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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 18]


Aceitei, por força. Da arte da onda, porém, quem sabia era eu. E me chegavam os rugidos do oceano, águas maremoinhando perto. Por ali deviam espreitar grandes e perigosas pedras.
- Quando lá chegarmos as pedras desapareceram, já terão voltado para o fundo do mar, disse o tchóti.
Nem sei o que me fazia crer em suas falagens. Dentro de mim, já nem tinha jeito de negar. O tchóti se colocou à frente, todo de pé. Era tão baixo que parecia estar sempre sentado. Espreitava no caminho, como se fosse mandante da noite. O barco lhe obedecia aos mandos, para esquerda, espera, mais vagarinho, com cuidado.
Por fim, o navio surgiu, parecia era uma montanha negra, uma ilha de ferros e torres. As ondas espumavam rendas brancas no casco. O anão gritava, excitado:
- Vês, Kindzu? Aqui está a nossa riqueza!
Subimos o convés e passeámos por aqueles corredores desertos. Um barco assim vazio, solitário, é coisa de custar a crer. Ouviam-se vozes, ordens, gritos, gemidos. Vinham das paredes, do chão, dos tectos. Gritei para que o tchóti me explicasse o motivo de tais vozes mas o mar me abafou a pergunta. Fui seguindo o anão, ele caminhava induvidável, parecendo conhecer os segredos do navio. Nos dirigimos para os porões, espreitámos aquela barriga escura, mofenta do bicho. Afinal, era verdade! Lá bem dentro se empilhavam embrulhos e caixotes. Muitos já tinham sido rebentados. Levaram parte da carga, mas restava mais que bastante. Aos berros, o anão se empoleirou na escada que descia para o fundo. Conselhei cuidado, a noite estava bem enfiada naquele porão. Mas cedo ele me desapareceu das vistas e eu fiquei só, com todo céu por cima, todo o mar pelos lados.
Ali estava eu, num destino que não escolhera, levado por ventos e m s sortes. Me senti pequeno, sem tecto. Decidi vagueandar pelo convés, enquanto aguardava a subida do anão. Podia escutar seus passos, ecoando nas entranhas do navio.
Passei por quartos, salas, m quinas: aquele barco era maior que um país. O escuro, às toneladas, se constelava, me demorando a procura. Era como se dentro da noite houvesse uma outra noite e eu apalpasse as entranhas da última. Súbito, um ruído de mil fundos trovejou por baixo de mim. Parecia um tropel de búfalos, galopando por dentro do barco. O coração me roçou a boca, atarantável. Chamei pelo anão mas minha voz se aguou.
- Quem é isso?
Eu falava de homem para fantasma. De súbito, vi a âncora. Sobre o convés, a âncora dançava, pulava, cabritoteava. Seu ferro se moleava como se não tivesse outra substância senão carnes de peixe. Requebrava a um compasso de invisíveis tambores. Desconfiei: não podia ser a âncora que assim se despropositava. Era o xipoco, a aparição que me surgira na praia de Tandissico. Aquele barco estava espiritado, aguardado contra intrusos. Ou era mais uma vez serviço de meu pai, me mostrando que não me oferecia trégua? De repente, a âncora tombou com enorme estrondo. Por momento me pareceu que, em seu lugar, jazia estendido um corpo humano. Pé-pós-pé, me afastei. Fosse coisa ou gente aquilo era assunto da minha incompetência. Me apressei a chamar o anão para sairmos daquele barco enfeitiçado.
Foi então que encontrei a mulher. No princípio, era só um vulto no meio das cordas. Seria mais um fantasma? Depois, seu rosto apareceu mais claro. Estremeci. Me cheguei mais, espreitando na penumbra. A lua me ajudava, enxotando as brumas.
- Não tenha medo, lhe disse.
Suas roupas molhadas ofegavam de encontro à pele. A beleza daquela mulher era de fazer fugir o nome das coisas. Olhando o seu corpo se acreditava que nunca nele a velhice haveria de morar. Corpo sedento, olhos sedentários. Sua voz saía sem vestes, nua como se dispensasse palavras.
- Me chamo Farida, disse.
Eu sentei junto. Ela ficou um tempo calada, olhando a noite se molhando no mar. Depois, me ordenou:
- Vai-te embora deste barco.
Eu não me mexi. Fiquei esperando nem sei o quê. Era como se aquele navio, de repente, se tivesse tornado num lugar muito antigo, a lembrança de uma casa onde me apetecia nascer. A mulher começou então a estremecer, parecia sofrer de todos os frios e arrepios. Os olhos perderam o centro, as mãos procuravam gestos longe do corpo. Tombou no chão, se enrodilhando nas cordas. Parecia que seres invisíveis lhe amarravam e ela resistia com desespero. Me levantei, querendo ajudar. Segurei-lhe o corpo. Mas ela me sacudiu, violenta. Voltei a apanhar seus braços, lhe prendi de encontro a mim. Assim, prisioneira de mim, eu senti como seu corpo fervia.
Ficámos assim um tempo. Até que ela me pediu:
- Por favor, me escuta...
Ela só tinha um remédio para se melhorar: era contar sua história. Eu disse que a escutava, demorasse o tempo que demorasse. Ela me pediu que lhe soltasse. Ainda tremia, mas pouco. Então, me contou a sua história.

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