Total de visualizações de página

sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 19]


Quarto capítulo


A lição de Siqueleto

Uma vez mais Tuhair decide explorar os matos vizinhos. A estrada não traz ninguém. Enquanto a guerra não terminasse era mesmo melhor que nenhuma pessoa estradeasse por ali. O velho sempre repetia:
- Alguma coisa, algum dia, há-de acontecer. Mas não aqui, emendava baixinho.
De facto, a única coisa que acontece é a consecutiva mudança da paisagem. Mas só Muidinga vê essas mudanças. Tuahir diz que são miragens, frutos do desejo de seu companheiro. Quem sabe essas visões eram resultado de tanto se confinarem ao mesmo refúgio. Por isso ele queria uma vez mais partir, tentar descobrir nem sabia o quê, uma réstia de esperança, uma saída daquele cerco.
- Você quer sair, não é?
- Quero, tio. Esta estrada está morta.
- Esta estrada está morta!? Mas não entende que isso é muito bom, esta estrada estar morta é que nos dá boa segurança?
- Mas nós, desta maneira, não vamos a lado nenhum...
- Isso quer dizer que também aqui não chega ninguém.
O velho pondera: não valia a pena insistir. O melhor seria uma mentira, dessas tecidas pela bondade. Diria ao miúdo que aceitava partir. Depois fingiria afastar-se, enquanto andavam em círculos. Regressariam sempre ao machimbombo, à mesma estrada de onde haviam partido. Assim ele fizera desde a primeira vez que saíram da estrada.
Nessa tarde, o velho comanda uma dessas falsas viagens. Primeiro, seguem ao longo da picada. A estrada onde moram surge Muidinga com novas vistas, parecendo pentear a savana, risco ao meio. Só depois derivam por atalhos e trilhos. No sossego da paisagem nenhuma coisa pedia urgência. Contudo, Muidinga não está tranquilo: sempre o susto espreita no farfalhar da folhagem, o segredar da morte, essa infatigável coscuvilheira. Vão pisando caminhos saudosos do pé de gente. Tuahir segue à frente, abrindo trilhos para onde depois o rapaz avança. De repente o mundo desaba, o chão desaparece Tuahir e Muidinga se abismalham, tombados numa enormíssima cova. É um desses buracos onde a noite se esconde com o rabo de fora.
- Estamos onde Tuhair?
- Nem fale. Deve ser morada do sapo gigante, o tal comedor de escuro.
Ficam sentados, se acostumando ao nada. Depois, seus olhos de lusco-focaram: havia uma rede cobrindo as paredes do buraco. Nenhum de ambos tem dúvida: estão dentro de uma armadilha. Só restava esperar. Conversam para distrair os maus espíritos que sempre aproveitam o silêncio para engordar intenções.
- Sabe o que eu me estou a lembrar, tio? Lembro de Farida.
- E quem é essa?
- A mulher dos cadernos, apaixonada de Kindzu.
Tuahir sorri da confissão, cheio de idade. Sobre as mulheres ele, nos tempos, emitiria opiniões que vinham do coração. Agora, nem tanto:
- Há mulheres que são chuva, outras cacimbo. Essa tal Farida deve ser uma que vale a pena a gente se despentear com ela.
Muidinga vai fingindo que escuta, preocupado em estudar as paredes do buracão e avaliar modos de sair daquela prisão. O tempo passa sem solução e os dois adormecem cada um para seu lado. Muidinga sonha, agitado. Lhe surgem, confusas, imagens de um tempo que ele nunca foi capaz de tocar. Muidinga se revê menino, saindo de uma escola. Mas nenhum rosto é legível, mesmo a escola não possui fachada. Confusas vozes lhe afluem: chamam por si! Lhe chamam um outro nome. Tenta desesperadamente entender esse nome. Mas os sons se desfocam, em eco de cacimbo. Depois, tudo se esfuma, anoitece dentro de seu sonho. Na manhã seguinte, o miúdo é o primeiro a acordar, o chão lhe doendo nas costas. Aquela noite lhe dera a certeza: os sonhos são cartas que enviamos a nossas outras, restantes vidas. Os cadernos de Kindzu não deveriam ter sido escritos por mão de carne e ossuda mas por sonhos iguais aos dele.
A manhã ainda balbucia, a luz pestaneja. Súbito, no meio do cacimbo, uma silhueta aparece. É figura de gente. Mudinga se satisfaz, chama o companheiro:
- Acorda Tuahir, nos vieram salvar!
Festejam a chegada do intruso. Dão os bons-dias mas não há resposta. O cacimbo se desfaz, ao sopro de uma brisa. O vulto então se esclarece: é um velho alto, torto, usando sobre o corpo nu uma gabardina comprida, maior que o seu tamanho. Um dos olhos permanece fechado enquanto o outro está aberto. O olho de serviço reveza-se, ora um ora outro. De vez em quando, tropeça no excesso da pouca roupa. Fica espreitando, demorado, incrédulo. Por fim, lhes lança uma rede. Ficam presos nas malhas, enredilhados como peixes. Então o velho os puxa, os dois vão ajudando com as pernas a subir, buraco acima. Saem mas ele não lhes solta. Traz a rede a arrastar pelo chão, os dois lá dentro, iguais aos bichos caçados. Quando por fim chegam a sua casa ele reforçou a rede com mais amarras. Encara os prisioneiros com um só olho enquanto fala na língua local. Tuahir traduz:

Nenhum comentário: