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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 21]


E os dois prisioneiros se entretêm a fabricar um tabaco, feito de folha que o velho deixara cair. Fumam com o gosto de serem eles mesmos o incenso, fumam como se em seus dedos esfumasse o tempo, como se não houvesse rede os aprisionando. Tuahir adivinhou a cabeça do rapaz:
- Acreditaste em mim? Fizeste bem. Te dou um conselho: não confies em homem que não sabe mentir.
Foi então que, entre o lusco e o fusco, vêem chegar a hiena. Ao princípio, parece é nada, só um arrepio no capim, um suspiro do verde-escuro. Vai surgindo inteira, balançando as patas traseiras. Depois, se senta, sozinhando, espreitando o mundo de cá.
Sentem um aperto. Que vinha ali fazer aquele bicho sem aprumo, despromovido das traseiras? Trazer má sorte ao destino dos viventes, só podia ser esse o serviço desse animal. A hiena permanece parada, em vistoria dos cheiros. Depois, se encosta na própria sombra e, assim deitada, lambe os beiços. Faz medo ver-lhe à maneira de doméstica, nem besta se parecia. Os bichos temem o homem, desvizinham-se dele. Mas este, no entanto, deita no lugar exclusivo de gente. O velho, entretanto, desperta. Vendo o espanto dos outros, esclarece a hiena: o bicho sentinelava sua vida. Ninguém me aproxima, sorri o velho enquanto acaricia a hiena que se enrosca, regalada. Aquele era o seu exército privado, segurança e guarda-corpo. Tuahir avisa, em segredo:


- Não confia, miúdo. Aquilo nem hiena não é.
A noite vai descendo. O frio aperta enquanto se alarga um silêncio do tamanho da terra. Muidinga se queixa. Lhe dói o corpo da posição que a rede lhe obrigava, dobrado pelo umbigo. A dor, afinal, é uma janela por onde a morte nos espreita. Sucumbente, se encosta a Tuahir a buscar um quentinho. Mas o sono não lhe chega. Por um buraco da rede Muidinga consegue retirar um braço. Apanha um pau e escreve no chão.
- Que desenhos são esses?, pergunta Siqueleto.
- É o teu nome, responde Tuahir.
- Esse é o meu nome?
O velho desdentado se levanta e roda em volta da palavra. Está arregalado. Joelha-se, limpa em volta dos rabiscos. Ficou ali por tempos, gatinhoso, sorrindo para o chão com sua boca desprovida de brancos. Depois, com voz descolorida trauteia uma canção. Parece rezar. Com aquela cantoria Muidinga acaba por adormecer. Não faz ideia quanto tempo dorme. Porque desperta em sobressalto: o brilho de uma lâmina relampeja frente a seus olhos. O velho Siqueleto armaneja uma faca.
- Andam comigo!
Solta Tuahir e Muidinga das redes. São conduzidos pelo mato, para lá do longe. Então, frente a uma grande árvore, Siqueleto ordena algo que o jovem não entende.
- Está mandar que escrevas o nome dele.
Passa-lhe o punhal. No tronco Muidinga grava letra por letra o nome do velho. Ele queria aquela árvore para parteira de outros Siqueletos, em fecundação de si. Embevecido, o velho passava os dedos pela casca da árvore. E ele diz:
- Agora podem-se ir embora. A aldeia vai continuar, já meu nome está no sangue da árvore.
Então ele mete o dedo no ouvido, vai enfiando mais e mais fundo até que sentem o surdo som de qualquer coisa se estourando. O velho tira o dedo e um jorro de sangue repuxa da orelha. Ele se vai definhando, até se tornar do tamanho de uma semente.

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