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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 17]

Terceiro caderno de Kindzu  - Matimati, a terra da água
Quando cheguei à baía de Matimati já eu perdera contas às madrugadas. A vila se deitava no abraço da água, parecia que estava ali mesmo antes de haver mar. O que testemunhei naquela povoação foram coisas sem hábito neste mundo. Gentes imensas se concentravam na praia como se fossem destroços trazidos pelas ondas. A verdade era outra: tinham vindo do interior, das terras onde os matadores tinham proclamado seu reino. Consoante as pobres gentes fugiam também os bandidos vinham em seu rasto como hienas perseguindo agonizantes gazelas. E agora aqueles deslocados se campeavam por ali sem terra para produzirem a mínima comida. Deviam viver há vários dias, presenciadas as trouxas e fogueiras espalhadas em múltiplas desordens. Mal me viram desembarcar, vários homens me cercaram. Queriam saber quem eu era, de onde vinha. Me expliquei, sumário. Então, eles me advertiram:
- O melhor é você desaparecer-se daqui.
Nem barrigasse o barco no firme chão. O que eu devia era regressar ao mar: assim me aconselhavam os gerais. Pois ali se sucediam terríveis acontecimentos. O medo e a ameaça vinham de todos os lados. Não havia que confiar em ninguém. As autoridades não perguntariam muita coisa. Haveriam de me prender, espontânea e imediatamente.
Me sentei, buscando explicação para tais ameaças. O que me contaram me deixou na intriga de mais saber. Chamaram o antigo secretário do administrador para me trazer uma autorizada versão do acontecido. O homem compareceu, trazido ao colo de muitos voluntários. Suas pernas estavam desvalidas que nem caniço em ventania. Lhe ajudaram a sentar. Se apresentou, sacudindo as mãos:
- Sou Assane.
Era ainda pouca a madrugada e eu quase não vislumbrava as feições corporais do homem. Reconto agora o seu depoimento, deixando intactos os modos oficiais de seu falar: acontecera que, dias antes, se iniciara uma tempestade furiosa e não-planificada, da qual resultara a perda de sentidos da lua e a implementação de total escuridão generalizada.
Nesse exacto dia, se aguardava a passagem do navio que transportava os donativos para a província. Contudo, o malogrado navio se despenhou de encontro a rochas recém-nascidas e toda a tripulação desapareceu por intermédio de ondas gigantes e de duração interminável.
As autoridades imediatamente desencadearam uma ofensiva de averiguações político-ideológicas tendo apurado a presença do inimigo da classe. Conclusão do responsável da Segurança: tais rochas nunca foram vistas antes da mencionada noite. As devidas estruturas do governo desconfiaram que o acidente fosse de origem indígena já que as locais populações haviam, na prévia véspera, manifestado um comportamento muito suspeito. O administrador convocou um comício bastante público e anunciou:
- No âmbito deste contexto e guiados pelas orientações traçadas pela Nação, estamos a investigar a acção do inimigo do povo.
De facto, dava direito para desconfios. Mesmo Assane se associava às oficiais suspeitas. Podem umas rochas, em tais quantidades e tamanhos, nascerem-se em menos de um instante? O mais grave, contudo, foram as ocorrências que sucederam ao acidente. Pois, de imediato, centenas de pessoas se lançaram em todo o tipo de embarcações, das pequenas às mais mínimas para assaltarem o navio malfragado, a fim de se servirem das ditas xicalamidades (Xicalamidades: corruptela de calamidades, forma como popularmente se designam os donativos para apoiar as vítimas das calamidades naturais.). As autoridades ainda tentaram travar os barquitos, mas bem dizia o administrador, são conhecidas as manias das populações que vivem a olhos vistos, pouco percebendo do mundo futuro. O ex-secretário Assane, sempre sacudindo as mãos, recordava o administrador quase chorando durante o discurso:
- Às vezes quase desisto de vocês, massas populares. Penso: não vale a pena, é como pedir a um cajueiro para não entortar seus ramos. Mas nós cumprimos destino de tapete: a História há-de limpar os pés nas nossas costas.
Contudo, a tragédia se abatera no regresso de tais barquitos, já eles vinham bastantemente carregadíssimos com vestuários, comidas e utensílios diversos. Não se sabe a certeza do motivo mas, num estrelar de olhos, todos os barquinhos foram para os fundos marinhos, desaparecendo até à corrente data.
Desde então, a situação só piorou pois, consoante o secretário do administrador, a população não se comporta civilmente na presença da fome. Muita gente insistia agora em voltar ao tal navio pois lá sobrava comida que daria para salvar filhos, mães e uma africandade de parentes.
Era esta a razão por que se escutavam tambores consecutivos, rezas obscurantistas em todas as praias, clamando aos antepassados para outros navios se afundarem, suas cargas se espalharem e desaguarem nas mãos dos famintos. Os do governo deram ordens rigorosas. A recolha dos bens do navio devia ser organizada. Explicavam eles que apenas se pretendia que os destroços chegassem ao destino de forma ordenada e obedecendo às hierarquias, passando primeiro pelas estruturas competentes.
Depois vieram as estranhas orientações: foram proibidas as danças e cerimónias anexas. Logo-logo começaram murmurinhos: que eram os responsáveis que impediam a boa sorte de acontecerem mais acidentes de navegação. Os chefes, todos eles, eram acusados. Dizia-se que os dirigentes apenas desejavam aproveitar dos donativos, em primeiro e exclusivo lugar. Vozeavam mais ainda: que os chefes faziam riquezas com aqueles produtos.
- Tais boatos precisam ser prontamente rechaçados. Vou pedir, para os devidos efeitos, as sábias e bastante superiores orientações. Se houver caso provado de corrupção, duras medidas serão tomadas.
Foram as promissoras ameaças do administrador no fecho do comício. Depois, para levantar a poeira sem mexer na areia, o administrador se abateu sobre o secretário lhe lançando acusações de desvios e abusos. Assane foi preso, sujado por mil bocas. Na prisão lhe bateram, chambocado (Chambocado: espancado com um chamboco (vara, pau).) nas costas até que as pernas se exilaram daquele sofrimento que lhe era infligido. Perdeu o sentimento da cintura para baixo. Assane passou as palmas das mãos pelas desempregadas coxas. Tinha sido apenas há dias que lhe abriram a porta da prisão. Ainda nem sabia bem se arrastar de mãos pelo chão. Por isso as sacudia, limpando essas mãos que ele sempre aplicara nos documentos.
- Esse é o sofrimento que temos aqui, rematou o antigo secretário.
Os outros acenaram em concordância. Eu que desse a vinda por não vinda e saísse dali antes que chegassem os seguintes momentos. Pois que se previa: no fim da manhã, o administrador pessoalmente viria evacuar a praia através da força. Por isso, eu que rodasse a canoa e nunca mais voltasse.
- Posso perguntar uma coisa? Existem, em Matimati, esses guerreiros chamados de naparamas?
Assane respondeu que sim, mais no interior. Em Matimati apenas se ouvia falar dos seus feitos, suas bravuras.
Mas nem ele nem mais ninguém deu mais azo de conversa.
Ultimaram os conselhos: eu que me afastasse antes de cheirar que chegara um vindo do mar. Apanhado eu seria, como antes tinha sido Assane: o bode de onde se tirariam as espinhas, o agitador de fora que faltava para compor a versão da administração. Me deram remos, água e mantimentos para prosseguir viagem.
Antes de partir, porém, bebi e dancei em cerimónia dos espíritos. Conforme pude, ajudei os antepassados para que afundassem mais navios. Assim deitava mais um alívio naquela pobre gente. Bebi, porém, bastante de mais. Pois, pela madrugada, já não me tinha no corpo. Tiveram que me carregar pelos braços, meter no concho e dar um empurrão para afastar o barquito. Ainda me recordo de molhar a cabeça para tentar mais visão e remar por um tempo. Até que adormeci cheio de sonhos. O estranho era que meu pai não aparecera em nenhum desses sonhos. Onde andaria ele?
Despertei, no meio da noite, ainda o escuro não se apagara.
A canoa se ondeava, adormentada em águas perdidas. Meu peito bumbumbava, acelerado. Qualquer coisa me chamava nem eu sabia se dentro ou fora de mim. Procurei no escuro, lançando os olhos para além do longe. Foi quando vi a fogueira. Lá, no pleno mar, uma fogueirita pirilampejava. No início, duvidei. Como se acendera um fogo em plena água? Depois, confirmei: meus olhos não mentiam. Quase eu escutava as mudas falas do fogo. E eu lhe ouvia o doce crepitar, como essas fogueirinhas que os pastores abrem nas savanas.
Hesitei me dirigir de encontro ao lumezito. Não seria mais uma visão do meu anterior pesadelo? Mas o concho, sozinho, começou de viajar. Sulcava seu caminho, ziguezagueiro. O susto me invadiu: me afastava velozmente de terra.
Foi quando os céus se arrebentaram e as nuvens, sem amparo, tombaram sobre a terra. Sobre a minha canoa se acenderam os relâmpagos, vieram as chuvas, diluviando toda a paisagem. A água cascateava, a terra parecia era um fruto na húmida boca do céu. Meu concho semelhava um caixãozito, flutuando em fúnebre compasso. De repente, caiu dentro do meu concho um tchóti, um desses anões que descem dos céus. A canoa se revoltinhou com o choque e eu quase me desembarquei. Olhei o anão e descreditei, duvidoso. Meu pai sempre me contava estórias desta gente que desce os infinitos, de vez em onde.
Certa vez, um lhe caiu em pleno mato. O súbito anãozito lhe acertou, quase lhe partiu em partes. Sempre eu desconfiava das invencionices do velho. Porém, agora, em meu próprio barco passageirava um desses descendentes.
- Venho buscar as coisas, disse o anão.
- Quais coisas?, perguntei.
- Não sabes? Descarrilou-se um navio cheiinho de donativos.
Olhos acesos, o baixito repetia a notícia que eu já conhecia: um enormíssimo navio encalhara num banco de areia, bem próximo dali. Porões ao léu, estava só à espera que se fosse lá. Tinha tudo: comida, roupa, facholos (Facholos: enxadas), petróleo, petromaxes (Petromaxes: candeeiros a petróleo). Não me prendi ao seu entusiasmo, ele me adivinhou as dúvidas:
- Também no céu há as faltas, não penses. É por isso eu desço, venho buscar as roupas aqui...
Apresentei argumentos: aquele mar era perigoso, cheio de invisibilidades. Já uma vez perdera os remos, não queria arriscar a ficar mais uma vez sem eles.
- O arisco não arrisca, justifiquei.
- E quem precisa de remos? Não vês o barco andando sozinho, por sua vontade?

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