Terceiro caderno de Kindzu
- Matimati, a terra da água
Quando cheguei à baía de Matimati já eu perdera contas às
madrugadas. A vila se deitava no abraço da água, parecia que estava ali mesmo
antes de haver mar. O que testemunhei naquela povoação foram coisas sem hábito
neste mundo. Gentes imensas se concentravam na praia como se fossem destroços
trazidos pelas ondas. A verdade era outra: tinham vindo do interior, das terras
onde os matadores tinham proclamado seu reino. Consoante as pobres gentes
fugiam também os bandidos vinham em seu rasto como hienas perseguindo
agonizantes gazelas. E agora aqueles deslocados se campeavam por ali sem terra
para produzirem a mínima comida. Deviam viver há vários dias, presenciadas as
trouxas e fogueiras espalhadas em múltiplas desordens. Mal me viram
desembarcar, vários homens me cercaram. Queriam saber quem eu era, de onde
vinha. Me expliquei, sumário. Então, eles me advertiram:
- O melhor é você desaparecer-se daqui.
Nem barrigasse o barco no firme chão. O que eu devia era regressar
ao mar: assim me aconselhavam os gerais. Pois ali se sucediam terríveis
acontecimentos. O medo e a ameaça vinham de todos os lados. Não havia que
confiar em ninguém. As
autoridades não perguntariam muita coisa. Haveriam de me prender, espontânea e
imediatamente.
Me sentei, buscando explicação para tais ameaças. O que me
contaram me deixou na intriga de mais saber. Chamaram o antigo secretário do
administrador para me trazer uma autorizada versão do acontecido. O homem
compareceu, trazido ao colo de muitos voluntários. Suas pernas estavam
desvalidas que nem caniço em
ventania. Lhe ajudaram a sentar. Se apresentou, sacudindo as
mãos:
- Sou Assane.
Era ainda pouca a madrugada e eu quase não vislumbrava as feições
corporais do homem. Reconto agora o seu depoimento, deixando intactos os modos
oficiais de seu falar: acontecera que, dias antes, se iniciara uma tempestade
furiosa e não-planificada, da qual resultara a perda de sentidos da lua e a
implementação de total escuridão generalizada.
Nesse exacto dia, se aguardava a passagem do navio que
transportava os donativos para a província. Contudo, o malogrado navio se
despenhou de encontro a rochas recém-nascidas e toda a tripulação desapareceu
por intermédio de ondas gigantes e de duração interminável.
As autoridades imediatamente desencadearam uma ofensiva de
averiguações político-ideológicas tendo apurado a presença do inimigo da
classe. Conclusão do responsável da Segurança: tais rochas nunca foram vistas
antes da mencionada noite. As devidas estruturas do governo desconfiaram que o
acidente fosse de origem indígena já que as locais populações haviam, na prévia
véspera, manifestado um comportamento muito suspeito. O administrador convocou
um comício bastante público e anunciou:
- No âmbito deste contexto e guiados pelas orientações traçadas
pela Nação, estamos a investigar a acção do inimigo do povo.
De facto, dava direito para desconfios. Mesmo Assane se associava
às oficiais suspeitas. Podem umas rochas, em tais quantidades e tamanhos,
nascerem-se em menos de um instante? O mais grave, contudo, foram as
ocorrências que sucederam ao acidente. Pois, de imediato, centenas de pessoas
se lançaram em todo o tipo de embarcações, das pequenas às mais mínimas para
assaltarem o navio malfragado, a fim de se servirem das ditas xicalamidades (Xicalamidades:
corruptela de calamidades, forma como popularmente se designam os donativos
para apoiar as vítimas das calamidades naturais.). As autoridades ainda
tentaram travar os barquitos, mas bem dizia o administrador, são conhecidas as
manias das populações que vivem a olhos vistos, pouco percebendo do mundo
futuro. O ex-secretário Assane, sempre sacudindo as mãos, recordava o
administrador quase chorando durante o discurso:
- Às vezes quase desisto de vocês, massas populares. Penso: não
vale a pena, é como pedir a um cajueiro para não entortar seus ramos. Mas nós
cumprimos destino de tapete: a História há-de limpar os pés nas nossas costas.
Contudo, a tragédia se abatera no regresso de tais barquitos, já
eles vinham bastantemente carregadíssimos com vestuários, comidas e utensílios
diversos. Não se sabe a certeza do motivo mas, num estrelar de olhos, todos os
barquinhos foram para os fundos marinhos, desaparecendo até à corrente data.
Desde então, a situação só piorou pois, consoante o secretário do
administrador, a população não se comporta civilmente na presença da fome.
Muita gente insistia agora em voltar ao tal navio pois lá sobrava comida que
daria para salvar filhos, mães e uma africandade de parentes.
Era esta a razão por que se escutavam tambores consecutivos, rezas
obscurantistas em todas as praias, clamando aos antepassados para outros navios
se afundarem, suas cargas se espalharem e desaguarem nas mãos dos famintos. Os
do governo deram ordens rigorosas. A recolha dos bens do navio devia ser
organizada. Explicavam eles que apenas se pretendia que os destroços chegassem
ao destino de forma ordenada e obedecendo às hierarquias, passando primeiro
pelas estruturas competentes.
Depois vieram as estranhas orientações: foram proibidas as danças
e cerimónias anexas. Logo-logo começaram murmurinhos: que eram os responsáveis
que impediam a boa sorte de acontecerem mais acidentes de navegação. Os chefes,
todos eles, eram acusados. Dizia-se que os dirigentes apenas desejavam aproveitar
dos donativos, em primeiro e exclusivo lugar. Vozeavam mais ainda: que os
chefes faziam riquezas com aqueles produtos.
- Tais boatos precisam ser prontamente rechaçados. Vou pedir, para
os devidos efeitos, as sábias e bastante superiores orientações. Se houver caso
provado de corrupção, duras medidas serão tomadas.
Foram as promissoras ameaças do administrador no fecho do comício.
Depois, para levantar a poeira sem mexer na areia, o administrador se abateu
sobre o secretário lhe lançando acusações de desvios e abusos. Assane foi
preso, sujado por mil bocas. Na prisão lhe bateram, chambocado (Chambocado:
espancado com um chamboco (vara, pau).) nas costas até que as pernas se
exilaram daquele sofrimento que lhe era infligido. Perdeu o sentimento da cintura
para baixo. Assane passou as palmas das mãos pelas desempregadas coxas. Tinha
sido apenas há dias que lhe abriram a porta da prisão. Ainda nem sabia bem se
arrastar de mãos pelo chão. Por isso as sacudia, limpando essas mãos que ele
sempre aplicara nos documentos.
- Esse é o sofrimento que temos aqui, rematou o antigo secretário.
Os outros acenaram em concordância. Eu que desse a vinda por não vinda
e saísse dali antes que chegassem os seguintes momentos. Pois que se previa: no
fim da manhã, o administrador pessoalmente viria evacuar a praia através da
força. Por isso, eu que rodasse a canoa e nunca mais voltasse.
- Posso perguntar uma coisa? Existem, em Matimati, esses
guerreiros chamados de naparamas?
Assane respondeu que sim, mais no interior. Em Matimati apenas se
ouvia falar dos seus feitos, suas bravuras.
Mas nem ele nem mais ninguém deu mais azo de conversa.
Ultimaram os conselhos: eu que me afastasse antes de cheirar que
chegara um vindo do mar. Apanhado eu seria, como antes tinha sido Assane: o bode
de onde se tirariam as espinhas, o agitador de fora que faltava para compor a
versão da administração. Me deram remos, água e mantimentos para prosseguir
viagem.
Antes de partir, porém, bebi e dancei em cerimónia dos espíritos.
Conforme pude, ajudei os antepassados para que afundassem mais navios. Assim
deitava mais um alívio naquela pobre gente. Bebi, porém, bastante de mais.
Pois, pela madrugada, já não me tinha no corpo. Tiveram que me carregar pelos
braços, meter no concho e dar um empurrão para afastar o barquito. Ainda me
recordo de molhar a cabeça para tentar mais visão e remar por um tempo. Até que
adormeci cheio de sonhos. O estranho era que meu pai não aparecera em nenhum
desses sonhos. Onde andaria ele?
Despertei, no meio da noite, ainda o escuro não se apagara.
A canoa se ondeava, adormentada em águas perdidas. Meu peito
bumbumbava, acelerado. Qualquer coisa me chamava nem eu sabia se dentro ou fora
de mim. Procurei no escuro, lançando os olhos para além do longe. Foi quando vi
a fogueira. Lá, no pleno mar, uma fogueirita pirilampejava. No início, duvidei.
Como se acendera um fogo em plena água? Depois, confirmei: meus olhos não
mentiam. Quase eu escutava as mudas falas do fogo. E eu lhe ouvia o doce
crepitar, como essas fogueirinhas que os pastores abrem nas savanas.
Hesitei me dirigir de encontro ao lumezito. Não seria mais uma
visão do meu anterior pesadelo? Mas o concho, sozinho, começou de viajar.
Sulcava seu caminho, ziguezagueiro. O susto me invadiu: me afastava velozmente
de terra.
Foi quando os céus se arrebentaram e as nuvens, sem amparo,
tombaram sobre a terra. Sobre a minha canoa se acenderam os relâmpagos, vieram
as chuvas, diluviando toda a paisagem. A água cascateava, a terra parecia era
um fruto na húmida boca do céu. Meu concho semelhava um caixãozito, flutuando
em fúnebre compasso. De repente, caiu dentro do meu concho um tchóti, um desses
anões que descem dos céus. A canoa se revoltinhou com o choque e eu quase me
desembarquei. Olhei o anão e descreditei, duvidoso. Meu pai sempre me contava
estórias desta gente que desce os infinitos, de vez em onde.
Certa vez, um lhe caiu em pleno mato. O súbito anãozito lhe
acertou, quase lhe partiu em
partes. Sempre eu desconfiava das invencionices do velho.
Porém, agora, em meu próprio barco passageirava um desses descendentes.
- Venho buscar as coisas, disse o anão.
- Quais coisas?, perguntei.
- Não sabes? Descarrilou-se um navio cheiinho de donativos.
Olhos acesos, o baixito repetia a notícia que eu já conhecia: um
enormíssimo navio encalhara num banco de areia, bem próximo dali. Porões ao
léu, estava só à espera que se fosse lá. Tinha tudo: comida, roupa, facholos (Facholos:
enxadas), petróleo, petromaxes (Petromaxes: candeeiros a petróleo).
Não me prendi ao seu entusiasmo, ele me adivinhou as dúvidas:
- Também no céu há as faltas, não penses. É por isso eu desço,
venho buscar as roupas aqui...
Apresentei argumentos: aquele mar era perigoso, cheio de
invisibilidades. Já uma vez perdera os remos, não queria arriscar a ficar mais
uma vez sem eles.
- O arisco não arrisca, justifiquei.
- E quem
precisa de remos? Não vês o barco andando sozinho, por sua vontade?
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