Vira costas. Muidinga parece impassível, sua alma desenhada só em diagonal. Era como
se já soubesse, tudo aquilo não constituísse novidade nenhuma. Ou quem sabe não
acreditasse na verdade da revelação. Ali ficou, estagnado o resto da manhã. É
quase meio-dia quando Tuahir o sacode para anunciar que devem partir pelas
redondezas. Era urgente procurar alimento, arranjar mais água.
- Vai-se ou não-se?
O moço se ergue, silencioso. E partem, o miúdo segue atrás,
contrariado. Aquela era sua primeira incursão pelos matos. A ela se haveriam de
seguir outras. Em nenhuma dessas visitas eles se afastariam demasiado do
autocarro. Desta primeira vez, eles se descaminham pelo mato, por tempos
demorados. Muidinga receia perder o caminho do regresso. E se o velho se perdesse
e nunca mais dessem com o machimbombo?
- Qual é o problema Muidinga?
- Estou a pensar se nos perdemos...
- Se não voltarmos à estrada não perdemos nada.
Era verdade: que valores arrecadava o autocarro agora que as
reservas de comida se esgotavam? Porém, para Muidinga, não regressar seria
enorme desgosto. Ele se admira: o que o prendia àqueles destroços na estrada?
Então, lhe veio a resposta clara: eram os cadernos de Kindzu, as estórias que
ele vinha lendo cada noite. E sente saudade das linhas, tantas quantos os
passos que agora desfia pelos atalhos.
Ao fim da tarde chegam, enfim, a uns antigos terrenos de machamba
(Machamba: terreno agrícola.). Tudo fora abandonado, as culturas se
tinham perdido, castanhamente. A terra toda se despira, esperando em vão
receber o beijo do arado. Aquelas visões ainda mais os esfaimam, fazendo-os
arrotar o seu próprio jejum. O velho se senta numa clareira, na margem da
antiga machamba. Recolhe em seu redor secos restos de mandioca. É a única
cultura que resta, a única que resistiu à seca. Sacode as raízes e nota
dentadas na casca.
- Merda! Os ratos chegaram primeiro.
Quando Muidinga se prepara para comer Tuahir grita:
- Não comas!
O velho junta às pressas os paus de mandioca e lança-os no
capinzal. Andarilha às voltas a curar os nervos. Depois, se senta junto do
rapaz e lhe fala:
- Vou-lhe contar, miúdo. Foi por causa de mandioca dessa que você
apanhou doença.
- Tuahir me conte tudo. Me conte como me encontrou.
O velho, enfim, acede. Limpa o chão onde se vai sentar em preparativo
de que se iria demorar. E conta: ele estava no campo de deslocados, vindo de
sua aldeia distante. Uma noite lhe pediram para ajudar a enterrar seis crianças
recém-falecidas. Os corpos estavam numa cabana, por baixo de uma velha lona.
Ninguém sabia quem eram, de onde tinham vindo, a que famílias pertenciam.
Estavam despidas, suas roupas tinham sido roubadas mal as crianças perderam
força para se defenderem. Tuahir ajudou a arrastar os corpos para um buraco.
Enquanto puxava pelas pernas frias se admirava daquele peso tão diminuto.
Olhava os braços ondeantes como ramos ossudos, esqueletudos, quando reparou com
espanto: os dedos de uma das crianças se cravavam no chão. Não havia dúvida,
aqueles dedos se agarravam à vida, lutando contra o abismo. Aquela criança
ainda respirava. Era a mais clara e a mais raquítica de todas.
- Parem, aquele miúdo ainda está vivo!
Os restantes coveiros se entreolham, duvidosos. E voltam a puxar
os corpos: haver um vivo nada altera. Tuahir suplica que parem, os outros se
imperturbam. Aqui se enterram os moribundos em viagem sem regresso. O velho sai
do grupo, não tem coragem para sepultar um vivente. JÁ o menino se afundava em
areias que atiravam no buraco quando ele se recordou:
- Deixem esse: é meu sobrinho...
- E você cuida dele?
- Sim, eu lhe trato.
E foi assim. Nos princípios, o miúdo só pronunciava estranhas
gemências. Passaram-se dias, sem outro alimento que não fosse água. O menino
permanecia dobrado em si, vomitando, dolorido da cabeça aos pés. Sem se mexer,
ele já trincava seu fim. Tuhair lhe pedia que se levantasse e se mantivesse de
pé, nem que fosse por breves tempos. Com ajuda, o moribundo se sustinha. O
velho lhe ordenava:
- Veja no chão!
Muidinga olhava para o chão, nada notava. Mas as tonturas lhe
dificultavam os vistos. O que era que o velho apontava?
- Não vês que perdeste a tua sombra?
Era verdade. Por mais que se inclinasse, o moço não produzia
nenhuma sombra. Seu corpo parecia mergulhado em eterno meio-dia. Estremecia com
o presságio. E o velho pensava: este já não tem melhora. Mas ainda assim,
insistiu.
Nessa altura, o moço ainda segurava algumas palavras. A voz lhe
saía em sopro:
- Mas eu... o que eu tenho? [continua]
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