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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 15]


Vira costas. Muidinga parece impassível, sua alma desenhada só em diagonal. Era como se já soubesse, tudo aquilo não constituísse novidade nenhuma. Ou quem sabe não acreditasse na verdade da revelação. Ali ficou, estagnado o resto da manhã. É quase meio-dia quando Tuahir o sacode para anunciar que devem partir pelas redondezas. Era urgente procurar alimento, arranjar mais água.
- Vai-se ou não-se?
O moço se ergue, silencioso. E partem, o miúdo segue atrás, contrariado. Aquela era sua primeira incursão pelos matos. A ela se haveriam de seguir outras. Em nenhuma dessas visitas eles se afastariam demasiado do autocarro. Desta primeira vez, eles se descaminham pelo mato, por tempos demorados. Muidinga receia perder o caminho do regresso. E se o velho se perdesse e nunca mais dessem com o machimbombo?
- Qual é o problema Muidinga?
- Estou a pensar se nos perdemos...
- Se não voltarmos à estrada não perdemos nada.
Era verdade: que valores arrecadava o autocarro agora que as reservas de comida se esgotavam? Porém, para Muidinga, não regressar seria enorme desgosto. Ele se admira: o que o prendia àqueles destroços na estrada? Então, lhe veio a resposta clara: eram os cadernos de Kindzu, as estórias que ele vinha lendo cada noite. E sente saudade das linhas, tantas quantos os passos que agora desfia pelos atalhos.
Ao fim da tarde chegam, enfim, a uns antigos terrenos de machamba (Machamba: terreno agrícola.). Tudo fora abandonado, as culturas se tinham perdido, castanhamente. A terra toda se despira, esperando em vão receber o beijo do arado. Aquelas visões ainda mais os esfaimam, fazendo-os arrotar o seu próprio jejum. O velho se senta numa clareira, na margem da antiga machamba. Recolhe em seu redor secos restos de mandioca. É a única cultura que resta, a única que resistiu à seca. Sacode as raízes e nota dentadas na casca.
- Merda! Os ratos chegaram primeiro.
Quando Muidinga se prepara para comer Tuahir grita:
- Não comas!
O velho junta às pressas os paus de mandioca e lança-os no capinzal. Andarilha às voltas a curar os nervos. Depois, se senta junto do rapaz e lhe fala:
- Vou-lhe contar, miúdo. Foi por causa de mandioca dessa que você apanhou doença.
- Tuahir me conte tudo. Me conte como me encontrou.
O velho, enfim, acede. Limpa o chão onde se vai sentar em preparativo de que se iria demorar. E conta: ele estava no campo de deslocados, vindo de sua aldeia distante. Uma noite lhe pediram para ajudar a enterrar seis crianças recém-falecidas. Os corpos estavam numa cabana, por baixo de uma velha lona. Ninguém sabia quem eram, de onde tinham vindo, a que famílias pertenciam. Estavam despidas, suas roupas tinham sido roubadas mal as crianças perderam força para se defenderem. Tuahir ajudou a arrastar os corpos para um buraco. Enquanto puxava pelas pernas frias se admirava daquele peso tão diminuto. Olhava os braços ondeantes como ramos ossudos, esqueletudos, quando reparou com espanto: os dedos de uma das crianças se cravavam no chão. Não havia dúvida, aqueles dedos se agarravam à vida, lutando contra o abismo. Aquela criança ainda respirava. Era a mais clara e a mais raquítica de todas.
- Parem, aquele miúdo ainda está vivo!
Os restantes coveiros se entreolham, duvidosos. E voltam a puxar os corpos: haver um vivo nada altera. Tuahir suplica que parem, os outros se imperturbam. Aqui se enterram os moribundos em viagem sem regresso. O velho sai do grupo, não tem coragem para sepultar um vivente. JÁ o menino se afundava em areias que atiravam no buraco quando ele se recordou:
- Deixem esse: é meu sobrinho...
- E você cuida dele?
- Sim, eu lhe trato.
E foi assim. Nos princípios, o miúdo só pronunciava estranhas gemências. Passaram-se dias, sem outro alimento que não fosse água. O menino permanecia dobrado em si, vomitando, dolorido da cabeça aos pés. Sem se mexer, ele já trincava seu fim. Tuhair lhe pedia que se levantasse e se mantivesse de pé, nem que fosse por breves tempos. Com ajuda, o moribundo se sustinha. O velho lhe ordenava:
- Veja no chão!
Muidinga olhava para o chão, nada notava. Mas as tonturas lhe dificultavam os vistos. O que era que o velho apontava?
- Não vês que perdeste a tua sombra?
Era verdade. Por mais que se inclinasse, o moço não produzia nenhuma sombra. Seu corpo parecia mergulhado em eterno meio-dia. Estremecia com o presságio. E o velho pensava: este já não tem melhora. Mas ainda assim, insistiu.
Nessa altura, o moço ainda segurava algumas palavras. A voz lhe saía em sopro:
- Mas eu... o que eu tenho?                  [continua]

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