pano e se dirigiu à lagoa. Atrás vinham as mulheres, cantando e balançando o corpo untado de ervas. Deitou os nunos na água e viu como se afogavam, as patas estremexendo dentro da água. Até o último desaparecer, ela estava proibida de virar a cabeça. Enquanto isso, as mulheres entoavam canções vergonhosas. Pronunciavam palavras que não se ouve nunca de nenhuma mulher.
Quando todas as velhas se retiraram ela já tinha tomado a decisão de partir. Aquele lugar já estava cansado dela. Se lançou na estrada, sem nada senão as roupas. Andou, andou, andou. Passou-se uma noite, uma manhã. O sol perpendiculava-se quando lhe veio uma tontura e abandonou todos sentidos. Desmaiou.
Despertou numa casa de cimento, deitada em colchão de espuma. Lhe tinham levado para a residência de um casal de portugueses. Romão Pinto, dono das muitas terras e Dona Virginia, sua esposa, trataram dela durante anos. Lhe ensinaram a escrever e falar, lhe corrigiram as maneiras que trazia da terra. Virigínia, assim lhe chamavam, era generosa como já não há. Foi ela que teimou em lhe adoptar como se fosse sua filha. Muitas vezes Farida sentiu desejo de a tratar por mãe. Mas ela não aceitou. Tua mãe não haveria de gostar, dizia ela. Suas mãos trançavam os cabelos de Farida e a cabeça dela adormecia longe de si, longe do mundo. Cresceu nessa sombra, ali lhe despontaram os seios, ali se tornou mulher. Foi nessa casa que, pela primeira vez, sentiu os olhos de um homem salivando. Romão Pinto lhe perseguia, suas mãos não paravam de lhe procurar. Às vezes, de noite, espreitava pela janela enquanto ela tomava banho. Farida estava cercada, indefesa. Não podia queixar a Dona Virgínia, menos podia enfrentar as tentativas de Romão.
O desejo dele crescia por toda a casa, como uma viscosa humidade. Ela o sentia com uma mistura de nojo e receio. Teria odiado aquela casa não fosse a velha a ter tratado como uma mãe, fazendo nascer a outra raça que agora nela existia. Virgínia, Virginha, Virgininha: quem era? Dela o quanto se sabia era pouco. Cabia em mão fechada, sobrando entre os dedos aquilo que mais queríamos agarrar. Vivia vagarosa como uma lágrima. Romão aguardava em estado de matéria, com garantia de que ela existisse simples de lembrar.
- Estás proibida!
O marido lhe gritava com insistência as interdições: ler, ouvir rádio, cantar. Tudo porque ela insistia no desejo de regressar a Portugal. Era a sua única vontade, o breve círculo do seu sonhar.
- Mas, mamã Vírgínia: por que não gosta desta terra?
- E quem te disse que não gosto?
Era por razão desse amor que ela queria partir. Porque a visão daquela terra, em tais desmandados maus tratos, era um espinho de sangrar seus todos corações. E suspirava, em imperfeita certeza: quanto tempo demora o tempo! Depois, dedo cruzando os lábios em ordem de segredo, conduzia Farida pelo corredor. Queria que a menina contemplasse o vestido verde, pendurado, pronto, sem nenhuma ruga.
- É para a viagem!
E sorria, alegre desse mais tarde, consoante o sonhado. Ficava na janela olhando o país que inexistia, desenhado em geografia da saudade. Tanto esmolou a Deus um outro lugar que ela se foi fazendo remota e, aos poucos, Farida receou que sua nova mãe nunca mais se acertasse. Sobre velhas fotografias, com um l pis, a velha portuguesa desenhava outras imagens. Às vezes, recortava-as com uma tesourinha e colava as figuras de umas fotos nas outras. Era como se movesse o passado dentro do presente:
- Olha vês? Este é meu tio. Foi quando ele veio cá visitar-nos.
Um tal parente jamais estivera em África. Mas Farida nem ousava desmentir. As fotos recompostas traziam novas verdades a uma vida feita de mentiras.

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