Terceiro capítulo - O amargo gosto da maquela
(Maquela: variedade de mandioca)
Muidinga acorda com a primeira claridade. Durante a noite, seu
sono se estremunhara. Os escritos de Kindzu lhe começam a ocupar a fantasia. De
madrugada até lhe parecera ouvir os tais cabritos embriagados de Taímo. E
sorri, ao se lembrar. O velho ainda ressona. O miúdo se espreguiça ao sair do
machimbombo. O cacimbo é tão cheio que mal se enxerga. A corda do cabrito
permanece atada aos ramos da árvore. Muidinga puxa por ela para trazer o bicho
às vistas. Então, sente que a corda está solta. O cabrito fugira? Mas, se assim
tinha sido, qual a razão daquele vermelho tintando o laço?
- Tio, tio! Comeram o cabrito!
O velho sai aos desengonços, tropernando pelas escadas do
machimbombo. Primeiro, fica parado, perplexo, a digerir névoas. Depois vai
pilando raivas, mãos à cabeça, espicaçador.
- Quem disse para amarrar a merda do cabrito aqui?
Grita com superiores ganas de rachar o mundo. Segura a ponta da
corda, sacode-a perante o nariz. Muidinga se admira de tais fúrias. Que
lamentava o velho assim tão espalhafarto?
- Deve ter sido uma hiena, tio...
O velho, ríspido, agarra a cabeça do rapaz e lhe esfrega a corda
no rosto.
- Veja essa corda, satanhoco (Satanhoco: impropério equivalente
a sacana.). Veja!
O pobre miúdo nem que quisesse. A mão do velho lhe alicateia o
pescoço, dobrando seu fracturável corpo sobre os infernos. Me largue, tio. É a
súplica que ele consegue, já tombado nos joelhos.
- Veja aqui, grita Tuahir. Cortaram essa corda com faca!
Muidinga se arrepanha. Quem estivera ali com tais laminosas
intenções? Agora ele entende a fúria do velho. Um cabrito atado só servia para
agarrar os olhos dos passeantes.
- Mas, tio, não nos encontraram...
- Não fala comigo.
Os azedos de Tuahir não esvanecem durante o restante dia. A noite
decorre de olhos abertos, vigilantes. O matador do cabrito regressaria? O miúdo
se interroga: quem seriam os nocturnos saltinhadores? Matsangas (Matsangas:
designação pela qual são conhecidos os bandidos armados.)? Naparamas?
Simples esfomeados? Quem era que tinha sido não voltou naquela noite.
Quando amanhece Muidinga se achega ao velho e se desculpa:
- Não volto a fazer sem lhe ouvir.
Tuahir está mais amolecido, respirando aliviado. Fomos salvos pelo
machimbombo estar queimado, disse ele. E acrescentou:
- Os que vieram não voltam mais. Podemos descansar...
De novo, a morna monotonia se instala. Para distrair o tempo,
tiram o banco para fora do autocarro e colocam-no no meio da estrada. Sentam-se
a apanhar sol, com mais prazo que os lagartos. Muidinga repara que a paisagem,
em redor, está mudando suas feições. A terra continua seca mas já existem nos
ralos capins sobras de cacimbo. Aquelas gotinhas são, para Muidinga, um quase
prenúncio de verdes. Era como se a terra esperasse por aldeias, habitações para
abrigar futuros e felicidades. Mas o mato selvagem não oferece alimento para
quem não conhece seus segredos. E a fome começa a beliscar a barriga daqueles
dois. O estômago de Muidinga ronrona. O velho lhe pede contas:
- Tem fome, não é miúdo? Quem lhe mandou poupar o cabrito?
O moço está derreado, parece ter regressado ao estado da doença.
Está quase parente da estrada, parado e poeiroso. O velho Tuahir se aborrece
com a apatia do jovem.
- Já esqueceu falar, outra vez? É da fome isso. Sabe o que você
faz? Você engole com força. É, engole saliva, faz conta está entrar comida na
garganta. A fome fica confusa, assim.
O velho executa, por gestos, a sua própria sugestão.
Muidinga não reage. Tuahir ganha um súbito interesse no rosto do
rapaz como se estudasse ali os espelhos baços do seu interior. Se levanta, ele
e a sua voz, trabalhando juntos numa fúria:
- Você ainda continua com essa mania de encontrar seus pais? Está
proibido! Ouviste? Nem quero lhe ver pensando nesse assunto. Nunca mais.
Vê-se que se controla para não pontapear o moço, se nota um brilho
de violência como se houvessem dentes no seu olhar. Parte os ramos de um
arbusto, empurra o banco onde o miúdo permanece sentado.
- Olha
lhe vou dizer uma coisa: seus pais faleceram. Sim, eles foram mortos com balas
de bandidos. É por causa disso eu sempre estou insistir: abandona essa merda de
ideia. [continua]
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