Movida pela paixão reinventei-me e, moldada pelo teu fogo
nova mulher hoje sou; mais forte, lasciva e ardente; exercendo
bondades dantes nunca vistas, incendiando com labaredas outros desejos.
Acusada de namoradeira fui escorraçada da pequena vila onde
morava. Diziam por lá que roubava dos homens o juízo e jogava
dúvidas nas mulheres senhoras. Tornei-me perdição. Curvas
generosas; pele macia; os olhos, brasa ardente e as mãos, sabedoras de tantas
coisas, eram capazes de arrepiar.
Meu número preferido era sempre o das mãos. Me
provocava acariciando o próprio corpo. As mãos passeavam
namoradeiras por minha geografia corpórea, encontrando montes, vales, planícies
e até as regiões mais úmidas, das cavernas e fontes termais, quentinhas e
convidativas... Refém de mim mesma, ausentava-me do mundo.
Desse mesmo mundo que me arrancou o riso, depois os sonhos e
por fim as palavras... Deixando somente as lágrimas para me expor até a
alma.
Depois do show era como se eu todinha estivesse em vivas
labaredas, queimando por dentro à espera de outras ternuras para deflagrar em
mim as loucuras que somente a paixão autoriza e em mil gotas me esvair todinha.
Como bruxa, feiticeira ou mulher pagã, minha beleza lançava
encantamentos e tornava prisioneiro qualquer virilidade que por mim
passasse. Com ternos olhares contemplava nos homens aquilo que de
mais belo havia e que na maioria das vezes em segredo ficava. Provocava
inquietações e deixava na cama uma ausência doída, que pedia e implorava por um
pouco mais.
Nas reentrâncias da vida quanto mais mostrava meu corpo mais
segredos surgiam... Era como um raro tesouro que a todos agradava presentear e
receber. E que tesouro! Seios fartos, que se exibiam prazerosamente como um
adereço precioso para acender até as fogueiras mais apagadas. Ao menor toque já
se punham em prontidão, lânguidos, cheios de promessas e prontos para acalmar
tempestades e controlar vendavais. Muito além do que se pode
imaginar, esses toques másculos eram esperados sofregamente. A partir deles as
portas para outro mundo se abriam. Repleto de curvas, prazeres e
posições que só as noites mais tórridas são capazes de explicar.
Durante as visitas que tão calorosamente recebia perdia a
noção a do espaço, do tempo e das boas maneiras. Tornava-me menina
má. Sem modos, sem roupas, sem pudores. Adorava ser observada,
desejada, tocada e possuída. E, com uma força propulsora que
sustentava minha leveza de corpo e espírito revelava contribuições inimagináveis
para esses momentos. Minhas mãos tão delicadas tornavam-se ávidas
pelo mágico vai e vem capaz de aumentar o membro que mais tarde me daria
prazeres indispensáveis. Elas eram o convite para essa conexão tão
esperada.
A boca, um verdadeiro vulcão, proliferando desejos e
dominando até as mais remotas proezas, jamais poderá ser reinventada. Ia
muito além do que sabia e devia fazer. Era também toda sorrisos e
mel, agregando sempre mais conhecimentos e funções. Era com ela que
além das provocações que oferecia também pedia por mais. Envolvia, enfeitiçava
e abocanhava o que sentia ser meu... Só meu, naquele momento, todinho
meu.
Em uma posição privilegiada registrava imagens espelhadas
daquele belo rosto, e daquele corpo majestoso que em minhas armadilhas foi
laçado. Tínhamos o infinito como tempo e nenhuma restrição em nossos
corpos. Fazia para meu convidado ensaios provocativos e avançava
sinais na intimidade. Acertava roteiros para as viagens mais loucas entre
quatro paredes e encontrava lugares nacionais e até internacionais onde a
língua não servia apenas para falar, mas tornava-se um ícone clássico e
gracioso, uma intrusa abusada que consumia grande parte do tempo em excursões
que promoviam o começo do tão esperado fim. De sabor insuperável, o
néctar que ela estimulava, era todo devorado. Não havia espaço para
abordagens minimalistas. Sempre fui assim, gulosa e possessiva.
Descobrir uma nova maneira de ser parecia-me
impossível; mas me fascinava a ideia de ampliar minhas experiências, tornar
melhor o que já era considerado maravilhoso. Não admitia a
possibilidade de fazer o que quer que fosse como rotina, um ato mecânico ou sem
paixão. Pra mim, meu trabalho era minha paixão e por isso não tirava
as roupas simplesmente. Despia-me delas como um ator quando
incorpora sua personagem, sem pressa alguma, com cautela, esmero e seduzindo em
cada gesto; desde o primeiro visitante até o último de cada dia, com cara,
coragem e coração aberto, saciando fomes de beleza, encantamento, do corpo e da
alma. Aqueles que me procuravam não queriam apenas
sexo. Buscavam o melhor de mim, as promessas não satisfeitas, os
sonhos que não conseguiram realizar, as expectativas que ruíram, o equilíbrio
das forças que perderam. Restituía-lhes tudo isso e avançava em ritmo
acelerado, pois, o frenesi causado pelo meu corpo galopando suas incertezas era
uma mostra clara de que não havia truques ou fingimentos. O que vivia naquele
momento era real, intenso e fervilhava de desejo e energia.
7 comentários:
Muto bom o texto.
Obrigada querida... vez ou outra escrevo algo assim, mas esse tipo de texto não posso levar pra sala de aula, por isso vocês não tiveram a oportunidade de conhecê-lo lá. Tem sempre alguma novidade aqui no blog, volte mais vezes.
Eu sempre leio teus textos, e esse me surpreendeu, a forma de escrita, não tão vulgar, mas mostrando, revelando as coisas. Volto sim, posta mais textos assim. É uma pena não poder levar pra sala, não pelo fato de ser algo "erótico", mas por algumas pessoas não saberem levar a sério esse assunto. Beijos querida
Uma agradável surpresa! Seu texto é, a um tempo, equilíbrio e labareda. Como escritor, adoro encontrar colegas de verdadeiro valor, a quem eu possa elogiar,o que não é tão fácil de encontrar. quando encontro, como no seu caso,fazer isso me dá uma imensa satisfação. E. ainda mais. por vir de uma mulher,na plenitude dos seus direitos de expor o seu erotismo com sensibilidade, paixão e estilo literário,livro do amargo travo atávico do machismo desolador. Parabéns.
Parabéns, Rosilda. Escrito com muita elegância e sensibilidade. Bjs
Sandra querida teus elogios sempre foram suspeitos. Amigos sempre tem um palavras confortáveis e gostosas de se ouvir, mas ainda gostei do "elegância e sensibilidade". bjs
Caro Milton, um elogio vindo de sua parte muito me agrada a pode ter certeza de que a satisfação é minha em tê-lo visitando meu blog. Estou trabalhando em um outro conto semelhante, logo disponibilizarei aqui. Volte mais vezes!
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