Quarto
capítulo
A lição de Siqueleto
Uma vez mais Tuhair decide explorar os matos vizinhos. A estrada
não traz ninguém. Enquanto a guerra não terminasse era mesmo melhor que nenhuma
pessoa estradeasse por ali. O velho sempre repetia:
- Alguma coisa, algum dia, há-de acontecer. Mas não aqui, emendava
baixinho.
De facto, a única coisa que acontece é a consecutiva mudança da
paisagem. Mas só Muidinga vê essas mudanças. Tuahir diz que são miragens,
frutos do desejo de seu companheiro. Quem sabe essas visões eram resultado de
tanto se confinarem ao mesmo refúgio. Por isso ele queria uma vez mais partir,
tentar descobrir nem sabia o quê, uma réstia de esperança, uma saída daquele
cerco.
- Você quer sair, não é?
- Quero, tio. Esta estrada está morta.
- Esta estrada está morta!? Mas não entende que isso é muito bom,
esta estrada estar morta é que nos dá boa segurança?
- Mas nós, desta maneira, não vamos a lado nenhum...
- Isso quer dizer que também aqui não chega ninguém.
O velho pondera: não valia a pena insistir. O melhor seria uma
mentira, dessas tecidas pela bondade. Diria ao miúdo que aceitava partir.
Depois fingiria afastar-se, enquanto andavam em círculos. Regressariam
sempre ao machimbombo, à mesma estrada de onde haviam partido. Assim ele fizera
desde a primeira vez que saíram da estrada.
Nessa tarde, o velho comanda uma dessas falsas viagens. Primeiro,
seguem ao longo da picada. A estrada onde moram surge Muidinga com novas
vistas, parecendo pentear a savana, risco ao meio. Só depois derivam por
atalhos e trilhos. No sossego da paisagem nenhuma coisa pedia urgência.
Contudo, Muidinga não está tranquilo: sempre o susto espreita no farfalhar da
folhagem, o segredar da morte, essa infatigável coscuvilheira. Vão pisando
caminhos saudosos do pé de gente. Tuahir segue à frente, abrindo trilhos para
onde depois o rapaz avança. De repente o mundo desaba, o chão desaparece Tuahir
e Muidinga se abismalham, tombados numa enormíssima cova. É um desses buracos
onde a noite se esconde com o rabo de fora.
- Estamos onde Tuhair?
- Nem fale. Deve ser morada do sapo gigante, o tal comedor de
escuro.
Ficam sentados, se acostumando ao nada. Depois, seus olhos de
lusco-focaram: havia uma rede cobrindo as paredes do buraco. Nenhum de ambos
tem dúvida: estão dentro de uma armadilha. Só restava esperar. Conversam para
distrair os maus espíritos que sempre aproveitam o silêncio para engordar
intenções.
- Sabe o que eu me estou a lembrar, tio? Lembro de Farida.
- E quem é essa?
- A mulher dos cadernos, apaixonada de Kindzu.
Tuahir sorri da confissão, cheio de idade. Sobre as mulheres ele,
nos tempos, emitiria opiniões que vinham do coração. Agora, nem tanto:
- Há mulheres que são chuva, outras cacimbo. Essa tal Farida deve
ser uma que vale a pena a gente se despentear com ela.
Muidinga vai fingindo que escuta, preocupado em estudar as paredes
do buracão e avaliar modos de sair daquela prisão. O tempo passa sem solução e
os dois adormecem cada um para seu lado. Muidinga sonha, agitado. Lhe surgem,
confusas, imagens de um tempo que ele nunca foi capaz de tocar. Muidinga se
revê menino, saindo de uma escola. Mas nenhum rosto é legível, mesmo a escola
não possui fachada. Confusas vozes lhe afluem: chamam por si! Lhe chamam um
outro nome. Tenta desesperadamente entender esse nome. Mas os sons se desfocam,
em eco de cacimbo. Depois, tudo se esfuma, anoitece dentro de seu sonho. Na
manhã seguinte, o miúdo é o primeiro a acordar, o chão lhe doendo nas costas.
Aquela noite lhe dera a certeza: os sonhos são cartas que enviamos a nossas
outras, restantes vidas. Os cadernos de Kindzu não deveriam ter sido escritos
por mão de carne e ossuda mas por sonhos iguais aos dele.
A manhã ainda balbucia, a luz pestaneja. Súbito, no meio do
cacimbo, uma silhueta aparece. É figura de gente. Mudinga se satisfaz, chama o
companheiro:
- Acorda Tuahir, nos vieram salvar!
Festejam a chegada do intruso. Dão os bons-dias mas não há
resposta. O cacimbo se desfaz, ao sopro de uma brisa. O vulto então se
esclarece: é um velho alto, torto, usando sobre o corpo nu uma gabardina
comprida, maior que o seu tamanho. Um dos olhos permanece fechado enquanto o
outro está aberto. O olho de serviço reveza-se, ora um ora outro. De vez em
quando, tropeça no excesso da pouca roupa. Fica espreitando, demorado, incrédulo.
Por fim, lhes lança uma rede. Ficam presos nas malhas, enredilhados como
peixes. Então o velho os puxa, os dois vão ajudando com as pernas a subir,
buraco acima. Saem mas ele não lhes solta. Traz a rede a arrastar pelo chão, os
dois lá dentro, iguais aos bichos caçados. Quando por fim chegam a sua casa ele
reforçou a rede com mais amarras. Encara os prisioneiros com um só olho
enquanto fala na língua local. Tuahir traduz:
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