Aceitei, por força. Da arte da onda, porém, quem sabia era eu. E
me chegavam os rugidos do oceano, águas maremoinhando perto. Por ali deviam
espreitar grandes e perigosas pedras.
- Quando lá chegarmos as pedras desapareceram, já terão voltado
para o fundo do mar, disse o tchóti.
Nem sei o que me fazia crer em suas falagens. Dentro de mim, já
nem tinha jeito de negar. O tchóti se colocou à frente, todo de pé. Era tão
baixo que parecia estar sempre sentado. Espreitava no caminho, como se fosse
mandante da noite. O barco lhe obedecia aos mandos, para esquerda, espera, mais
vagarinho, com cuidado.
Por fim, o navio surgiu, parecia era uma montanha negra, uma ilha
de ferros e torres. As ondas espumavam rendas brancas no casco. O anão gritava,
excitado:
- Vês, Kindzu? Aqui está a nossa riqueza!
Subimos o convés e passeámos por aqueles corredores desertos. Um
barco assim vazio, solitário, é coisa de custar a crer. Ouviam-se vozes,
ordens, gritos, gemidos. Vinham das paredes, do chão, dos tectos. Gritei para
que o tchóti me explicasse o motivo de tais vozes mas o mar me abafou a
pergunta. Fui seguindo o anão, ele caminhava induvidável, parecendo conhecer os
segredos do navio. Nos dirigimos para os porões, espreitámos aquela barriga
escura, mofenta do bicho. Afinal, era verdade! Lá bem dentro se empilhavam
embrulhos e caixotes. Muitos já tinham sido rebentados. Levaram parte da carga,
mas restava mais que bastante. Aos berros, o anão se empoleirou na escada que
descia para o fundo. Conselhei cuidado, a noite estava bem enfiada naquele
porão. Mas cedo ele me desapareceu das vistas e eu fiquei só, com todo céu por
cima, todo o mar pelos lados.
Ali estava eu, num destino que não escolhera, levado por ventos e
m s sortes. Me senti pequeno, sem tecto. Decidi vagueandar pelo convés,
enquanto aguardava a subida do anão. Podia escutar seus passos, ecoando nas
entranhas do navio.
Passei por quartos, salas, m quinas: aquele barco era maior
que um país. O escuro, às toneladas, se constelava, me demorando a procura. Era
como se dentro da noite houvesse uma outra noite e eu apalpasse as entranhas da
última. Súbito, um ruído de mil fundos trovejou por baixo de mim. Parecia um
tropel de búfalos, galopando por dentro do barco. O coração me roçou a boca,
atarantável. Chamei pelo anão mas minha voz se aguou.
- Quem é isso?
Eu falava de homem para fantasma. De súbito, vi a âncora. Sobre o
convés, a âncora dançava, pulava, cabritoteava. Seu ferro se moleava como se
não tivesse outra substância senão carnes de peixe. Requebrava a um compasso de
invisíveis tambores. Desconfiei: não podia ser a âncora que assim se
despropositava. Era o xipoco, a aparição que me surgira na praia de Tandissico.
Aquele barco estava espiritado, aguardado contra intrusos. Ou era mais uma vez
serviço de meu pai, me mostrando que não me oferecia trégua? De repente, a
âncora tombou com enorme estrondo. Por momento me pareceu que, em seu lugar,
jazia estendido um corpo humano. Pé-pós-pé, me afastei. Fosse coisa ou gente
aquilo era assunto da minha incompetência. Me apressei a chamar o anão para
sairmos daquele barco enfeitiçado.
Foi então que encontrei a mulher. No princípio, era só um vulto no
meio das cordas. Seria mais um fantasma? Depois, seu rosto apareceu mais claro.
Estremeci. Me cheguei mais, espreitando na penumbra. A lua me ajudava,
enxotando as brumas.
- Não tenha medo, lhe disse.
Suas roupas molhadas ofegavam de encontro à pele. A beleza daquela
mulher era de fazer fugir o nome das coisas. Olhando o seu corpo se acreditava
que nunca nele a velhice haveria de morar. Corpo sedento, olhos sedentários.
Sua voz saía sem vestes, nua como se dispensasse palavras.
- Me chamo Farida, disse.
Eu sentei junto. Ela ficou um tempo calada, olhando a noite se
molhando no mar. Depois, me ordenou:
- Vai-te embora deste barco.
Eu não me mexi. Fiquei esperando nem sei o quê. Era como se aquele
navio, de repente, se tivesse tornado num lugar muito antigo, a lembrança de uma
casa onde me apetecia nascer. A mulher começou então a estremecer, parecia
sofrer de todos os frios e arrepios. Os olhos perderam o centro, as mãos
procuravam gestos longe do corpo. Tombou no chão, se enrodilhando nas cordas.
Parecia que seres invisíveis lhe amarravam e ela resistia com desespero. Me
levantei, querendo ajudar. Segurei-lhe o corpo. Mas ela me sacudiu, violenta.
Voltei a apanhar seus braços, lhe prendi de encontro a mim. Assim, prisioneira
de mim, eu senti como seu corpo fervia.
Ficámos assim um tempo. Até que ela me pediu:
- Por favor, me escuta...
Ela só tinha um remédio para se melhorar: era contar sua história.
Eu disse que a escutava, demorasse o tempo que demorasse. Ela me pediu que lhe
soltasse. Ainda tremia, mas pouco. Então, me contou a sua história.
Nenhum comentário:
Postar um comentário