Mas elas prosseguiram, cobrindo a coitada com água fria. Até que
se afastaram dançando e cantando, deixando a mãe no fundo da terra ensopada.
Farida se aproximou, quis ajudá-la a sair. Mas ela recusou: devia ficar ali,
matopar-se (topar-se de matope (lama, lodo)), pagar sua dívida com o
mundo. Toda a noite, a filha permaneceu na cabeceira do buraco. E lhe cantou um
embalo, fosse a mãe a pequenina, saída do ventre da jovem. Cansada, Farida
adormeceu.
De madrugada, quando despertou, já a mãe ali não estava. Tinham-na
levado, gelada de mais para se manter impura. O sangue de sua mãe, vertido em
seu nascimento, já não sujava a aldeia. Nesse mesmo dia, tombaram grossas
chuvas. As sementes e a esperança se tinham finalmente reconciliado.
Desde então, a infância de Farida ficou órfã. Ela cresceu,
acarinhada por si mesma, na infinita espera de sua mãe. Acreditava que ela
regressaria, envolta em seus tristes trapos. No sonho ela ascendia entre fumos,
vinda do fundo de um buraco e trazendo nas mãos um pote igual aos que servem
para enterrar os meninos. Os dedos dela eram raízes que, depois, se convertiam
em cobras feitas de fogo. Essas chamas andantes se anichavam na filha e lhe
queimavam o peito. Essa crença a manteve, sobreviveu graças a essa ilusão.
Nunca mais ninguém desejou notícia de Farida, ela ingressara no
obscuro mundo dos sobreviventes. Mais tarde, porém, a recordaram de novo:
precisavam de uma gémea para os rituais da chuva. Mandaram-lhe chamar e
disseram que colhesse os nunos, esses insectos negros que abundam nas
machambas. Ela que trouxesse todos os que encontrasse nos campos cultivados.
Demorou uma manhã catando as folhas. Meteu todos aqueles bichinhos num velho
pano e se dirigiu à lagoa. Atrás vinham as mulheres, cantando e balançando o
corpo untado de ervas. Deitou os nunos na água e viu como se afogavam, as patas
estremexendo dentro da água. Até o último desaparecer, ela estava proibida de
virar a cabeça. Enquanto isso, as mulheres entoavam canções vergonhosas.
Pronunciavam palavras que não se ouve nunca de nenhuma mulher.
Quando todas as velhas se retiraram ela já tinha tomado a decisão
de partir. Aquele lugar já estava cansado dela. Se lançou na estrada, sem nada
senão as roupas. Andou, andou, andou. Passou-se uma noite, uma manhã. O sol
perpendiculava-se quando lhe veio uma tontura e abandonou todos sentidos.
Desmaiou.
Despertou numa casa de cimento, deitada em colchão de espuma. Lhe
tinham levado para a residência de um casal de portugueses. Romão Pinto, dono
das muitas terras e Dona Virginia, sua esposa, trataram dela durante anos. Lhe
ensinaram a escrever e falar, lhe corrigiram as maneiras que trazia da terra.
Virigínia, assim lhe chamavam, era generosa como já não há. Foi ela que teimou
em lhe adoptar como se fosse sua filha. Muitas vezes Farida sentiu desejo de a
tratar por mãe. Mas ela não aceitou. Tua mãe não haveria de gostar, dizia ela.
Suas mãos trançavam os cabelos de Farida e a cabeça dela adormecia longe de si,
longe do mundo. Cresceu nessa sombra, ali lhe despontaram os seios, ali se
tornou mulher. Foi nessa casa que, pela primeira vez, sentiu os olhos de um
homem salivando. Romão Pinto lhe perseguia, suas mãos não paravam de lhe
procurar. Às vezes, de noite, espreitava pela janela enquanto ela tomava banho.
Farida estava cercada, indefesa. Não podia queixar a Dona Virgínia, menos podia
enfrentar as tentativas de Romão.
O desejo dele crescia por toda a casa, como uma viscosa humidade.
Ela o sentia com uma mistura de nojo e receio. Teria odiado aquela casa não
fosse a velha a ter tratado como uma mãe, fazendo nascer a outra raça que agora
nela existia. Virgínia, Virginha, Virgininha: quem era? Dela o quanto se sabia
era pouco. Cabia em mão fechada, sobrando entre os dedos aquilo que mais
queríamos agarrar. Vivia vagarosa como uma lágrima. Romão aguardava em estado
de matéria, com garantia de que ela existisse simples de lembrar.
- Estás proibida!
O marido lhe gritava com insistência as interdições: ler, ouvir
rádio, cantar. Tudo porque ela insistia no desejo de regressar a Portugal. Era
a sua única vontade, o breve círculo do seu sonhar.
- Mas, mamã Vírgínia: por que não gosta desta terra?
- E quem te disse que não gosto?
Era por razão desse amor que ela queria partir. Porque a visão
daquela terra, em tais desmandados maus tratos, era um espinho de sangrar seus
todos corações. E suspirava, em imperfeita certeza: quanto tempo demora o
tempo! Depois, dedo cruzando os lábios em ordem de segredo, conduzia Farida
pelo corredor. Queria que a menina contemplasse o vestido verde, pendurado,
pronto, sem nenhuma ruga.
- É para a viagem!
E sorria, alegre desse mais tarde, consoante o sonhado. Ficava na
janela olhando o país que inexistia, desenhado em geografia da saudade. Tanto
esmolou a Deus um outro lugar que ela se foi fazendo remota e, aos poucos,
Farida receou que sua nova mãe nunca mais se acertasse. Sobre velhas
fotografias, com um l pis, a velha portuguesa desenhava outras imagens. Às
vezes, recortava-as com uma tesourinha e colava as figuras de umas fotos nas
outras. Era como se movesse o passado dentro do presente:
- Olha vês? Este é meu tio. Foi quando ele veio cá visitar-nos.
Um tal parente jamais estivera em África. Mas Farida nem ousava
desmentir. As fotos recompostas traziam novas verdades a uma vida feita de
mentiras.
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