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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 22]


Quarto caderno de Kindzu  -  A filha do céu
Me chamo Farida, começou a mulher o seu relato. Falava com voz baixa, em rouquidão que vinha da timidez. Conservei-me afastado, de olhos no chão. Durante a sua longa fala me calei como uma sombra para lhe dar coragem. A mulher se trocou por palavra até quase ser manhã.
Farida era filha do Céu, estava condenada a não podei nunca olhar o arco-íris. Não lhe apresentaram à lua como fazem com todos os nascidos da sua terra. Cumpria um castigo ditado pelos milénios: era filha-gémea, tinha nascido de uma morte. Na crença da sua gente, nascimento de gémeos é sinal de grande desgraça. No dia seguinte a ela ter nascido, foi declarado chimussi: a todos estava interdito lavrar o chão. Caso uma enxada, nesse tempo, ferisse a terra, as chuvas deixariam de cair para sempre.
Dias depois, sua Irmã morreu. Deixaram-na morrer com fome. Fizeram isso por bondade: para aliviar a maldição. Enterraram a menina no pequeno bosque sagrado onde dormem as crianças falecidas. Meteram-lhe numa panela de barro quebrada. Foi semeada sem quase nenhuma terra lhe cobrir. Destinaram-lhe um lugar perto do rio, onde o chão nunca seca. Assim as nuvens lembrar-se-iam sempre da obrigação de molhar a terra.


A mãe de Farida nunca mais teve filhos. Dizem que ela não foi capaz de apagar a sua impureza após o nascimento. Fizeram as cerimónias: não resultou. Queimaram a palhota, juntaram todas suas coisas numa grande fogueira. A mãe ficou ali, sofrendo culpas por ter subido ao Céu, único lugar onde se pode encontrar meninos gémeos. Chorou então o que ela não pôde chorar no enterro da filha. A tradição ordena: ninguém chore em luto, o lamento não pode senão chamar mais desgraça. Para Farida, a morte da gémea não foi nunca mencionada: tua Irmã?
Foi na casa da avó, ficou lá viver. Assim se murmurava.
Depois das cerimónias, mandaram que a mãe saísse da aldeia. Junto com a filha foram morar num mato próximo, de verdes desleixados. Ali viveram sem nunca receber visitas: vinham os da família mas ficavam longe, escondidos. Receavam o contágio. Gritavam dali suas mensagens. A única que lhes trazia comida era tia Euzinha, mulher larga, de muito assento. Ela conversava com elas, trazia notícias dos outros. Também Euzinha conhecia os modos de estar só, seu marido partira para a guerra, moribundando em parte incerta. Certo dia ela trançava os cabelos da sobrinha, seus dedos contando estórias de embalar, quando sua voz despertou a menina:
- Sua Irmã, sabe ela está onde?
- Minha Irmã morreu, tia.
- Mentira! Sua Irmã está muito viva, a morte nem lhe arranhou.
Foram suas palavras. Farida sentiu lágrimas nascerem dentro de si mas fechou-lhes caminho com um sorriso. A tia dizia coisas sem pés na cabeça.
- Onde está seu fio, o colar que foste dada?
Mostrou o fio. Ela segurou-o por um tempo, apertou a pequena estátua que estava pendurada nele. Perguntou se a sobrinha sabia o que era aquela figurinha de madeira. Farida não sabia, aquele colar lhe tinha sido posto enquanto a memória não lhe tinha chegado aos olhos.
- Essa madeirinha, essa estátua é sua Irmã. Não vê está partida ao meio, é só uma metade? A outra metade quem tem é sua Irmã, num colar igual desse.
Afinal, a mãe tinha recusado cumprir a inteira tradição. Matara a Irmã-gémea só em fingimento. Na verdade, entregaram a criança a um viajante que sofria por não receber filhos de sua legítima criação. Depois, mais não se soube dela. Teria um outro nome, outro corpo, outro cheiro. Ou ser que ela ainda vivia? E, se assim fosse, onde ela procedia sua vivência?
Desde essa revelação os sonhos de Farida se encheram de gritos, suores fundos. Lhe apareciam raízes quebrando o pote de barro onde sobrava sua pequena Irmã. Pesadelos que duraram enquanto ali viveram.
O lugarzinho, no enquanto, foi sendo alvo de desgraças. A terra caiu em desordem, sopraram ventos que arderam no sol, secaram fontes e lagos.
As nuvens, medrosas, fugiram. A fome e a morte instalaram residência. Tudo aquilo acontecia, dizem, por causa da mãe não se ter purificado. De noite, ouviam as cerimónias. Pedia-se aos antepassados o favor de alguma chuvinha. O escuro se enchia de tambores, moendo a tristeza como um pilão.
Como as chuvas demorassem, vieram buscar a mãe. No quintal dela entraram mulheres meio-nuas, essas que costumavam limpar os poços. Precisavam de uma mãe de gémeos para as cerimónias mágicas. Mandaram que ela mostrasse o túmulo de sua filha. Farida acompanhou o grupo que, em fila, foi até à margem do rio. Quando chegaram à campa, as mulheres verteram água sobre o pote fúnebre. Dançaram, xiculunguelando (Xiculunguelar: ulular feito pelas mulheres em momentos de alegria.). Depois, meteram a velha num buraco e foram-no enchendo de água. Ela pedia: me deixem, tenho frio.
Mas as mulheres não abrandavam. A mãe de Farida visitara o Céu e se ela estivesse molhada, certamente as nuvens também se encharcariam. As chuvas viriam, por fim.
- Parem, ela está sofrer, gritou Farida. 

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