E os dois prisioneiros se entretêm a fabricar um tabaco, feito de
folha que o velho deixara cair. Fumam com o gosto de serem eles mesmos o
incenso, fumam como se em seus dedos esfumasse o tempo, como se não houvesse
rede os aprisionando. Tuahir adivinhou a cabeça do rapaz:
- Acreditaste em mim? Fizeste bem. Te dou um conselho: não confies
em homem que não sabe mentir.
Foi então que, entre o lusco e o fusco, vêem chegar a hiena. Ao
princípio, parece é nada, só um arrepio no capim, um suspiro do verde-escuro.
Vai surgindo inteira, balançando as patas traseiras. Depois, se senta,
sozinhando, espreitando o mundo de cá.
Sentem um aperto. Que vinha ali fazer aquele bicho sem aprumo,
despromovido das traseiras? Trazer má sorte ao destino dos viventes, só podia
ser esse o serviço desse animal. A hiena permanece parada, em vistoria dos
cheiros. Depois, se encosta na própria sombra e, assim deitada, lambe os
beiços. Faz medo ver-lhe à maneira de doméstica, nem besta se parecia. Os
bichos temem o homem, desvizinham-se dele. Mas este, no entanto, deita no lugar
exclusivo de gente. O velho, entretanto, desperta. Vendo o espanto dos outros,
esclarece a hiena: o bicho sentinelava sua vida. Ninguém me aproxima, sorri o
velho enquanto acaricia a hiena que se enrosca, regalada. Aquele era o seu
exército privado, segurança e guarda-corpo. Tuahir avisa, em segredo:
- Não confia, miúdo. Aquilo nem hiena não é.
A noite vai descendo. O frio aperta enquanto se alarga um silêncio
do tamanho da terra. Muidinga se queixa. Lhe dói o corpo da posição que a rede
lhe obrigava, dobrado pelo umbigo. A dor, afinal, é uma janela por onde a morte
nos espreita. Sucumbente, se encosta a Tuahir a buscar um quentinho. Mas o sono
não lhe chega. Por um buraco da rede Muidinga consegue retirar um braço. Apanha
um pau e escreve no chão.
- Que desenhos são esses?, pergunta Siqueleto.
- É o teu nome, responde Tuahir.
- Esse é o meu nome?
O velho desdentado se levanta e roda em volta da palavra. Está
arregalado. Joelha-se, limpa em volta dos rabiscos. Ficou ali por tempos,
gatinhoso, sorrindo para o chão com sua boca desprovida de brancos. Depois, com
voz descolorida trauteia uma canção. Parece rezar. Com aquela cantoria Muidinga
acaba por adormecer. Não faz ideia quanto tempo dorme. Porque desperta em
sobressalto: o brilho de uma lâmina relampeja frente a seus olhos. O velho
Siqueleto armaneja uma faca.
- Andam comigo!
Solta Tuahir e Muidinga das redes. São conduzidos pelo mato, para
lá do longe. Então, frente a uma grande árvore, Siqueleto ordena algo que o
jovem não entende.
- Está mandar que escrevas o nome dele.
Passa-lhe o punhal. No tronco Muidinga grava letra por letra o
nome do velho. Ele queria aquela árvore para parteira de outros Siqueletos, em
fecundação de si. Embevecido, o velho passava os dedos pela casca da árvore. E
ele diz:
- Agora podem-se ir embora. A aldeia vai continuar, já meu nome
está no sangue da árvore.
Então ele mete o dedo no ouvido, vai enfiando mais e mais fundo
até que sentem o surdo som de qualquer coisa se estourando. O velho tira o dedo
e um jorro de sangue repuxa da orelha. Ele se vai definhando, até se tornar do
tamanho de uma semente.
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