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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 20]


- Ele diz que nos vai semear.
- Semear?
- Não sabe o que é semear? É isso que nos vai fazer. Ele quer companhia, quer que nasça mais gente.
- O velho é doido, vai é matar a gente.

Tuahir então combina com o moço: se fingiriam doentes, estragados. Gemem, lançam feios cuspes e vómitos. Mas o velho nem se impressiona. Vai buscar uma lata, abana-a, tirando dela agudas estridências.
- Meu nome é Siqueleto.
Depois ele se apresenta com sua estória. Enquanto fala vai sacudindo a lata como se acompanhasse uma canção. Daquele lugar todos se tinham ido embora, por motivo do terror. Os bandos assaltaram, mataram, queimaram. A aldeia foi ficando deserta, todos partiram, um após nenhum. A família lhe chamava o pensamento: venha connosco, já toda a gente foi embora!
Assim lhe rogavam na hora da partida. Ele respondia:
- Eu sou como a árvore, morro só de mentira.
E agora perante os dois inesperados visitantes ele repete as suas parecenças com as árvores que renascem cada ano. Tuahir acompanha com dificuldade, a ausência de dentes deforma as palavras do solitário aldeão.


- Sou velho, já assisti muita desgraça. Mas igual como essa nunca eu vi. E abana a cabeça, pesaroso.
- Estás triste, velho?, pergunta-lhe Tuahir.
- Já não fico triste, só cansado.
Era por causa do cansaço que ele não abria os dois olhos de uma só vez. O idoso homem tinha, apesar de tudo, seus pensamentos futuros. Para ele só havia uma maneira de ganhar aquela guerra: era ficar vivo, teimando no mesmo lugar. Não desejava nenhuma felicidade, nem sequer se deliciar com doces lembranças. Lhe bastava sobreviver, restar como um guarda daquela aldeia em ruínas. Agora ele amaldiçoa os que tinham saído dali.
- Satanhocos, hão-de comer poeira!
Fala com raiva, todo levantado. Depois, se zanga com os visitantes. Pontapina nas redes, insultando-os: vocês são fugistas, vosso mal está nos dentes. São os dentes que convidam a fome. É por isso eu tirei toda a dentaria. Estão aqui, nesta lata. Abana a lata ferrugenta, os dentes tintinam e ele sorri, satisfeito com o barulho.
- É minha música , essa.
- Prossegue seus lamentos: nos dias de hoje, os filhos mordem as mães quando ainda estão no ventre. Vejam a pedra em que me sento: parece morta, enquanto não, vive devagarinho, sem barulho. Como eu, conclui. Depois, se volta a zangar, manifestivo. O velho braceja, boca fora dos bofes.
- Vão os dois para baixo da terra, satanhocas!
Muidinga, então, se excede. Grita. O velho aldeão se atenta para escutar, através da tradução de Tuahir. Por que motivo ele não recebia bem os visitantes como ordenavam as velhas leis hospitaleiras? De facto, responde o velho, não é assim a maneira da nossa raça. Antigamente quem chegava era em bondade de intenção. Agora quem vem traz a morte na ponta dos dedos.

O rapaz insiste em explicar seus motivos. As razões deles não eram iguais às dos que hoje cruzem os matos. Tuahir interrompe-o pedindo calma. Lento como um rosário desfia toda a estória, razão de estarem ali, requerendo tais ousadias. Nem Muidinga sabia de tais dotes em seu companheiro. Tuahir fala de um mundo que nem há, engraçando suas visões. Que a nossa terra se ia aquietar, todos não é assim se familiariam, moçambicanos. E nos visitaríamos como nos tempos, roendo os caminhos sem nunca mais termos medo.
- Verdade isso?, pergunta o desdentado.
Longe se ouvem tiros, a guerra continua a infligir seus estrondos. Tuahir prossegue, arrebatado: diz que ouviu falar de países ricos onde a gente já nem tem que cavar a terra: enterra-se a enxada, bem direito no chão. Do cabo brotam árvores, plantas cheias de verde.
- Seremos assim também, sentenciou.
Mas o desdentado aldeão já anoitecera, queixo no peito. Seu mundo já era esse que Tuahir anunciara, de extensos sossegos. O próprio Muidinga está como se encantado com as palavras de Tuahir. Não é a estória que o fascina mas a alma que está nela. E ao ouvir os sonhos de Tuahir, com os ruídos da guerra por trás, ele vai pensando: não inventaram ainda uma pólvora suave, maneirosa, capaz de explodir os homens sem lhes matar. Uma pólvora que, em avessos serviços, gerasse mais vida. E do homem explodido nascessem os infinitos homens que lhes estão por dentro.
Tuahir se revela, por um instante, como um curandeiro amenizando o universo, seu paciente. E ali está o velho Siqueleto, sonecando em trégua de existir. Olhando o seu corpo abandonado dá vontade de sorrir como se faz ao contemplar o sono indefeso de uma criança.      [continua]

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